Em Cristo estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento. (Colossenses 2:3)

Ninguém vos engane com palavras vãs; porque por essas coisas vem a ira de Deus sobre os filhos da desobediência.(Efésios5:6)
Digo isso a vocês para que não deixem que ninguém os engane com argumentos falsos. (Colossenses 2:4)
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31 de julho de 2015

A Circuncisão do Coração

 
 
 
Dentre os rituais prescritos na lei mosaica, nenhum era mais radical do que a circuncisão. Trata-se de um procedimento cirúrgico no qual se remove o prepúcio, a pele que recobre a glande do órgão reprodutor masculino, tão invasivo e traumático quanto o corte do cordão umbilical. Diferentemente de outras cerimônias como as que exigiam o sacrifício de animais, a circuncisão deixava uma marca no corpo do indivíduo.

Na verdade, a circuncisão foi instituída bem antes da lei, servindo de selo da aliança entre Deus e os descendentes de Abraão. Todo filho varão deveria ser circuncidado ao oitavo dia (G.17:10-12). O próprio Jesus precisou ser submetido ao rito.

Atualmente, muitos defendem a circuncisão como uma medida de higiene, útil para impedir o acúmulo de secreção genital no espaço entre a glande e o prepúcio, região comumente foco de infecções. Pesquisas apontam os benefícios práticos da circuncisão como a redução de infecções urinárias, câncer peniano e câncer do colo do útero nas parceiras, doenças sexualmente transmissíveis, dentre as quais o HIV. Apesar do valor atribuído pela medicina moderna à prática, gostaria de propor uma investigação bíblica em busca de seu sentido simbólico/espiritual.

O escritor sagrado diz que os ritos e cerimônias da lei têm “a sombra dos bens futuros, e não a imagem exata das coisas” (Hb.10:1). Paulo complementa dizendo que a realidade para a qual eles apontam se encontra “em Cristo” (Col.2:16-17). Portanto, muito mais do que uma medida higiênica e preventiva, a circuncisão encerra em si um significado mais amplo e profundo.

Bem da verdade, a circuncisão acabou se tornando motivo de muita controvérsia na igreja primitiva. Alguns discípulos judeus achavam que qualquer gentio que se convertesse à fé deveria se submeter ao rito. Somente assim, o novo convertido seria aceito na comunidade dos cristãos, sendo oficialmente incluído entre os descendentes de Abraão.

Paulo foi um dos que mais combateram tal crença. Segundo o apóstolo, o que antes era um sinal da aliança entre Deus e Abraão, agora se tornara numa ferramenta para manter as pessoas reféns de uma religiosidade frívola e vã.

“Tendo cuidado”, advertiu Paulo, “para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo; porque nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade, e tendes a vossa plenitude nele, que é a cabeça de todo principado e potestade, no qual também fostes circuncidados com a circuncisão não feita por mãos no despojar do corpo da carne, a saber, a circuncisão de Cristo” (Col.2:8-11).

Portanto, a circuncisão instituída na lei era apenas uma sombra da verdadeira circuncisão à qual somos submetidos em Cristo. N’Ele alcançamos a plenitude; em outras palavras, não nos falta nada. Estamos completos. Sua graça nos basta. Não há acréscimos a fazer.

Alguns discípulos mais moderados achavam que a circuncisão deveria ser encarada como algo opcional. Quem quisesse, poderia ser circuncidado. Quem não quisesse, poderia manter-se incircunciso. Porém, Paulo, prevendo que isso promoveria a divisão dos cristãos em duas classes distintas, opôs-se radicalmente. “Se vos deixardes circuncidar”, alerta o apóstolo, “Cristo de nada vos aproveitará” (Gl.5:2). E a lógica que ele usava era imbatível: “E de novo protesto a todo o homem que se deixa circuncidar, que está obrigado a guardar toda a lei” (v.3). Não dava para transigir. Quem quisesse viver sob a égide da lei, teria que observá-la por completo. Ou tudo, ou nada. Ou se vive pela lei, ou se rende à graça. E ele mesmo sentencia: “Separados estais de Cristo, vós os que vos justificais pela lei; da graça tendes caído” (v.4).

Para Paulo, aquela era uma questão há muito superada. Transformá-la num cavalo de batalha era total perda de tempo. Por isso, ele se nega a pôr panos quentes. O assunto tinha que se encerrar ali mesmo. “Porque”, afinal, “em Jesus Cristo nem a circuncisão nem a incircuncisão tem valor algum; mas sim a fé que opera pelo amor” (v.6). E arremata: “Porque em Cristo Jesus nem a circuncisão, nem a incircuncisão tem virtude alguma, mas sim o ser uma nova criatura” (Gl.6:15). Nem valor, nem virtude. Portanto, ninguém pode se gabar perante Deus pelo simples fato de ter sido circuncidado conforme prescrito na lei.

Em quase todas as suas epístolas, Paulo teve que retomar a questão, mesmo que a contragosto. A igreja sofria um ininterrupto assédio dos que defendiam a circuncisão como condição sine qua non para a salvação. Aos Filipenses, ele defende que a verdadeira circuncisão “somos nós, que servimos a Deus em espírito, e nos gloriamos em Jesus Cristo, e não confiamos na carne”(Fp.3:3). Ao contrário da lei que servira como plataforma de um sistema meritório, a graça derruba qualquer presunção humana, posto que revele nossa falência espiritual, a fraqueza de nossa carne e a nossa inabilidade em cumprir as demandas da justiça divina. Não dá para confiar em Cristo e confiar em nossa carne ao mesmo tempo. Qualquer tentativa de se estabelecer uma meritocracia sucumbe ante a radicalidade da graça.

Aos cristãos de Roma, ele alfineta:
“Porque não é judeu o que o é exteriormente, nem é circuncisão a que o é exteriormente na carne. Mas é judeu o que o é no interior, e circuncisão a que é do coração, no espírito, não na letra; cujo louvor não provém dos homens, mas de Deus.” Romanos 2:28,29
Circuncisão do coração? De onde Paulo teria tirado este conceito? Seria um conceito totalmente novo? Haveria algum indício no Antigo Testamento de que sob a nova aliança a circuncisão da carne seria substituída pela circuncisão do coração? E o que significaria tal circuncisão?

