Em Cristo estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento. (Colossenses 2:3)

Ninguém vos engane com palavras vãs; porque por essas coisas vem a ira de Deus sobre os filhos da desobediência.(Efésios5:6)
Digo isso a vocês para que não deixem que ninguém os engane com argumentos falsos. (Colossenses 2:4)
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6 de outubro de 2018

Como não brigar no almoço em família no domingo de eleição


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Um guia prático para evitar constrangimentos, discussões e o mal-estar à mesa

Era tanta pesquisa de intenção de voto, tanto horário eleitoral gratuito, tanto textão, meme e fake news nas redes sociais, que você até se esqueceu do almoço em família no domingo. Quando lembrou, bateu a mão na testa e soltou um palavrão.

Veio na hora o desânimo. Não com o cardápio, é claro, porque sua família tem bons cozinheiros, mas com a possibilidade muito concreta de que, entre uma garfada e outra, você tenha de discutir taxa de rejeição ou recomposição de alianças políticas nos palanques estaduais. Você já se vê encurralado por aquele tipo de parente que todo mundo tem: os olhos arregalados, veias saltadas na garganta, nas mãos o celular com a teoria da conspiração da moda, com a mentira mais fresca.

Mas não é hora de se desesperar – ainda não, pelo menos. Você respira fundo, tenta organizar as ideias. Começa então a pensar em estratégias para sobreviver ao almoço. De preferência, com o mínimo de baixas possível.

A primeira que lhe vem à cabeça é valorizar a diplomacia. Evitar ao máximo que política surja como assunto. Se for inevitável, você pensa em falar devagar e baixo, apelar a argumentos racionais, fazer perguntas e respostas num tom entre o professor paciente e o terapeuta sereno.

Mas você considera – é inevitável – outra possibilidade: abraçar o caos. Você até sente uma vertigem ao cogitar isso. Danem-se as boas maneiras, para o inferno com o debate iluminista inspirado pela ágora grega: e se você incendiasse Roma? Gritar, se necessário; descabelar-se quando conveniente e ainda mais quando inconveniente; chorar, escarnecer, urrar. De que adianta comedimento, se os fatos e a razoabilidade foram os primeiros a serem jogados pela janela? Pelo menos você terá a catarse, vai extravasar.

Não, você pensa. Melhor não brigar. Eles são sua família, isso não quer dizer alguma coisa? Mesmo que não queira, talvez seja bom lembrar que o segundo turno vem aí, e as brigas tendem a aumentar, a agressividade subindo conforme o nível baixa. Se o clima de sua família já começar ruim, antes de anunciarem os candidatos do segundo turno, quem sabe como será o outro almoço de domingo, no fim da corrida eleitoral? O comedimento é melhor, claro. Até porque há facas na mesa.

Então você se prepara. Caso o parente exaltado venha, o que você vai fazer? Vai se esquivar. Deixar para lá, apelar ao domingo: “até Deus teve um dia de descanso.” Mas o parente pode não se satisfazer com sua diplomacia. Vai insistir. E aí?

Não seria o caso de mentir? Você dirá que votou em quem o parente defende. Ele ou ela não vai saber, afinal, o voto é secreto. Talvez você se livre, respirando com alívio. É possível que venha uma dor na consciência, condenando a venda dos seus princípios por um pouco de paz. Mas também é possível que, ao ver seu parente lhe dando as costas, de olho em outra presa, você ache que valeu a pena, que ganhou algumas horas, ou dias.

Não. Talvez você seja categórico, imperativamente categórico: mentir jamais. Com certeza há outras maneiras, tão pacíficas quanto morais. Porque, já que é para mentir, você bem que poderia abraçar o caos logo: inventar um candidato (“Como assim, você não conhece Túlio Peixoto? Ele é o cara que defende...”) ou delirar a sério nas teorias da conspiração, superá-los no seu próprio jogo (“Ursal nada, muito modesto; eu votei pela Ursálfrica”).

Você quer, por exemplo, estabelecer um diálogo. Compartilhará ideias, nem que sejam pedacinhos delas, uma única frase que você e seu parente tenham em comum: sim, a situação está insustentável mesmo. É, o país precisa de um jeito. Com certeza, muito difícil mudar da noite para o dia. Os chavões e os clichês costumam ajudar nessa hora, apesar de nublarem o pensamento – ou justamente por causa disso.

O problema é se não houver nem uma possibilidade remota de terreno em comum. Acontece: às vezes seu parente defende candidatos que querem que gente como você morra. Não é fácil – para dizer o mínimo – criar pontes com quem quer dinamitar o rio.

Nesse caso, uma opção é rir. Quando seu parente começar a ladainha, ria. No momento em que vierem os pseudoargumentos econômicos e as falsificações históricas, ria forte. Se seu parente relevar as promessas de barbárie, ria na cara dele. Se ele apelar, se ele se indignar, se ele se sentir ultrajado com sua gargalhada, continue rindo. Assim, você o desarmará. Os outros parentes talvez se voltem para vocês dois, querendo entender as risadas. E você terá novamente duas opções: a diplomacia ou o caos.

A primeira manda aproveitar a situação e contar uma piada – tanto faz qual, desde que possibilite uma fuga honrosa, uma bem-vinda mudança de assunto.

A segunda opção varia em agressividade. Você pode dizer de um jeito carinhoso que seu parente é muito engraçado. Pode sugerir que na verdade ele é a piada. Ou pode fazer um gesto amplo, apontando para o entorno de vocês, como quem reconhece que essa situação toda é uma piada. Uma grande piada sem graça, daquelas em que você é forçado a rir e acaba rindo mesmo, seja por desespero, seja para tentar tirar esse gosto ruim, azedo, mofado, que não sai de sua boca há meses, talvez anos.

Nesse caso, aproveite que vocês estão num almoço e dê um gole em sua bebida. Se puxarem conversa, você estará com a boca ocupada e não precisará responder. Está decidida sua estratégia: para evitar parentes exaltados, você beberá quando eles tentarem uma abordagem. Não é o ideal, mas ajuda a manter a sanidade e a se hidratar. Duas coisas de que você vai precisar muito até o fim de outubro e de toda essa encrenca.


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5 de outubro de 2018

A escolha dos evangélicos é decisiva nessa eleição?




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Por Pedro Lucas Dulci


As “questões de interesse dos cristãos”

Recentemente, recebi uma mensagem que me deixou politicamente transtornado. Era a matéria de um jornal de uma grande editora evangélica brasileira sobre a posição
esso a um material tão reducionista do que seria o interesse genuinamente cristão na política.

Estou convencido que é louvável que um representante público utilize sua educação e formação cristã para lidar com essas questões. Aquilo que alguns filósofos e cientistas políticos chamam de “micropolítica” não é uma espécie de bônus nas plataformas de governo. Conceito de casamento, aborto, drogas e até mesmo as questões de identidade de gênero podem parecer pontos secundários, mas pressupõe compromissos importantes que os aspirantes ao governo precisam se ocupar. Meu estarrecimento com a tabela não é em função da legitimidade ou não de tais preocupações. Questões como essas realmente ocupam o imaginário social de boa parte da população.

Somos apenas “contra” ou “a favor”?

O que me preocupa é o reducionismo político. Este, por sua vez, está presente em reportagens como essa de maneiras bem mais sutis e insidiosas. Em primeiro lugar, com a própria seleção limitadíssima de “questões que interessam os cristãos”. Será que estamos interessados só oito pontos? A única área técnica de saber mencionada é a economia. E quanto à educação? Ciência e tecnologia? Artes e saúde? Não existe preocupação cristã com tais campos do conhecimento? E quanto aos pontos específicos? Não existe nenhuma outra ideologia que preocupa os evangélicos? E quanto às relações internacionais? A fé cristã só se preocupa politicamente com sua relação com Israel? Nenhuma outra nação está em nosso horizonte de preocupação? Não é possível que os discípulos de Cristo acreditem que o futuro presidente de uma República com mais de 207 milhões de habitantes possa ter suas preocupações concentradas em pouco mais que meia dúzia de pautas pontuais. Enfim, não consigo pensar em um estereótipo mais limitador.

Não terminamos por aqui. Em segundo lugar, o que sinaliza a ausência de uma visão alargada do interesse cristão pela política são as respostas de cada candidato às questões. Aqui a deficiência é ainda mais séria. Um candidato pode até ter seu discurso limitado em uma matéria ou debate televisivo em razão das questões que são colocadas para ele. Claramente eles irão responder o que for demandado, entretanto, o que é perturbador é a incapacidade de um cristão, aspirante à presidência da república, explicitar – de ponto genuinamente cristão – os motivos pelos quais acredita que um determinado conjunto de “questões de interesse” são prejudiciais à saúde pública de um país. Devolver essas demandas para a população sob o pretexto democrático de “plebiscito” é um sintoma de uma enfermidade mais aguda: a absoluta ausência de uma cosmovisão cristã radical e integral na formação dos quadros políticos no Brasil. O debate político transforma-se em um jogo de “soma zero” onde as únicas opções são “contra”, “a favor” ou “plebiscito”. Novamente, não é possível que o melhor que a Igreja de Cristo pode fazer pelo Brasil é optar pelo alinhamento a uma dentre outras ideologias seculares. A reflexão cristã sobre economia limita-se às posições “livre mercado”, “viés estatista” ou “estado forte” oferecidas pela reportagem? O Corpo de Cristo não produziu economistas e cientistas políticos capazes de ampliar nossas plataformas de ação política?

O medo, a esperança e a idolatria no debate eleitoral

A igreja evangélica brasileira foi engolida pelo populismo superficial que caracteriza os atuais debates públicos. Bem pior do que isso é o fato de que as eleições se transformaram em concursos de popularidade baseados em medo ou esperanças messiânicas – ao invés de serem oportunidade para o debate franco pelo bem comum da nação. Quanto nosso voto é determinado por frases do tipo: “meu candidato é Fulano porque morro de medo se o Sicrano vencer...” ou então, “se não for o Beltrano, o país não tem solução...”, claramente saímos da esfera política e entramos em uma zona de desespero por um redentor. Nesse ambiente de discussão, nossos afetos podem ser facilmente cooptados por uma imaginação totalitária.1 E os candidatos sabem perfeitamente disso. Eles potencializam e transformam nossos medos e desejos de salvação em material de campanha. Tudo isso para direcionar a confiança de nossos corações no poder político e dar um caráter idólatra a nossa fé.

O teólogo norte-americano Michael Horton, descrevendo a relação da fé evangélica com o cenário eleitoral de seu país – que, guardadas as devidas proporções, experimenta situações similares à nossa – é paradigmático ao nos alertar que:

Oscilando do triunfalismo para o desespero fervilhante, muitos pastores estão comunicando, a um enorme público, uma fé no poder político que está em forte oposição a tudo que dizemos acreditar. Para muitos de nossos vizinhos, os capelães da corte parecem mais Bobos da corte. Algo tremendo está em jogo aqui: se os cristãos evangélicos colocam sua fé mais em César e seu reino do que em Cristo e seu reinado. Nesse sentido temos tudo a perder - neste mês de novembro e em todo e qualquer ciclo eleitoral. Quando buscamos favores políticos especiais para a igreja, comunicamos às massas que o reino de Cristo é apenas mais um grupo demográfico do eleitorado americano. Vamos encarar os fatos. Liberais e conservadores, católicos e protestantes, cortejaram o poder político e alegremente se permitiram ser usados por ele. Isto sempre acontece quando a igreja confunde o reino de Cristo com os reinos da presente época. Jesus não veio para impulsionar a teocracia em Israel, muito menos para ser o pai fundador de qualquer outra nação.2

Nesse breve raciocínio, Horton já elimina prontamente qualquer tipo de postura constantinista – de favores e privilégios cristãos à custa de acordos espúrios a nossa fé. No entanto, ele vai além do óbvio. A chave de seu argumento que queremos repetir aqui é que as questões que interessam um cristão no debate político não são determinadas pela agenda ideológico-partidária que nos é oferecida. Não estamos limitados aos pacotes ideológicos. Nossa fidelidade e confiança, para ser genuinamente cristã, não precisa limitar-se ao sucesso da performance política de um determinado candidato – que declarou em rede nacional apoiar oito ou dez medidas de “interesse cristão”.