Jeremias, o mais emotivo dentre os profetas, admoesta:

“Circuncidai-vos ao Senhor, e tirai os prepúcios do vosso coração, ó homens de Judá e habitantes de Jerusalém, para que o meu furor não venha a sair como fogo, e arda de modo que não haja quem o apague, por causa da malícia das vossas obras.” Jeremias 4:4

Esta passagem vetero-testamentária deixa claro que a não circuncisão de nosso coração atrairia o juízo de Deus. Fica igualmente subentendido que nossas más obras nada mais são do que frutos de um coração incircunciso.

Mesmo durante a instituição da lei, muito antes da Era dos grandes profetas, Deus já havia Se comprometido a promover a circuncisão do coração do Seu povo. Portanto, não se trata de obra humana, mas divina. Leia o que diz Moisés sobre isso:

“E o Senhor teu Deus circuncidará o teu coração, e o coração de tua descendência, para amares ao Senhor teu Deus com todo o coração, e com toda a tua alma, para que vivas.” Deuteronômio 30:6

Repare nisso: a circuncisão do coração é que nos possibilita a amar a Deus. Jesus disse que toda a lei foi resumida em dois mandamentos: Amar a Deus e amar ao próximo. Sem que o homem tenha seu coração circuncidado, ele jamais será capaz de cumpri-los. O cumprimento de ambos depende totalmente desta operação feita pelo Espírito Santo em nosso interior. E uma vez que sejamos incapazes de amar ao nosso semelhante, certamente lhe negaremos também a justiça.

“Circuncidai, pois, o prepúcio do vosso coração, e não mais endureçais a vossa cerviz. Pois o Senhor vosso Deus é o Deus dos deuses, e o Senhor dos senhores, o Deus grande, poderoso e terrível, que não faz acepção de pessoas, nem aceita subornos; que faz justiça ao órfão e à viúva, e ama o estrangeiro, dando-lhe pão e roupa.” Deuteronômio 10:16-18

A paz só é possível se houver justiça, e esta, por sua vez, só se cumpre onde haja amor. Todavia, há um prepúcio no coração de todo homem que o impede de ver isso. Paulo também se refere a esta cobertura como um véu capaz de endurecer o entendimento humano. Daí a advertência para que não endurecemos a nossa cerviz. Em outras palavras, temos que deixar de ser cabeça dura. Porém, para isso, o véu tem que ser removido. E isso só ocorre quando somos convertidos a Cristo (2 Co.3:13-18). Portanto, a genuína conversão equivale a ter o coração circuncidado.

Permita-me lançar mão de uma compreensão psicanalítica de nossa condição humana que parece ecoar a verdade anunciada nas Escrituras.

De acordo com Freud, todos nascemos narcisistas. Ao nascermos, todo o nosso amor é voltado para nós mesmos. Até a nossa mãe é vista como sendo uma extensão de nosso ser. Isso parece se encaixar perfeitamente com o que a teologia cristã diz acerca de nossa condição humana: todos nascemos em pecado (Sl.51:5). Pecado é, por definição, errar o alvo. Não fomos criados para o amor próprio, mas para amar a Deus e ao nosso semelhante. O amor próprio é, por assim dizer, a essência do pecado. Nascemos em pecado porque nascemos voltados para nós mesmos. Investimos todo o nosso afeto em nosso eu. O outro não passa de um espelho onde vislumbramos nossa imagem. É pelo outro que tomamos consciência de que existimos. O mundo parece nos orbitar. Até que ocorre um trauma de tal ordem que Freud chama de castração. Se o narcisismo é a entronização do “eu”, a castração é a sua deposição. Somos confrontados pela lei imposta pelo superego num processo chamado de Complexo de Édipo, através do qual descobrimos que nem todos os nossos desejos podem ser saciados. O papel do superego é nos munir de consciência moral, ditando-nos o bem a ser buscado, e o mal a ser evitado. É através da castração que a lei é cravada em nossa consciência, gerando uma estrutura psíquica neurótica, fundamentada no desejo e na culpa. Uma eventual falha na castração gerará uma estrutura psíquica psicótica, ou mesmo perversa, em que o sujeito é incapaz de se sentir culpado. Sem que haja culpa, também não haverá arrependimento. É necessário que a lei cumpra seu papel, a fim de que a graça entre em cena, de modo que se cumpra a célebre declaração apostólica: “Onde abundou o pecado, superabundou a graça” (Rm.5:20). Como cristão que crê no ministério do Espírito em convencer o homem acerca do pecado, da justiça e do juízo (Jo.16:8), creio firmemente que ninguém está imune à Sua eficiente atuação, nem mesmo o psicótico ou o perverso. Porém, esta atuação passa necessariamente pela admissão de culpa, sem a qual, jamais se alcançará a consciência grata pelo perdão. Sem a lei, não há evangelho possível. A lei condena para que o evangelho absolva.

Engana-se quem pensa que a lei foi legada exclusivamente aos judeus. Paulo afirma que mesmo os gentios “fazem naturalmente as coisas que são da lei, não tendo eles lei, para si mesmos são lei; os quais mostram a obra da lei escrita em seus corações, testificando juntamente a sua consciência, e os seus pensamentos, quer acusando-os, quer defendendo-os” (Rm.2:14,15). Esta tal lei no coração é o que Freud chama de superego.

É justamente a castração que nos lança para fora de nós mesmos e nos faz buscar no outro o que não encontramos em nós, posto que revele nossa desesperadora condição de incompletude.

Agora temos um ego suprimido pelo superego e uma terceira instância psíquica a que Freud chama de Id, que equivale ao que Paulo chama de “carne”. Digamos que o superego seja aquele anjinho que nos estimular a fazer o que é certo, enquanto que o Id é o diabinho que nos instiga a fazer o que é errado. Caberá ao ego arbitrar entre as demandas do superego e do Id.

Devido à nossa condição pecaminosa, somos bem mais propensos a atender aos apelos do Id do que aos estímulos do superego. Queremos saciar os desejos de nossa carne a qualquer custo, mesmo que isso resulte na infelicidade de outros. Diferente das estrelas ao redor das quais orbitam os mais variados planetas, tornamo-nos buracos negros que sugam tudo ao seu redor.

A castração não foi suficiente para nos tornar seres humanos plenos. Quando muito, devemos a ela nossa introdução à adolescência espiritual. A plenitude de que tanto carecemos se encontra na graça revelada em Cristo. Ela nos liberta da opressão do superego e da contínua pressão do Id.