A Igreja de Cristo no Brasil não pode ser transformada em um grupo demográfico que deve ser conquistada pelo interesse partidário. Nossa responsabilidade é muito maior que essa. Somos a única parcela da sociedade civil que tem condições de avaliar todos os candidatos e suas plataformas políticas com os critérios que escapam os limites da temporalidade. Justamente porque nossa esperança não está nas cidades dos homens é que podemos ser o prumo para as questões que realmente contribuem para o bem comum, o florescimento humano e a glória de Deus.

Adotar essa postura no debate público não significa, de maneira alguma, um conformismo situacionista. Antes o contrário. Justamente porque mantemos a lealdade última de nossos corações à esperança bíblica, nosso alvo não é nenhum projeto político-partidário temporal, mas, assim como Abraão, esperamos “confiantemente pela cidade de alicerces eternos, planejada e construída por Deus” (Hb 11.10, NVT). Tão somente essa confiança faz com que não sejamos transformados em massa de manobra do jogo político. Não estamos em uma disputa de “tudo ou nada” com as próximas eleições. Nenhum dos candidatos que estão em disputa, nem mesmo qualquer outro no horizonte temporal, têm condições de materializar as expectativas que são típicas somente do reinado de Cristo. Isso coloca-nos em uma posição transpolítica e centraliza na Igreja nossa militância política.3

A relevância pública da espiritualidade cristã 

Essa é a relevância pública da espiritualidade cristã. Tão somente essa escolha de nosso coração será decisiva para essa e todas as outras eleições em nosso país. A implicação prática de tal postura são escolhas mais conscientes, realistas e em conformidade com a narrativa bíblica.

Não estamos escolhendo um salvador. Não precisamos ter nossa imaginação política governada por afetos como triunfalismo messiânico ou desespero retumbante.

O Brasil não está nas mãos do projeto político de quem vencer nas urnas. Nós somos os únicos que podem cantar o Salmo 146. Veja com atenção essa oração do salmista:
Louvado seja o Senhor! Que todo o meu ser louve o Senhor.
Louvarei o Senhor enquanto eu viver; cantarei a meu Deus até o último suspiro.
Não confiem nos poderosos; não é neles que encontrarão salvação.
Quando sua vida se vai, voltam ao pó, e todos os seus planos morrem com eles.
Como são felizes os que têm o Deus de Jacó como seu auxílio, os que põem sua esperança no Senhor, seu Deus.
Ele fez os céus e a terra, o mar e tudo que neles há; ele cumpre suas promessas para sempre.
Faz justiça aos oprimidos e alimenta os famintos. O Senhor liberta os prisioneiros.
O Senhor abre os olhos dos cegos. O Senhor levanta os abatidos. O Senhor ama os justos.
O Senhor protege os estrangeiros e cuida dos órfãos e das viúvas, mas frustra os planos dos perversos.
O Senhor reinará para sempre; ele será seu Deus, ó Sião, por todas as gerações. Louvado seja o Senhor!
(Sl 146.1-10, NVT)
Cada linha dessa oração nos ajuda a calibrar nossa confiança política. Nosso coração não está na mão dos poderosos. Não confiamos neles, pois neles não se encontra a salvação (v. 3). Nossa esperança está no Senhor, porque ele não só fez os céus e a terra (v. 5), mas porque após a ressurreição de Cristo, toda a autoridade em cada uma das esferas da vida foi entregue ao Rei. O Senhor reina para sempre, por isso deve ser louvado (v. 10). O destino dos oprimidos, o alimento dos famintos, a libertação dos prisioneiros, a vista dos cegos, a força ao abatido, a proteção do estrangeiro, o cuidado aos órfãos e viúvas e a punição dos perversos estão nas mãos do Senhor – que ama os justos (v. 8).

Isso significa dizer que não existe fora do Senhor e dos seus decretos, parâmetros para cada um dos âmbitos nos céus e na terra. Nenhum quadro político, nem mesmo os melhores que a fé cristã já produziu, consegue concentrar em si a “palavra final” em governança política cristã. De Calvino a Luther King Jr., passando por Wilbeforce, Kuyper e Bonhoeffer, o que temos são sinais. Frágeis e incompletos sinais das dimensões do reinado de Cristo que já estão a nossa disposição, mas ainda não são plenos. Essa consciência histórico-escatológica e redentiva precisa guiar nossa postura política.4

Novamente, isso não significa quietismo político. Precisamos trabalhar duro formando a nova geração de discípulos de Cristo em todas as áreas da vida. Não só nas questões micropolíticas, mas em ciência, tecnologia, arte, política, economia e em todos os âmbitos da existência em que Jesus é soberano. É um trabalho de discipulado na mais profunda compreensão de cosmovisão bíblica. Precisamos nos atentar para um fato que Francis A. Schaeffer já chamara a atenção dos norte-americanos muitos anos antes de Michael Horton escrever sobre a política e a Igreja do seu pais:

O problema básico dos cristãos dos Estados Unidos nos últimos oitenta anos, quanto à sociedade e governo, é que têm observado as coisas em pedaços e partículas, ao invés de ver a totalidade. Aos poucos eles ficaram perturbados com a permissividade, pornografia, os problemas das escolas públicas, o desmoronamento da família, e finalmente, o aborto. Mas não viram essas coisas como um todo – cada qual uma parte, um sintoma de um problema ainda maior. Fracassaram em ver que tudo isso veio a acontecer devido a uma mudança de visão do mundo [...] Por que os cristãos têm sido tão lerdos em compreender isto? Há várias razões, mas o centro está numa visão deturpada do cristianismo. Isto começou no movimento pietista sob a liderança de P. J. Spenger no século dezessete. O pietismo teve início com um protesto saudável contra o formalismo e contra um cristianismo por demais abstrato. Mas tinha uma espiritualidade deficiente, “platônica”. Era platônica no sentido de que o pietismo fazia forte diferenciação entre o mundo “espiritual” e o mundo “material” – dando ao mundo material pouca ou nenhuma importância. A totalidade da existência humana não ganhava um lugar próprio. De modo especial, negligenciava a dimensão intelectual do cristianismo. O cristianismo e a espiritualidade foram fechados dentro de uma pequena e isolada parte da vida. A realidade total foi ignorada pelo pensamento pietista. [...] A verdadeira espiritualidade cobre toda a realidade. Existem coisas que a Bíblia nos diz como absolutas, que são pecados – não se conformam com o caráter de Deus. Mas além destas, o Senhorio de Cristo cobre toda a vida e a cobre por igual. Não é apenas que a verdadeira espiritualidade cobre toda a vida, mas cobre todas as partes do espectro da vida, de forma igual. Neste sentido não existe nada na realidade que não seja espiritual.5


O cristianismo não é “platonismo para o povo”, como queria Friedrich Nietzsche. Nossa forma de encarar a realidade precisa ser guiada pela narrativa bíblica, que coloca debaixo da soberania de Cristo todas as esferas da vida. Enquanto nossa postura pública não refletir essa convicção fundamental, continuaremos sendo massa de manobra política de programas partidários que só superficialmente se conformam com a fé cristã. Em síntese, a escolha evangélica decisiva para essa e todas as outras eleições que participarmos, é a opção pela confiança nas promessas e expectativas do reino de Deus e não das soluções humanas.


Notas
1. Conforme muito bem mostrou Francisco Razzo em A Imaginação Totalitária: os perigos da política como esperança. (Grupo Editorial Record, 2016).
2. HORTON, Michael. Os evangélicos estão com medo? O que eles temem perder? Acessado em: 19 de setembro de 2018.
3. Trabalhei esses dois conceitos em meu novo livro Fé Cristã e Ação Política: a relevância pública da espiritualidade cristã (Editora Ultimato, 2018).
4. O conceito de “dimensão histórico-escatológica e redentiva” foi tirada da obra do teólogo bíblico holandês Herman N. Ridderbos (1909-2007), a qual recomendo fortemente, em parte disponível em português.
5. SCHAEFFER, Francis A. A abolição da verdade e da moralidade. Acessado em: 20 de setembro de 2018.

• Pedro Lucas Dulci, filósofo e pastor presbiteriano, é casado com Carolinne e pai de Benjamin. É autor de Fé Cristã e Ação Política, publicado pela Editora Ultimato.

https://www.ultimato.com.br/conteudo/a-escolha-dos-evangelicos-e-decisiva-nessa-eleicao




4 de outubro de 2018

Decálogo para bons votos em 2018

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Por Aliança Cristã Evangélica Brasileira – A propósito das Eleições de 2018

1. Cautela e canja de galinha

Busque o máximo de informações – em fontes confiáveis - acerca dos candidatos aos cargos políticos. Alguns concorrem à reeleição buscando livrarem-se da justiça comum. Outros mudam seu nome de registro como candidato ou mudam de partido por pura conveniência. Outros ainda se mantém no poder lançando seus filhos, sobrinhos ou netos como candidatos. Mandato político não é herança, que passa de pai para filho. Não se deixe enganar. Busque embasar com solidez a sua opinião. Cuidado para que as emoções não sabotem a sua percepção da realidade. Use critérios objetivos, dentro da sua visão de mundo e interpretação dos fatos.

2. Mentira tem pernas curtas e é filha do Diabo

Essas eleições serão marcadas pela proliferação das fake news. Aproveitando-se das redes sociais, as notícias falsas se espalham com muita facilidade. Precisaremos averiguar a veracidade das notícias. É um grande desafio o não se deixar iludir por interesses escusos. Precisaremos de doses extras de perspicácia e boa vontade para formarmos um posicionamento pessoal que seja o mais criterioso possível. Não compactue com mentiras; comprometa-se com fatos. É uma questão de bom senso.

3. Quando um não quer, dois não brigam

Esse é um tempo de muita participação e engajamento político da sociedade. Os debates em torno do tema têm se proliferado nas rodas de conversa, nos mais diversos ambientes. Numa democracia, isso é salutar. Cuidado, todavia, para que os debates não se transformem em embates, e, até, em combates. Isso acontece quando tiramos o foco das proposições afirmativas e passamos a desqualificar desrespeitosamente àqueles dos quais discordamos politicamente. Lembre-se, violência gera violência.

4. Ora que melhora

É comum confundirmos adversários com inimigos. Se pusermos os nossos adversários diante de Deus, em oração, dificilmente alimentaremos ódio por eles. Desejar a vitória do seu candidato não precisa significar desejar a morte do outro. Uma cultura de paz não se constrói na ausência dos conflitos, porém é preciso, sempre, respeitar as diferenças e garantia da liberdade para expressão de ideias e proposições para a construção de uma sociedade mais justa.

5. Um por todos, todos por um

A despeito de sua orientação política, quando avaliar as propostas dos candidatos, leve sempre em consideração a coletividade. Lembre-se de que, numa eventual má escolha, os maiores prejudicados serão os mais pobres e os mais vulneráveis. O Brasil ainda é uma nação extremamente desigual com flagrante desrespeito aos direitos básicos do cidadão; os pleitos para eleição de governantes e legisladores são uma excelente oportunidade para o início da mudança desse quadro.

6. Irmão sempre vota em irmão?

Não se deixe iludir por mensagens do tipo "Esse candidato ou aquela candidata é a favor da igreja!" Os pleitos não serão para cargos eclesiásticos. Conquanto devamos buscar também qualidades morais e éticas para quem cumpre um mandato (e nesses dias, muito mais), o discurso religioso pode, como muitas vezes já o foi, ser usado por lideranças inescrupulosas como cortina de fumaça para projetos de poder nada "divinos".