A circuncisão do coração nos oferece um estágio para além da castração. Tanto o ego, quanto o superego são destituídos e em seu lugar entronizamos respectivamente a Cristo e ao Espírito Santo. "Estou crucificado com Cristo", declara Paulo, "e já não vivo eu, mas Cristo vive em mim" (Gl.2:20). O eixo ao redor do qual gira nossa existência deixa de ser nosso eu para ser Cristo, e a voz da nossa consciência deixa de ser a voz inquisitiva da lei para ser a doce e encorajadora voz do Espírito Santo. Somente o Id segue ocupando o mesmo lugar, posto que a carne jamais se converte. Somente nos livramos das pulsões de nossa natureza pecaminosa quando recebermos novos corpos e Deus for tudo em todos (1 Co.15:28; Fp.3:21).

Mediante a castração, fomos levados à Árvore do Conhecimento do Bem do Mal, mas somente pela circuncisão do coração somos reconduzidos à Árvore da Vida.

A partir daí, em vez de enxergar nossa própria imagem (narcisismo), passamos a enxergar em nós mesmos a imagem de Cristo e a flagrante transformação patrocinada pelo Espírito da Liberdade (2 Co.3:18). Finalmente, com o coração circuncidado, deixamos de viver para nós mesmos. Como declara Paulo, “o amor de Cristo nos constrange, julgando nós assim: que, se um morreu por todos, logo todos morreram. E ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si” (2 Co.5:14-15). Este santo constrangimento não apenas afeta a maneira como enxergamos a nós mesmos, mas também a maneira como enxergamos o outro. Paulo complementa: “Assim que daqui por diante a ninguém conhecemos segundo a carne” (v.16). Em outras palavras, já não buscamos no outro nossa própria satisfação. O outro deixa de ser um mero item de nosso desejo, um sonho de consumo, e passa a ser visto e acolhido como alguém a quem devemos devotar despretensiosamente nosso amor. Pela graça tornamo-nos livres para amar tanto a Deus quanto a nosso próximo; não impulsionados pela culpa neurótica gerada pela lei (superego), mas pelo Espírito de Cristo; não pelo medo de sermos inadequados às expectativas dos outros, mas pelo prazer de encontrar na felicidade alheia a razão de nossa própria felicidade.

Pode-se dizer, então, que o ser concebido no ambiente uterino só alcançará a plenitude de sua humanidade ao ser regenerado, passando pela circuncisão de seu coração.
 

Hermes C. Fernandes
 
FONTE:
http://oleirosdorei.blogspot.com.br/2015/05/a-circuncisao-do-coracao.html 
 
 

14 de novembro de 2011

OS VALORES INTERNOS E EXTERNOS DA CIRCUNCISÃO



Por Luiz Gama

Na Bíblia, vemos que os “filhos de Israel (ou hebreus, como eram chamados naquele tempo) entravam em aliança com Deus por meio de três ritos: a circuncisão (berit-milá), a imersão (tevilá) e o oferecimento de um sacrifício (corbán)”1.

Abraão foi a primeira pessoa a aceitar o chamado divino para sair “... da tua terra, e da tua parentela, e da casa de teu pai...” (Gn 12.1) em obediência à voz de Deus. Esta aceitação foi selada pelo sinal da aliança: “Este é o meu concerto, que guardareis entre mim e vós e a tua semente depois de ti: Que todo o macho será circuncidado. E circuncidareis a carne do vosso prepúcio; e isto será por sinal do concerto entre mim e vós. O filho de oito dias, pois, será circuncidado; todo o macho nas vossas gerações, o nascido na casa e o comprado por dinheiro a qualquer estrangeiro, que não for da tua semente. Com efeito, será circuncidado o nascido em tua casa e o comprado por teu dinheiro; e estará o meu concerto na vossa carne por concerto perpétuo. E o macho com prepúcio, cuja carne do prepúcio não estiver circuncidada, aquela alma será extirpada dos seus povos; quebrantou o meu concerto” (Gn 17.10-14).

A circuncisão foi o primeiro mandamento observado por Abraão cuja idade já era bem avançada: “Era Abraão da idade de noventa e nove anos, quando lhe foi circuncidada a carne do seu prepúcio. E Ismael, seu filho, era da idade de treze anos, quando lhe foi circuncidada a carne do seu prepúcio” (Gn 17.24-25). Quando os hebreus estavam prestes a celebrar a Páscoa (Pêssach, em hebraico), Moisés circuncidou todos os homens. Fez isso para que pudessem ser contados como participantes das promessas divinas e, assim, tivessem o direito de participar do cordeiro pascal (Êx 12.48) sem nenhum problema.
“A circuncisão tornou-se um sinal de identificação com o povo da aliança” 2.

Conforme vimos nos textos acima, a circuncisão passou a ser praticada pelos patriarcas desde antes da promulgação da lei mosaica. E até hoje é considerada a mais importante cerimônia do judaísmo. Nenhuma comemoração ou data deve impedir o menino judeu de fazer a circuncisão, nem mesmo o sábado (Shabat) ou o Dia da Expiação (Yom Kipúr). Somente em caso de saúde cuja gravidade possa comprometer a vida do infante esta cerimônia será adiada para outro dia após o oitavo dia do nascimento. Para o judeu, “o dia mais sagrado do calendário judaico é o sábado. A punição na Bíblia por violar o Shabat é muito mais severa do que por violar o Yom Kipúr.3 A primeira gera morte, e a segunda, excomunhão.

Mesmo que o oitavo dia coincidisse com o sábado a criança era circuncidada: “Porque Moisés vos deu a circuncisão (embora na realidade ela não venha de Moisés, mas dos patriarcas), no sábado circuncidais um homem. Ora, se o homem pode receber a circuncisão no sábado, para que não se viole a lei de Moisés, por que vos indignais contra mim por eu ter curado o homem todo no sábado?” (Jo 7.22-23).

A circuncisão e a ciência

Quanto ao aspecto de a circuncisão ser obrigatoriamente praticada no oitavo dia após o nascimento, um fato interessante: a medicina constatou que é justamente nesse período que o sangue da criança coagula mais facilmente, proporcionando rápida cicatrização. “Este assunto foi abordado por dois cientistas que afirmam que o bebê tem uma sensibilidade especial para sangramentos nos primeiros dias de vida e qualquer hemorragia, por menor que seja, pode trazer grandes danos para a criança, e até a morte. Isto porque a base principal para a coagulação sanguínea, a vitamina K, só chega ao nível ideal no sétimo dia de vida. Também outro elemento necessário para a coagulação sanguínea, a protombina, atinge o seu nível máximo somente no oitavo dia de vida; chega até a estar acima do nível normal – 110%. Depois disso decresce e estabiliza-se em 100%. Está claro, então, que o primeiro momento mais seguro para a realização da milá é o oitavo dia, tanto pela quantidade de vitamina K quanto de protombina” 4. Pela perspectiva médica, a circuncisão é aconselhável como uma medida sanitária. Hoje, muitos hospitais nos Estados Unidos utilizam a circuncisão como um processo rotineiro.