7. É o olho do dono que engorda o gado!

Voto sem controle social é o mesmo que chamar alguém para vir cuidar da sua casa e só voltar a vê-lo daqui a quatro anos. Controle social não é desconfiança, é zelo. É fundamental que haja acompanhamento sistemático dos mandatos, especialmente na cobrança de transparência nos processos de dotação orçamentária, fiscalização na alocação de recursos, além de participação na discussão sobre grandes temas nacionais, que trarão reflexos diretos sobre a vida de milhões de famílias. O político eleito exerce o mandato; mas esse mandato pertence ao povo, que o elegeu.

8. Cada cabeça, uma sentença

Vote por princípios e não porque a maioria escolheu esse candidato ou aquela candidata. Eleições não são como clássico de futebol, mero entretenimento esportivo. Muitos, para não "perder”, votam em candidatos(as) que as mídias e as pesquisas apontam como possíveis ganhadores, o que pode favorecer maus políticos. Que o seu voto seja fruto de sua consciência e valores cristãos; nada menos e nada mais que isso.

9. Rouba, mas faz!

Essa velha máxima da politicagem brasileira sempre encontra candidatos(as) que ludibriam o povo. Não se iluda – a corrupção mata! Já matou milhões de pessoas no Brasil. Para quem diz que “faz”, mas ao mesmo tempo rouba, o melhor palanque é a cadeia. Corrupto em um gabinete público roubará de nós mesmos – os contribuintes. O dinheiro dos impostos que pagamos deve contribuir para uma vida melhor e mais digna para todos, se administrado de maneira honesta e competente.

10. Mulheres e crianças primeiro

Assegure-se de que o (a) candidato(a) seja, de fato, a favor da vida. Que não seja apenas sensível sobre o tema do aborto, mas que também seja comprometido com a implementação de políticas públicas que, de fato, garantam direito à vida e à saúde integral para todos, especialmente aos mais vulneráveis. Lembre-se sempre de que a injusta interrupção precoce da vida não acontece apenas dentro do útero, mas também naqueles ambientes onde predominam a miséria, a insalubridade, a violência.


Nota
Texto publicado originalmente no site da Aliança Evangélica. Reproduzido com permissão.

https://www.ultimato.com.br/conteudo/decalogo-para-bons-votos-em-2018



22 de setembro de 2018

O que está em jogo é mais do que uma eleição: é o futuro da nossa liberdade de consciência


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Não tenho dúvida alguma de que mais do que nunca, todos nós, cristãos ou não, mas pessoas que acreditam na importância dos nossos valores, cultura e tradições herdadas há centenas de anos, devem estar preocupados com os resultados das eleições esse ano. Temos muitos motivos para isso e eles estão por todos os lados, de forma que restando pouquíssimos dias para o 7 de outubro, quando haverá o primeiro turno das eleições, nunca é demais reforçar o que realmente está em jogo nessa campanha.

A igreja cristã vem tendo a sua liberdade religiosa ameaçada desde quando alguns grupos, motivados por ideologias de esquerda, nos taxaram de “intolerantes”, “fundamentalistas”, “fascistas” e até de “promotores do ódio”. Qualquer cidadão minimamente bem informado sabe que essas pechas não passam de um reflexo do que esses acusadores realmente são. Eles nos acusam do é a essência da ideologia deles, o que não é surpresa alguma para quem conhece um pouco da história comunista e suas consequências nos países onde se instalou.

Apesar de o Brasil não ser dominado por um sistema político comunista na forma de leis, administrativamente falando, ele é culturalmente influenciado por essa ideologia. Das escolas do ensino fundamental ao superior, tal perspectiva tem se intensificado nos últimos 16 anos a níveis assustadores. Com o apoio da grande imprensa, em sua maioria motivada pelo relativismo moral compatível com as ideologias de esquerda, que são anticristãs, a sociedade tem recebido um volume constante de informações que visam reorientar o entendimento acerca de família, liberdade religiosa (expressão), direito à vida e principalmente sexualidade.

O tema sexualidade não é um dos mais debatidos por acaso. Isso acontece porque a motivação sexual humana é intrínseca a sua natureza e diz respeito a sua identidade. Sigmund Freud não estabeleceu a “pulsão sexual” como ponto de partida de toda a sua teoria psicanalítica por mero capricho. Ele sabia que esse é um ponto central no desenvolvimento comportamental e psicológico humano desde que o mundo é mundo.

Modificar o entendimento que temos sobre sexualidade significa alterar a constituição do próprio ser humano, consequentemente toda a sua cultura. É por isso que vemos exposições, por exemplo, onde homem pelado é tocado por criança, e de pinturas que destacam a pedofilia e zoofilia, aberrações sexuais, chamas de “arte”.

Quando nós, cristãos, que também somos profissionais de saúde mental, alertamos sobre os perigos da reorientação sexual humana, combatendo entre outros a ideologia de gênero, e apelamos para que a igreja nos dê mais espaço para falar sobre isso, é porque estamos cientes das consequências que virão sobre a sociedade caso esse e outros temas correlacionados são forem debatidos corretamente, prevenindo um colapso cultural mais na frente.

Mas, a verdade é que não adianta o confronto por meio do discurso, apenas. Precisamos tomar algumas atitudes para impedir que esse mal avance. O Brasil atravessa uma grave crise política e econômica, mas sua origem não está na má administração pública. Ela está na moralidade, que por sua vez é fruto do que está no coração humano. A má gestão e corrupção são consequências de um governo que não teme a Deus, e isso não é uma frase de efeito. Não é pecha de campanha eleitoral para conquistar o público cristão. Isso é ensinamento bíblico (Provérbios 9:10; Salmos 33:12; 2 Crônicas 7:14), de forma que o cristão possui a obrigação de ter isso como regra para decidir o seu voto.

O que está em jogo vai muito além das eleições, porque o candidato que você escolhe representa os valores que ele defende, e o que ele defende vai se converter em projetos de lei que poderão ser bons ou ruins para todos nós. Você já conhece os valores morais do seu candidato? Sabe quais são suas alianças políticas? O que ele já defendeu no passado? Quais projetos foi contra ou favorável? Se conhece, você já pensou quantos deles são compatíveis com os princípios cristãos?

Assim, os líderes das igrejas possuem o dever de contribuir para essa conscientização, porque ela faz parte da nossa cidadania. Você pode fazer isso simplesmente se posicionando abertamente em suas redes sociais, na roda de conversa, na pizzaria, etc. E devemos fazer isso tendo como referência o Evangelho de Cristo, que está acima de qualquer ideologia criada pelos homens. Ele, Cristo, é a nossa referência, ponto de partida pelo qual filtramos partidos, candidatos, propostas e tudo o que diz respeito à sociedade.

Portanto, por isso afirmo que numa eleição o que está em jogo é muito mais do que o poder político, paixões partidárias e personalidades. É o futuro da nossa liberdade de consciência diante de Deus e do mundo. 


https://colunas.gospelmais.com.br



7 de setembro de 2018

Como construir um país mais justo


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Por William Lane


Celebrar a independência do Brasil em início de campanha eleitoral, em ambiente de luta contra a corrupção e em meio a graves problemas sociais e econômicos deve nos fazer não só desejar um país mais justo, mas, sobretudo, participar ativamente da construção de uma nação mais justa.

Mas como fazer isso se temos fama e, talvez, orgulho do ‘jeitinho’ brasileiro que, embora possa ser visto como símbolo de criatividade e flexibilidade na solução de problemas difíceis, tem uma conotação negativa como esperteza, malandragem e desrespeito às leis?

De acordo com uma pesquisa de 2013 da Fundação Getúlio Vargas, que lançou o Índice de Percepção do Cumprimento da Lei, 79% dos brasileiros optam pelo ‘jeitinho’ em vez de seguir às leis, apesar de 74% acharem que a lei deva ser cumprida mesmo quando não as consideram corretas.

Essa postura em relação à lei nos leva, paradoxalmente, a esperar altíssimo padrão moral dos outros, mas pouco compromisso pessoal em combater a ilegalidade e a corrupção próximas de nós, ou as nossas próprias práticas ilícitas. Desejamos governantes íntegros e justos desde que não sancionem leis contrárias aos nossos interesses.

No meio cristão, boa parte do debate teológico sobre a lei gira em torno do lugar da lei em nossa justificação perante Deus e, portanto, na oposição da lei à fé, ou das obras da lei à graça do evangelho. O Novo Testamento nos diz que toda a lei se cumpre em Cristo, assim não vivemos mais debaixo da lei e, sim, da graça. Isso, porém, pode nos levar a um antinomianismo, isto é, à ideia de que por meio da graça o cristão não tem mais a obrigação de obedecer às leis do Antigo Testamento ou qualquer outra lei religiosa.

Apesar da forte ênfase na graça e na justificação pela fé, os reformadores do século 16 procuraram evitar o antinomianismo classificando a Lei Mosaica em lei moral, lei cerimonial, e lei civil ou humanitária. A lei cerimonial corresponde a todas as instruções sobre os sacrifícios que apontavam para Cristo. Assim, o sacrifício de Cristo na cruz cumpre toda a finalidade da lei cerimonial. As leis civis são particulares ao contexto histórico dos israelitas desde a saída do Egito até a vida na terra prometida, por isso, também, não se aplicam à sociedade moderna. Por fim, a lei moral contida principalmente nos Dez Mandamentos é válida para todos os tempos, portanto, ainda deve ser obedecida.

Contudo, por mais didática que seja essa classificação, a Bíblia propriamente não faz essa distinção. Não há exatamente uma distinção entre lei civil e lei religiosa na Bíblia. Aliás, todo o Pentateuco, incluindo a narrativa, é chamado Torá, isto é, instrução. Leis de culto, de ordem social, de trato com o próximo e com a propriedade do outro estão associadas à vida santa na terra que Deus dá.

Por isso, vejo dois aspectos das leis do Pentateuco que podem nos auxiliar na construção de uma sociedade mais justa.

O primeiro aspecto é o contexto narrativo das leis. Os Dez Mandamentos e as leis que se seguem são dados ao povo que saiu do Egito pelo “braço forte” do Senhor. A introdução dos Mandamentos declara, “Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirou da terra do Egito, da casa da servidão” (Êx 20.2). A lei é dada no contexto da graça, isto é, depois de Deus já manifestar a sua graça tirando o povo da escravidão. A lei é dada para um povo liberto, por isso, tem a função de instruir o povo liberto como viver sob o senhorio de Deus. Mesmo no Antigo Testamento, a lei não tinha a função de tornar alguém justo a fim de receber a salvação ou a promessa de vida abundante. A lei determina como um povo alcançado pela graça irá viver com o seu Deus.

O segundo aspecto que me chama atenção é a abrangência da lei. As leis incluem todas as áreas da vida desde o culto a Deus, os sacrifícios aceitáveis e as obrigações morais, até a dieta, o cuidado pessoal com a saúde e higiene, as relações sociais, o trato com escravos e estrangeiros, o pagamento de dívidas, o cuidado com a terra e a propriedade pessoal e alheia, incluindo como se livrar de mofo da parede e como cultivar e colher frutas e grãos. Essas leis não estão separadas em códigos legais humanitários, de saúde pública, ambientais, dietéticos, sociais, trabalhistas etc. Elas estão todas mescladas e o que as une é a presença de Deus no meio do povo. Elas refletem uma cosmovisão que delimita o tempo, o espaço, os seres vivos e as coisas como sagradas, puras e imundas ou profanas. O espaço, tempo e coisas profanas representam distância de Deus e morte. Tudo que afirma a vida é realizado na presença de Deus e está relacionado ao culto e à aliança com Deus.