Originalmente, era obrigação do pai circuncidar seu filho. O primeiro exemplo foi Abraão que circuncidou Isaque quando ele tinha oito dias de idade (Gn 21.4). Mas, atualmente, a circuncisão é realizada por um profissional chamado Mohel em hebraico, pessoa treinada e especializada para executar tal operação. O homem que segura a criança é chamado sandec, título derivado do grego que significa “padrinho”. Em hebraico, ele é conhecido como baal berit, que quer dizer “chefe da circuncisão”, pois assume posição central (de grande responsabilidade) durante a cerimônia.

Durante todo o ritual da circuncisão, um assento é posto ao lado da cadeira reservada para o sandec. “Esta cadeira, que permanece vaga, é reservada para o profeta Elias que, de acordo com a tradição, presencia cada berit para proteger a criança do perigo”5. Todos os presentes acompanham a cerimônia da circuncisão de pé, em reverência à ordenança divina. Antes e depois da circuncisão são pronunciadas as bênçãos. Em seguida, é dado o nome da criança. “A retirada de sangue é conhecida como hatafat dam berit, ou seja, extração de sangue da Aliança” 6. Se o pai for capaz de realizar a circuncisão, não é permitido a ele delegar a função a nenhuma outra pessoa. Precisamos esclarecer que não é por meio da cerimônia da circuncisão que o menino é iniciado no judaísmo, isso ocorre no nascimento. A circuncisão é o cumprimento na vida do menino judeu que irá refletir sua fé interior no pacto que Deus selou com seu povo. O Talmude (San’hedrin 44ª) declara: “que um judeu permanece judeu para sempre, mesmo se ele cometer um pecado. Como pecador, ele pode perder certos privilégios, mas não perde seus direitos de judeu”7. Todavia, entre os judeus não há uma definição de quem é judeu. Existem duas maneiras de se fazer parte da comunidade judaica:

1) Segundo o rabino Yits’chac Halevi Herzog, "somente é judeu o nascido de mãe judia". Se a mãe não for judia e o pai sim, o filho não é judeu. A única maneira pela qual alguém cuja mãe não é judia pode tornar-se judeu é convertendo-se. Para a conversão de uma mulher, é necessária a imersão (micvá); para o homem, são necessárias a imersão e a circuncisão. Aqueles que nasceram judeus e os convertidos, declarou o rabino, são judeus para sempre”8;

2) Para o primeiro-ministro de Israel David Ben Gurion (1886-1973), “qualquer um que se declare judeu, viva como tal e esteja interessado no bem-estar dos judeus é considerado judeu, independente da fé professada por sua mãe” 9.

A declaração do primeiro-ministro de Israel está de acordo com a afirmação do apóstolo Paulo, que diz: “Porque não é judeu o que o é exteriormente, nem é circuncisão a que o é exteriormente na carne. Mas é judeu o que o é no interior, e circuncisão, a que é do coração, no espírito, não na letra, cujo louvor não provém dos homens, mas de Deus” (Rm 2.28-29). O mais importante é que a circuncisão tem um significado espiritual de grande importância, pois demonstra que o Eterno Deus requer de seu povo não somente uma aliança externa na carne, mas determina pureza e compromisso interiores, pela circuncisão do coração: “E o Senhor, teu Deus, circuncidará o teu coração e o coração de tua semente, para amares ao Senhor, teu Deus, com todo o coração e com toda a tua alma, para que vivas” (Dt 30.6); e ainda: “Circuncidai, pois, o prepúcio do vosso coração e não mais endureçais a vossa cerviz” (Dt 10.16). Podemos ver que a circuncisão do coração era um requisito divino até mesmo para os israelitas que já eram circuncisos na carne.

A verdadeira circuncisão

Uma análise mais profunda da circuncisão nos mostra que este mandamento, dirigido a Abraão, é uma aliança eterna com os filhos de Israel, isto é, uma aliança de afinidade com o povo judeu, por meio da qual o Eterno se compromete em tornar os descendentes de Abraão em uma grande nação e em separá-los como um povo especial para Ele (Gn 12.1-3). Assim, a circuncisão, para o judeu, não é apenas um mandamento, mas uma identificação pessoal e intransferível outorgada pelo Deus de Israel que o diferencia de todas as outras nações. Não se trata apenas de um costume, mas é o elo que mantém unido o povo hebreu através dos séculos: “O povo judeu cumpre com muito amor esta mitsvá (mandamento) há milhares de anos. Só a ordem divina já nos dá motivação suficiente para cumpri-lo” 10.

“Qual é, logo, a vantagem do judeu? Ou qual a utilidade da circuncisão? Muita, em toda a maneira, porque, primeiramente, as palavras de Deus lhe foram confiadas” (Rm 3.1-2); e também “... a adoção de filhos, e a glória, e os concertos, e a lei, e o culto, e as promessas” (Rm 9.4). A circuncisão, como aliança, foi dada por Deus a Abraão em um determinado tempo e espaço com a intenção de gerar para si um povo santo: “Porque eu sou o Senhor, que vos faço subir da terra do Egito, para que eu seja vosso Deus, e para que sejais santos; porque eu sou santo” (Lv 11.45). Portanto, “a circuncisão é, na verdade, proveitosa, se tu guardares a lei; mas, se tu és transgressor da lei, a tua circuncisão se torna em incircuncisão” (Rm 2.25).