Não há como separar vida religiosa de vida secular. Esse aspecto será lembrado pelos profetas que condenam uma vida espiritual alienada da responsabilidade social. A Bíblia A Mensagem expressa bem a queixa de Deus em Isaías 1.13-17, “Chega de joguinhos religiosos! Não suporto mais essa encenação. Conferências mensais, agenda sabática, encontros especiais, reuniões, reuniões e mais reuniões – não aguento ouvir falar em reunião … Estou cansado de religião, de tanta religião, enquanto vocês continuam pecando … Sabem por quê? Porque vocês têm trucidado pessoas, e suas mãos estão cheias de sangue”.

O problema de classificar as leis do Pentateuco em cerimoniais, civis ou humanitárias e morais é que nos faz pensar que apenas as leis morais permanecem válidas. No entanto, as leis cerimoniais e humanitárias representam a aplicação da lei moral. Assim, Êxodo 20.1-21 contém os Dez Mandamentos. Logo em seguida, de Êxodo 20.22 até 23.33 há diversas instruções que refletem como os Dez Mandamentos devem ser aplicados. E tudo isso está dentro do contexto do estabelecimento da aliança de Deus com o seu povo iniciado no capítulo 19 e finalizado no capítulo 24. Ainda que as leis retratem uma sociedade agrária antiga, o princípio delas ainda é pertinente e válido para a sociedade moderna, sobretudo, pelo fato de serem abrangentes e estarem interligadas à relação com Deus.

Se quisermos um país mais justo, precisamos ter uma visão holística da vida. Como cristãos, precisamos entender, sim, que a vida religiosa e a vida civil caminham juntas, por isso, construir um país justo implica em praticar a justiça e a santidade em todas as dimensões da vida.



William Lacy Lane (billy)
Pastor presbiteriano, doutor em Antigo Testamento e professor acadêmico da Faculdade Teológica Sul-Americana, em Londrina (PR).



27 de agosto de 2018

Eleições e Escolhas Cristãs


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Daniel Lima 


No dia 9 de agosto tivemos o primeiro debate televisionado com os candidatos à presidência, que foi talvez uma prévia dos vários confrontos que ainda ocorrerão. Olhei praticamente o debate todo, e saí com certo nível de frustração. Eu sei que não é um debate que vai definir candidatos, mas sinceramente esperava maior clareza. O que vi, com exceção de dois radicais, foi caracterizado por discursos mornos, declarações generalizadas e atitudes tão polidas quanto inócuas. No entanto, o tempo não para e o dia da votação se aproxima. Apesar de ser forte defensor da separação igreja-estado, sou também forte defensor de um sistema em que a população se manifeste quanto aos rumos de sua nação. Não por crer no enganador ditado “vox populi vox Dei” (a voz do povo é a voz de Deus), mas porque com muita frequência temos observado diferentes povos fazerem escolhas que, além de trazerem resultados catastróficos, definitivamente contrariam a vontade de Deus. Creio no modelo democrático pois creio que devemos arcar com as consequências de nossas escolhas, e um sistema onde alguém decide por mim me daria o direito de me isentar de qualquer culpa ou responsabilidade.

Tampouco creio em movimentos de anular votos ou votar em branco, buscando se eximir de participação. Ambos me parecem tentativas fúteis de fugir de escolhas, sendo que não podemos fugir de seus resultados. Com isso recai sobre nós a difícil tarefa de escolher em quem votar. Refleti então sobre quais princípios bíblicos podemos usar em uma situação assim. Embora muito tenha sido escrito defendendo uma ideologia contra outras, eu gostaria de tentar encontrar alguns princípios gerais, sobre os quais, instruídos pela Palavra, possamos concordar. Embora existam muitos, gostaria de destacar cinco deles:

1. Ore, ore, ore

Certamente é um princípio muito afirmado, mas infelizmente pouco praticado. Foi com alegria que vi a igreja da qual participo assumir um compromisso de uma campanha de oração pelas eleições. Cabe lembrar o texto de 2Crônicas 7.14:
Se o meu povo, que se chama pelo meu nome, se humilhar e orar, buscar a minha face e se afastar dos seus maus caminhos, dos céus o ouvirei, perdoarei o seu pecado e curarei a sua terra.
Não importa se o candidato roubou muito ou pouco. O fato de ter roubado revela seu caráter. 

O processo proposto para todo aquele que se identifica como seguidor de Jesus é em primeiro lugar “se humilhar” e, portanto, não defender de modo áspero, arrogante ou violento suas convicções político-partidárias. E, em segundo lugar, “orar”, clamar a Deus reconhecendo-o como aquele que tem o coração do rei em suas mãos. Cremos em um Deus soberano que tem processos assim sob seu controle, e, mesmo quando indivíduos iníquos assumem o governo, podemos confiar que ele vai atravessar este vale escuro ao nosso lado. Em terceiro lugar, “buscar a face de Deus”, buscar conhecer a Deus, buscar conhecer sua vontade e alinhar-se com ela, buscar promover o que ele ama e não o partido que me agrada. Por fim, “se afastar dos seus maus caminhos”. Não podemos orar esperando seu favor e continuar desprezando Deus e sua vontade. Não podemos orar esperando respostas enquanto em nossas vidas seguimos na direção oposta daquilo que ele propõe como caminho de vida. Portanto, não ore para que seu candidato favorito seja eleito, ore para que Deus tenha misericórdia de nossa nação, ore para que o seu plano se realize, ore para que seja eleito aquele que vai cumprir os seus propósitos nesta época para nosso país. Paulo, em 1Timóteo 2.1-2, escreve:
Antes de tudo, recomendo que se façam súplicas, orações, intercessões e ação de graças por todos os homens; pelos reis e por todos os que exercem autoridade, para que tenhamos uma vida tranquila e pacífica, com toda a piedade e dignidade.
O objetivo de nossa oração é que tenhamos vidas tranquilas e pacíficas, com toda a devoção, com liberdade para proclamar aquele governo que realmente vai resolver os problemas – o reino de nosso Senhor Jesus Cristo. Ore para que seu voto se alinhe com a vontade de Deus.