“Os que ouvem a lei não são justos diante de Deus, mas os que praticam a lei hão de ser justificados. Porque, quando os gentios, que não têm lei, fazem naturalmente as coisas que são da lei, não tendo eles lei, para si mesmos são lei, os quais mostram a obra da lei escrita no seu coração, testificando juntamente a sua consciência e os seus pensamentos, quer acusando-os, quer defendendo-os, no dia em que Deus há de julgar os segredos dos homens, por Jesus Cristo, segundo o meu evangelho. Eis que tu, que tens por sobrenome judeu, e repousas na lei, e te glorias em Deus; e sabes a sua vontade, e aprovas as coisas excelentes, sendo instruído por lei; e confias que és guia dos cegos, luz dos que estão em trevas, instruidor dos néscios, mestre de crianças, que tens a forma da ciência e da verdade na lei; tu, pois, que ensinas a outro, não te ensinas a ti mesmo? Tu, que pregas que não se deve furtar, furtas? Tu, que dizes que não se deve adulterar, adulteras? Tu, que abominas os ídolos, comete sacrilégio? Tu, que te glorias na lei, desonras a Deus pela transgressão da lei? Porque, como está escrito, o nome de Deus é blasfemado entre os gentios por causa de vós. Porque a circuncisão é, na verdade, proveitosa, se tu guardares a lei; mas, se tu és transgressor da lei, a tua circuncisão se torna em incircuncisão. Se, pois, a incircuncisão guardar os preceitos da lei, porventura, a incircuncisão não será reputada como circuncisão? E a incircuncisão que por natureza o é, se cumpre a lei, não te julgará, porventura, a ti, que pela letra e circuncisão és transgressor da lei? Porque não é judeu o que o é exteriormente, nem é circuncisão a que o é exteriormente na carne. Mas é judeu o que o é no interior, e circuncisão, a que é do coração, no espírito, não na letra, cujo louvor não provém dos homens, mas de Deus” (Rm 2.13-29).

O apóstolo Paulo é taxativo: sem obediência, a circuncisão se transforma em incircuncisão. “Mas agora em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, já pelo sangue de Cristo chegaste perto. Porque ele é a nossa paz, o qual de ambos os povos fez um; e, derribando a parede de separação que estava no meio, na sua carne, desfez a inimizade, isto é, a lei dos mandamentos, que consistia em ordenanças, para criar em si mesmo dos dois um novo homem, fazendo a paz, e pela cruz, reconciliar ambos com Deus em um corpo, matando com ela as inimizades” (Ef 2.13-16).

O mesmo apóstolo ainda afirmou que a verdadeira “...circuncisão somos nós que servimos a Deus no Espírito, e nos gloriamos em Jesus Cristo, e não confiamos na carne” (Fl 3.3). Esse argumento do apóstolo Paulo gerou grande conflito, pois os judaizantes eram da opinião de que a circuncisão era medida necessária para salvação. Entendiam que a circuncisão fazia parte do pacto abraâmico, e qualquer indivíduo que não fosse circuncidado não poderia ter a esperança de ser salvo. Logo, todos os circuncidados já estavam automaticamente absolvidos de todo julgamento. “Entretanto, no dizer das Escrituras, qual era o real valor da circuncisão?
a) A circuncisão era o sinal do pacto abraâmico, além de ser um dos muitos privilégios de Israel, o que fazia deles uma sociedade superior (Rm 9.4-5);

b) Tinha valor como preparação para melhores coisas vindouras. Também falava sobre a santificação. Isso teria lugar em Cristo. Falava de identificação com a geração de Abraão, e isso, por sua vez, tipificava o que Deus faria mediante o filho de Abraão, Jesus, o Messias;

c) Falava de um povo que seria separado para a santidade e a salvação. Tornava os homens cônscios de que existiam esses privilégios, e, sabendo-o, talvez os buscassem, se ao menos fossem suficientemente sábios;

d) A circuncisão afetava o órgão gerador, e isso simbolizava a produção de vida. A vida eterna está em Cristo e os homens, por darem atenção à mensagem de Deus e tomando parte em seu conceito, podem aprender acerca da real fonte da vida;

e) Há uma real circuncisão, de ordem absoluta, isto é, a circuncisão do coração. A santificação genuína leva os homens à salvação (Rm 2.29);

f) A circuncisão era um mero sinal. A verdade simbolizada era a salvação. Por igual modo, o batismo é apenas um sinal, um símbolo, e não a substância, ou qualquer parte da substância essencial da salvação (Cl 2.11)” 11.
Na nova aliança, o que precisa ser circuncidado é o coração, e não a carne. Devemos cortar da nossa vida tudo aquilo que seja desagradável e impuro aos olhos de Deus. Muitos cristãos hoje são um testemunho vivo do poder do Espírito Santo que transformou o seu modo de pensar e agir (1Co 6.9-11; Gl 5.22-24; Ef 4.22-24).

O que é a circuncisão?

É a remoção da pele que cobre a glande, ou prepúcio, do pênis. O verbo hebraico mul (circuncidar) é usado em sentido literal e figurativo. O substantivo grego peritomé (circuncisão) significa literalmente “cortar em derredor” (Jo 7.22). O termo grego akrobystía é usado na septuaginta grega para traduzir a palavra hebraica para “prepúcio”, “incircuncisão”, e daí, “gentios” 1.

“A prática de cortar fora o prepúcio do pênis era usada mesmo antes da época de Abraão” 2. Os egípcios praticavam a circuncisão, e também os moabitas, os amonitas e os edomitas. Mais tarde, os samaritanos que aderiram aos requisitos especificados no Pentateuco também foram circuncidados. Por outro lado, os assírios, os babilônios (como todos os semitas orientais), os gregos e notavelmente os filisteus não praticavam a circuncisão. Estes últimos, especialmente, são mencionados de modo depreciativo como “incircuncisos”, e foi das lutas contra eles que Davi trouxe como troféu os prepúcios (Jz 14.3; 15.18; 1Sm 14.6; 17.26; 18.25-27; 2Sm 1.20; 1Cr 10.4).

Notas:
1 Livro Judaico dos Porquês. Alfred J. Kolatch. Ed. Sefer. Vol 2. p. 138.
2 Livro Judaico dos Porquês. Alfred J. Kolatch. Ed. Sefer. Vol 2. p. 138.
3 Livro Judaico dos Porquês. Alfred J. Kolatch. Ed. Sefer. Vol 1. p. 257.
4 Nos Caminhos da Eternidade. Rabino Issac Dichi. pp. 146,147.
5 Livro Judaico dos Porquês. Alfred J. Kolatch. Ed. Sefer. Vol. 1. p.22.
6 Livro Judaico dos Porquês. Alfred J. Kolatch. Ed. Sefer. Vol 2. p. 141.
7 Livro Judaico dos Porquês. Alfred J. Kolatch. Ed. Sefer. Vol 2. p. 21.
8 Livro Judaico dos Porquês. Alfred J. Kolatch. Ed. Sefer. Vol 2. p. 19.
9 Livro Judaico dos Porquês. Alfred J. Kolatch. Ed. Sefer. Vol 2. pp. 19-20.
10 Nos Caminhos da Eternidade. Rabino Issac Dichi. p. 145.
11 Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia.
R.N. Champlin / J.M. Bentes. Ed. Candeia. Vol. 1. p. 748.

http://www.icp.com.br/47materia1.asp

22 de novembro de 2010

A CIRCUNCISÃO DOS JUDEUS

 

O substantivo grego peritome (circuncisão) significa literalmente «um corte em volta».Circuncisão em hebraico é berit, que significa «aliança». A Circuncisão é o ato em que consiste em cortar o prepúcio, do órgão masculino, operação que podia ser praticada pelo chefe da família, às vezes pela própria mãe (Êx 4.25), ou por qualquer outro dos israelitas. Em tempos posteriores, usava-se uma autoridade designada, um especialista para esta operação chamado de mohel (corta-fora). Para os judeus, a circuncisão é um dos mais importantes dos seus 613 mandamentos. Era um rito de iniciação na família de Yahweh, representadas em Abraão, para que o indivíduo participasse dos privilégios e promessas contidas no concerto, ou pacto celebrado por Yahweh. Foi instituído por Yahweh como rito da religião judaica, e aplicado primeiramente a Abraão e todos os de sua casa, quer adquirido por compra ou não. O tempo próprio para esta operação ritual era o oitavo dia depois do nascimento do menino, compreendendo, ainda, os escravos (Gên 17.12,13). Entretanto, os nascidos antes da instituição deste rito, podiam ser circuncidados em qualquer época de sua idade. É o caso, por exemplo, de Abraão e Ismael, o primeiro circuncidado aos 99 anos, e o último aos 13 anos (Gên 17.11-27). Durante a estada no Egito, os israelitas não encontraram dificuldades na observância do rito, porquanto, entre os egípcios, a circuncisão era considerada como sinal distintivo e honroso. Os egípcios a praticavam a mais de 3000 anos a.C. Não só entre os judeus, mas ainda entre os maometanos a circuncisão é observada religiosamente.

A circuncisão era um rito exterior, um «sinal de pacto», a ser posto em todos os descendentes masculinos de Abraão, a fim de ficar como memorial da Aliança que Yahweh, assim, estabelecia com seu povo. Significava um compromisso tanto com o povo de Israel, como com o próprio Deus de Israel. Rejeitar a circuncisão resultava em ser «expulso» do seu povo (Gên 17.10-14). Os estrangeiros que desejavam entrar na comunhão com o povo de Israel, e com o seu Deus, bem como celebrar a Páscoa e participar de outras bênçãos, tinham de submeter-se a este rito, a circuncisão, qualquer que fosse a sua idade (Gên 34.14-17,22; Êx 12.48).

A circuncisão foi tornada um requisito obrigatório da Lei mosaica. «E, no oitavo dia, se circuncidará o menino a carne do seu prepúcio» (Lev 12.13). Isto era tão importante que, se oitavo dia caísse no altamente respeitado Sábado, ainda assim se devia realizar a circuncisão (João 7.22,23). Jesus, João Batista e Paulo foram circuncidados ao «oitavo dia» (Luc 1.59; 2.21; Filip 3.5). Já no 1º século parece ter sido costumeiro dar nome ao menino no dia da circuncisão (Luc 1.59,60; 2.21). - Durante a peregrinação de 40 anos no deserto, não se realizou a circuncisão. Assim, depois de atravessarem o Jordão, Josué fez com que todos os varões fossem circuncidados, para que pudessem celebrar a Páscoa de Yahweh (Josué 5.2-9).

A circuncisão era um ato de purificação religiosa, e em sua real significação, quer dizer abandonar todas as paixões carnais. O crente em Jesus Cristo segundo o N.T., passou por uma circuncisão espiritual, a saber: o despojar «do corpo da carne». Trata-se de um ato espiritual, mediante o qual Cristo remove nossa velha criação irregenerada e rebelde, e nos comunica a vida espiritual e ressurreta de Cristo (Col 2.11-13). Paulo escreveu aos cristãos de Filipos dizendo: «Porque a circuncisão somos nós que servimos a Deus no Espírito...» (Filip 3.3a). Paulo declara que a verdadeira circuncisão é uma obra do Espírito no coração da pessoa, pelo qual o pecado e o mal são cortados (ver em Rom 2.25-29 e no A.T., em Deut 10.16 e Jer 4.4; 9.26). «Circuncisão do coração»; significa regenerá-lo de modo a extinguir toda a resistência às influências santificadoras, habilitando-o para amar a Deus (Deut 30.6; 1 Cor 7.18,19; Gál 5.6; 6.14.15). Tudo isso é simbolizado (sinal externo) pelo Batismo em água, apropriado pela fé (Rom 6.1-11, Col 2.12). Portanto, o Batismo em certo sentido toma o lugar da circuncisão na Nova Aliança. Este é o nosso sinal de pacto para com Cristo Jesus, e, é claro num sentido ainda mais relevante do que a circuncisão dos judeus.

A Lei fazia distinção entre o «santo e o profano» e entre o «limpo e o imundo» (Lev 10.10). O fato de Jeová exigir a pureza de Seu povo, determina Seu «caráter», faz parte de Seu atributo; «Sede santos porque, eu sou santo...» (Lev 11.44,45). Conservar-se, puro, significa que a pessoa estava (e está) separada para fins sagrados e que, como pertencente a Yahweh, era santa e, não devia tocar o que era imundo. Além disso, a impureza é símbolo do pecado. A Lei exigia dois tipos de pureza, a saber:

1.6. Pureza Física:
As Escrituras muitas vezes usam a «pureza física» como símbolo ou representação da «pureza espiritual». Jesus recorreu ao princípio da «pureza física» quando salientou a «impureza espiritual» e a hipocrisia dos fariseus. A conduta enganosa deles foi comparada a se limpar por fora o copo e o prato, sem fazê-lo por dentro (Mat 23.25,26). Jesus usou uma ilustração similar durante a última Ceia Pascal, quando tirou a vestimenta de cima e, tomando uma toalha, cingiu-se com ela, depois deitou água numa bacia e começou a lavar os pés dos discípulos e a enxugar-lhes com a toalha com que estava cingido (João 13.4,5). Vemos que embora eles tivessem se banhado e seu Amo lhes tivessem lavado os pés, e eles, portanto, estivessem «inteiramente limpos», em sentido físico; todavia, em sentido espiritual, disse Jesus; «Nem todos estais limpos» (João 13.10.11), referindo-o a Judas Iscariotes.