2. Fiel no pouco, fiel no muito

Um segundo princípio ao escolher nossos governantes é aquele apresentado na parábola dos talentos. O que torna alguém corrupto não é a quantia que se desvia, mas o ato de tomar para si aquilo que não lhe pertence. Lucas registra as palavras de Jesus em seu evangelho, no capítulo 16, verso 10:
Quem é fiel no pouco, também é fiel no muito, e quem é desonesto no pouco, também é desonesto no muito.
Sendo assim, não importa se o candidato roubou muito ou pouco. O fato de ter roubado revela seu caráter. Investigue seu candidato, verifique se ele ou ela são marcados por um histórico de corrupções ou se, pelo contrário, o que mais se sobressai é a ausência das mesmas.

3. Amar o que Deus ama e detestar o que Deus detesta

Um dos valores fundamentais da fé cristã é que, ao caminharmos com ele, a própria vida de Cristo começa a inundar nosso viver. Com isso, começo a descobrir interesses e paixões que não me são naturais, mas evidentemente sobrenaturais, de forma que não é mais o meu querer que dirige minha vida, mas a vontade de Deus. O apóstolo Paulo descreve isso em Gálatas 2.20:
Fui crucificado com Cristo. Assim, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim. A vida que agora vivo no corpo, vivo-a pela fé no filho de Deus, que me amou e se entregou por mim.
Examine questões como família, princípios morais, ideologia de gênero, justiça social, amparo dos desamparados.
Examine a proposta dos candidatos quanto aos valores cristãos. Ele ou ela defendem o que Deus ama? Ele ou ela se posicionam pessoalmente, e em suas propostas, de acordo com aquilo que Deus propõe como importante? Examine questões como família, princípios morais, ideologia de gênero, justiça social, amparo dos desamparados. Certamente o futuro presidente terá de governar cristãos e não cristãos, portanto não devemos esperar uma plataforma exclusivamente cristã. Ao mesmo tempo, devemos nos opor à iniquidade. Qualquer governo que, por exemplo, tenha como plataforma a desconstrução da família está promovendo abertamente a iniquidade. O apóstolo Tiago escreve em sua carta, no capítulo 4, verso 4:
Infiéis, não compreendeis que a amizade do mundo é inimiga de Deus? Aquele, pois, que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus.
Cuidado, então, com partidarismos. Cuidado com propagandas e discursos que soam tão razoáveis e tão transformadores, mas que ao mesmo tempo promovem causas que Deus odeia. Não podemos sacrificar princípios cristãos para ganhar a amizade com o mundo.

4. Caráter e competência
Para Deus não há dicotomia quanto a caráter e competência.
O que seria melhor: um governante de bom caráter mas incompetente, ou um de mau caráter mas competente? A única resposta que faz sentido é: nenhum dos dois! A Palavra torna evidente que Deus capacita aqueles que ele chama para as mais variadas funções. Na história de José lemos várias vezes que que ele prosperava porque a mão do Senhor estava com ele. Certamente ele tinha capacidade de governo, mas esta capacidade era baseada em seu caminhar íntegro. A lista de qualificações para líderes da igreja em 1Timóteo é essencialmente uma lista de aspectos do caráter e não só de competência. Para Deus não há dicotomia quanto a caráter e competência. Ao aconselhar Moisés a escolher os líderes do povo, Jetro afirma que as características destes líderes deveriam incluir tanto capacidade quanto temor a Deus. No contexto judaico e também cristão, o conceito de caráter está intimamente ligado ao temor de Deus, pois o indivíduo que assume um padrão moral e ético o faz a partir da compreensão de que há um Deus soberano ao qual cada um deverá prestar contas um dia. No texto de Êxodo 18.21 lemos:
Mas escolha dentre todo o povo homens capazes, tementes a Deus, dignos de confiança e inimigos de ganho desonesto. Estabeleça-os como chefes de mil, de cem, de cinquenta e de dez.
Ao escolher um candidato, não caia na armadilha de decidir entre caráter ou competência. Uma escolha assim é como decidir se você prefere morrer com fogo ou com água – no final, o resultado é o mesmo! Escolha candidatos que mostraram competência e, ao mesmo tempo, mostram caráter.

5. Evite votar em alguém apenas porque se diz cristão

Todos conhecemos pessoas muito dedicadas a Jesus, mas que não têm capacidade para gerir um negócio ou sequer suas próprias finanças. Infelizmente, alguns candidatos parecem crer que, por professarem ser cristãos, automaticamente estão qualificados para um cargo no governo. Olhe com muito cuidado estes candidatos. Primeiramente, seu argumento para ser seu escolhido é muito fraco. Não basta alguém ser cristão para governar uma cidade, estado ou país. O indivíduo precisa de conhecimento, capacidade e perfil para desempenhar estas funções. Em segundo lugar, o fato de se apresentarem como cristãos não significa que têm um procedimento íntegro. Todo leitor do Novo Testamento conhece a história de Ananias e Safira, que, sendo cristãos, tentaram promover uma imagem própria além da realidade. Eles tentaram mentir para os homens, mas na verdade mentiram para Deus. (Em nenhum momento o texto indica que eles não eram cristãos.) Finalmente, cuidado com candidatos que afirmam que vão defender os cristãos. Há duas razões para isso. Primeira, nosso protetor é Deus e não um governante cristão. Segunda, o que se espera de um governante é que seja justo, temente a Deus, e não alguém que defenda seguidores de uma fé acima dos demais.
Após considerar esses princípios, você talvez conclua que não há candidatos que preencham todas estas características. Isso pode muito bem ser verdade. Uma vez mais, importa aqui o discernimento. Reflita: qual dos candidatos mais preenche estas características? Qual deles vai refrear a iniquidade e promover a justiça? Qual deles, em sua percepção, vai lutar por aquilo que Deus ama? Minha oração é que eu, você e a igreja brasileira estejamos engajados neste processo, nos humilhando, orando, buscando a face do Senhor, nos desviando do mal e nos oferecendo como seus agentes para cumprir seu propósitos em nossa nação.


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