A «pureza física» era diferente da «pureza cerimonial», não eram sinônimas, posto que ambas às vezes coincidiam-se. A eliminação de desejos por se enterrarem os excrementos era um requisito sanitário bem à frente dos tempos (Deut 23.9-14). A exigência de freqüentes banhos e da lavagem da roupa pela nação de Israel, era sinal de «pureza física». Os hábitos pessoais dos da nação de Israel fizeram dela um povo comparativamente sadio, apesar de sua peregrinação no deserto por 40 anos. As Leis de Yahweh, que governavam a vida no acampamento, inclusive a diagnose e o tratamento de doenças, inquestionavelmente eram responsáveis pela saúde do povo. Por exemplo; nem todos os animais eram classificados como limpos para consumo.

2.6. Pureza Cerimonial: As leis cerimoniais do A.T. eram mais exteriores. Já no N.T., o que realmente conta é a inclinação dos nossos corações. Entretanto, apesar das leis cerimoniais serem exteriores, contudo, sua exigência era um reflexo que atingia o coração de cada israelita, que se sujeitava a estas leis. Em toda história da humanidade, Deusa exigiu pureza total de Seu povo, tanto interior como exterior (1 Tess 5.23).

A «pureza cerimonial» do AT era tão severa que era observada entre os israelitas sob pena de morte. «Assim, separareis os filhos de Israel das suas imundícias, para que não morram nas imundícias contaminando o meu tabernáculo, que está no meio deles» (Lev 15.31). Especialmente os sacerdotes tinham a obrigação de estar tanto física como cerimonialmente limpos (Êx 30.17-21; Lev 21.1-7.22.2-8). Em Números 5.2, são especificadas três causas mais comuns de impureza cerimonial envolvendo pessoas:

a) Todo Leproso: A lepra é a doença que a Bíblia usa freqüentemente como símbolo da podridão do pecado; os povos orientais a reconheciam como um castigo provindo de Deus. Esta era a mais repugnante de todas as doenças, e exigia medidas severas de controle, inclusive um prolongado isolamento, com cuidado e repetido exame para determinar quando se realizou a cura (Lev 13.1-59; 14; Deut 24.8). Para sua purificação a Lei exigia ablução e sacrifícios especiais (Lev cap. 14). Devia ser dada cuidadosa atenção à prescrição divina para tratar com essa enfermidade, visto que a saúde da comunidade inteira corria perigo. A lepra era contagiosa, pois o leproso tinha que se manter isolado da comunidade israelita, durante «sete dias»; assim também é o pecado, pois mantém o homem isolado de Seu Criador (Isa 59.2; Rom 3.23). Veja a lepra que Yahweh colocara em Miriã, por ter murmurado contra Moisés, e seu isolamento do arraial por sete dias (Núm 12.10-16). Temos vários exemplos bíblicos de pessoas que eram leprosas: Naamã, que foi curado ao mergulhar-se por sete vezes no Jordão (2 Reis 5.1), Geazi (2 Reis 5.27), os quatro que estavam à entrada da porta de Samaria, quando estava cercada por Ben-Hadade, rei da Síria (2 Reis 7.2), o rei Uzias, de Judá (2 Crôn 26.19), os leprosos purificados por Jesus (Mat 8.2-4, Luc 17.12-19), Simão que morava em Betânia (Mat 26.6). A lepra era termo genérico usado para descrever uma variedade de doenças da pele, até bolor ou manchas nas vestimentas e nas casas (Lev 13.47-59; 14.34-53). Não é a doença hoje chamada de mal de Hansen. Para mais pormenores sobre a lepra, o leitor deve ler as passagens citadas acima.

b) Fluxo: Certos fluxos do corpo humano eram normais, mais causavam impureza cerimonial. Outros fluxos eram anormais e indicavam doenças. As doenças venéreas eram usualmente transmitidas através de relações sexuais promíscuas, sendo, pois, claramente associadas ao pecado. Quando um homem e sua esposa haviam tido relações sexuais, eles tinham que ser banhar e eram impuros até à tarde (Lev 15.16-18). Fluxo do hebraico zãbh, do verbo zubh«fluir». Expressão bíblica aplicável às condições dos órgãos genitais dos homens e das mulheres (Lev 15.2,19,25; Núm 5.2). Nenhum descendente masculino de Arão tinha permissão de comer «das coisas sagradas» enquanto impuros por causa de um fluxo (Lev 22.4). O termo «fluxo» às vezes se aplicava à menstruação regular, normal, da mulher (Lev 15.19-24). Todavia, era também usada para se referir a um fluxo de sangue doentio, prolongado e assim anormal (Lev 15.25-30). Neste último caso, aplicava-se ao crônico «fluxo de sangue» de uma mulher que padeceu por 12 anos antes de ser curada por Jesus Cristo (Mat 9.20-22).

Segundo a Lei, a pessoa que tivesse um fluxo era impura, e tornava objetos e pessoas que ele ou ela tocava (quando estava impuro (a)), e assim por diante. Pelos motivos de impureza, quando os homens eram convocados para uma expedição militar, tinham que estar santificados, eles eram obrigados a abster-se de relações sexuais com suas esposas (veja em 1Sm 21.4,5; 2Sm 11.8-11). Embora que, Yahweh não tivesse incluído no estatuto da Páscoa este tipo de impureza, porém, fica evidente que os israelitas, tinham que se abster de suas relações sexuais, durante os dias de Festas solenes (Lev 15.1-33). No Monte Sinai, Yahweh exigiu dos israelitas a santificação para que pudessem assim ouvir a Sua voz, entre os requisitos para a santificação estava a «abstenção de relações sexuais», Moisés disse ao povo: «Estai prontos ao terceiro dia; e não chegueis a mulher» (Êx 19.15 ver vv. 9-14). Alguém pode até perguntar por que a Lei mosaica considerava impuro aqueles que mantinham relações sexuais, não foi Jeová Deus que as instituiu?

No princípio, Yahweh criou os impulsos sexuais e a faculdade de procriação no primeiro homem e na primeira mulher, e ordenou-lhes que coabitassem e tivessem filhos. Todavia, quando Adão e Eva desobedeceram a Ele, não na questão de relações sexuais, mas por comerem do fruto proibido, ocorreram mudanças drásticas. De repente, sua consciência afligida pela culpa fez com que se apercebessem da sua nudez, e imediatamente cobriram seus órgãos genitais, ocultando-os da vista do Criador (Gên 1.28; 3.7,10,11). Daí em diante, o homem não podia cumprir em perfeição o mandato de procriação, em vez disso, se transmitia à mácula hereditária do pecado (Sal 51.5). Então, em tal sentido, fazer relações sexuais (entre o esposo e esposa), não é pecado, mas também não é santificação. Ainda em nossos dias atuais, é necessário sim, a abstenção sexual, ao fazermos um trabalho específico para o nosso Senhor Jesus Cristo, que seja, porém, com a sabedoria Divina (1 Cor 7.5).

c) Contato com o «cadáver de um homem»: Este foi o tipo de impureza que impediu alguns no deserto do Sinai, de celebrarem a Páscoa de Jeová no dia «catorze do primeiro mês» (Nm 9.6,7). -- Sob a Lei mosaica, referente a cadáveres, havia graus diferentes de «impureza»; tocar em um animal morto tornava a pessoa impura apenas por «um dia»; tocar em homem morto resultava em impureza durante uma semana, isto é, por «sete dias». No primeiro caso, exigia-se da pessoa apenas lavar as vestes, ou caso tivesse comido um animal selvagem, então tinha de banhar-se, além de lavar as vestes (Lev 5.2; 11.8,24, 27.31,39,40; 17.15). A mesma injunção era imposta aos sacerdotes, com a ordem adicional de que, se comessem algo santo enquanto estavam em um estado impuro, deviam ser mortos (Lev 22.3-8). Para quem tocasse num cadáver humano, era necessário realizar uma cerimônia de purificação mais complexa. Para este fim, uma bezerra vermelha, sem defeito era sacrificada fora do arraial. O sacerdote aspergia um pouco do sangue do animal «sete vezes» em direção à tenda da congregação. Em seguida, a bezerra inteira era então queimada, e um pedaço de madeira de cedro, e um hissopo, e fibras carmíneas (carmesim) eram lançados no fogo para queimarem com a bezerra. As cinzas eram guardadas e usadas «para a água da purificação», a qual, noterceiro e no sétimo dia era aspergido para a purificação daquele que tocou no cadáver humano. Ao fim dos «sete dias» ele devia lavar suas vestes e banhar-se, e então era declarado «limpo» (Núm 19.1-13,17,19). Este rito de purificação limpava a pessoa, permitindo que ela se aproximasse novamente de Jeová.

Sob este estatuto, todos os que estavam na casa ou na tenda em que ocorreu a morte, bem como a própria moradia e todos os vasos abertos, tornavam-se impuros. Tocar mesmo só num osso de um morto no campo de batalha ou tocar numa sepultura, ou sepulcro, igualmente tornava a pessoa impura. Esse é o motivo pelo qual, nos dias de Jesus Cristo, se costumava caiar as sepulturas antes da Páscoa, para proteger as pessoas que vinham a Jerusalém, contra inadvertidamente tropeçarem numa sepultura e assim se tornarem impuras para participar da Festa de Yahweh (Núm 19.14-19; Mat 23.27). Os sacerdotes não podiam se aproximar de um morto, a não ser no caso de um parente próximo (Lev 21.1-4).

http://www.doutrinasbiblicas.com/circuncisaopurezacer_t/circuncisaopurezacer.htm

5 de outubro de 2010

O que significa circuncisão? Para que servia?


 

O Dicionário Houaiss define a circuncisão como a “retirada cirúrgica do prepúcio, praticada por razões higiênicas e/ou religiosas”.

As “razões religiosas” têm suas raízes no primeiro livro da Bíblia. A lei da circuncisão foi dada a Abraão quando ele tinha 99 anos de idade. Deus associou a circuncisão a duas das grandes promessas: Œ Ele faria uma grande nação dos descendentes de Abraão, e  Daria-lhes uma terra como herança. Deus mandou que Abraão e seus descendentes guardassem a aliança da circuncisão: “Todo macho entre vós será circuncidado. Circuncidareis a carne do vosso prepúcio; será isso por sinal de aliança entre mim e vós” - Gênesis 17:10-11). Ele ordenou que circuncidassem os meninos no oitavo dia da vida.

Os incircuncisos não participavam dessas promessas de Deus. Não faziam parte do povo escolhido, Israel. Homens de outras nações passavam a participar dos privilégios dos judeus somente quando foram circuncidados (veja Êxodo 12:48).

Judeus que negligenciavam este mandamento do Senhor não podiam participar das festas especiais que Deus lhes deu. Um exemplo que mostra a importância da circuncisão se encontra em Josué 5. Depois da peregrinação no deserto, o povo chegou à terra prometida. Mas, eles não haviam praticado a circuncisão no caminho (5:7). Era necessário fazer a circuncisão de todos os machos (5:8). Somente depois de cumprir esta ordem, eles podiam celebrar a Páscoa, a festa que os lembrou da salvação da nação das mãos dos egípcios (5:10). No dia seguinte, começaram a comer do fruto da terra prometida (5:11-12) e, logo em seguida, começaram a conquistar a terra. Estes dois fatos, ligados especificamente às promessas da nação e da terra, reforçam o significado original da circuncisão.

Na igreja primitiva, houve contovérsias acirradas sobre a circuncisão. Alguns judeus convertidos a Cristo acharam que todos os homens teriam que ser circuncidados para participarem das bênçãos em Cristo. Talvez associaram uma outra promessa dada a Abraão (veja Gênesis 12:3) ao ato de circuncisão. Mas Deus nunca disse que as bênçãos espirituais em Cristo dependeriam da circuncisão da carne. Paulo e outros resistiram a essas idéias, e pregaram a salvação pela fé para todos, judeus e gentios (Romanos 3:28-30; Gálatas 5:2,6,11; Colossenses 3:11).

Embora a circuncisão não tenha valor religioso hoje, ainda aprendemos lições importantes das instruções dadas aos judeus. No ato da circuncisão, eles se tornaram distintos, e Deus removeu o “opróbrio” do pecado (Josué 5:9). Hoje, ele remove o pecado na circuncisão espiritual quando somos sepultados com Cristo no batismo (Colossenses 2:11-13). “Porque nós é que somos a circuncisão, nós que adoramos a Deus no Espírito, e nos gloriamos em Cristo Jesus, e não confiamos na carne” (Filipenses 3:3). “Pois nem a circuncisão é coisa alguma, nem a incircuncisão, mas o ser nova criatura” (Gálatas 6:15).

–por Dennis Allan