Em Cristo estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento. (Colossenses 2:3)

Ninguém vos engane com palavras vãs; porque por essas coisas vem a ira de Deus sobre os filhos da desobediência.(Efésios5:6)
Digo isso a vocês para que não deixem que ninguém os engane com argumentos falsos. (Colossenses 2:4)
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19 de junho de 2014

O Divórcio no Mundo Antigo - O Código de Hamurabi



Rocha de diorito com as leis do Código de Hamurabi

Para entendermos sobre a visão do divórcio no Mundo Antigo, veremos primeiro como se estruturava a família de modo geral.
No Império Babilônico, bem como em países orientais vizinhos, as famílias eram patriarcais. Esse grupo era formado do pai, suas mulheres, seus filhos, e por vezes das famílias de seus filhos, com noras, genros e netos. O pai era o chefe, o maior administrador dos negócios e proventos do grupo. Quando este morria, raramente se passava essa função à mãe. Quem administrava era o primogênito que já ia assumindo paulatinamente as funções do patriarca com o avanço de sua velhice. As propriedades e negócios da família chamava-se no Código de Hamurabi de "bens" ou "haveres da casa paterna". Ao se referir às propriedades de alguém, o código sempre usava o termo "bens da casa paterna", que podiam ser terras, casas, gado, escravos, utensílios, pontos de explorações e metais preciosos como ouro, cobre e prata.
Essa estrutura era desfavorável ao enriquecimento individual dos membros dessas sociedades. Os investimentos geravam riquezas do grupo, era por isso que eram acirradas as disputas pelo direito de primogenitura, onde as esposas se esforçavam para ter filhos homens que seriam candidatos à administração

ou auxiliares nos negócios da família.

Quando o primogênito se mostrava incapaz ou rebelde para fazer a administração dos negócios do grupo, o pai cedia a liderança ao filho chamado "o primeiro da sua atenção". Outros filhos homens com habilidades para os negócios recebiam uma parcela dos bens na partilha do patrimônio, aumentando a sua possibilidade de investir e de ter bens próprios ( bens adquiridos por si mesmo, por seu trabalho pessoal ou pelos seus próprios meios) e formar novo clã.

No Código de Hamurabi há uma descrição detalhada dedicada às partilhas fixadas para a mãe, filhos não casados, filhos de concubinas mantendo o princípio de igualdades de partes. Mas isso não era observado nas prática, principalmente nas comunidades tribais, sendo que o primogênito geralmente recebia a maior e melhor parte e a administração. Os outros filhos geralmente vendiam a sua parte para ele.

Nesse contexto geralmente as filhas e mesmo as mães ficavam prejudicadas. Após a morte do pai, os filhos mais velhos costumavam desagregar a família roubando os mais novos e as irmãs depois de casadas, tornando-se chefes de novas comunidades. As segundas esposas dos patriarcas também podiam ser afastadas dos direitos de partilha e herança com seus filhos, formando gerações de deserdados que buscavam sustento nas cidades como funcionários reais subalternos, artesãos, nos exércitos e como empregados e trabalhadores autônomos.


O casamento e o divórcio
Os pais combinavam a união dos noivos, e muitas vezes, era pedido um acordo entre as partes contratantes. Na ocasião do casamento, era pago o preço, ou o dote. O pagamento era, algumas vezes, realizado por meio de serviços prestados.
No mundo antigo o casamento era visto como uma aliança ou contrato financeiro. Os noivos muitas das vezes se conheciam no dia da cerimônia.
Nessa sociedade as mulheres sempre tinham menos privilégios.
As adúlteras tinham a punição mais severa que os maridos infiéis. Se comprovada, e sem o perdão do marido, geralmente eram condenadas à morte junto com seus amantes.
A simples suspeita do marido de adultério não podia ser motivo de carta de repúdio.

Mulheres podiam receber carta de repúdio no início do casamento. Por essas condições era de um esforço grande por parte da mulher manter-se casada, aceitando inclusive a admissão de concubinas no seio familiar para dividir as obrigações sexuais.

No império de Hamurabi mulher legítima, era casada por contrato:
art.128; "Se um homem tomou uma esposa e não redigiu seu contrato, essa mulher não é sua esposa." . Esta, pelo Código, herda após a morte de seu marido o seu dote e uma parte igual a dos filhos. Na prática, as viúvas sem filhos perdiam tudo se não fossem resgatadas com outro casamento ou pela lei do levirato.

Veremos a seguir as leis prescritas no Código de Hamurabi sobre o casamento e o divórcio:


Condições para a condenação da mulher infiel:

1. Infidelidade feminina comprovada sem perdão do marido:

"art. 129. Se a esposa de um homem foi surpreendida dormindo com outro homem, eles os amarrarão e os jogarão n'água. Se o esposo perdoa sua esposa, o rei, também perdoará o seu servo."

2. Infidelidade feminina comprovada por mulher com provisões deixadas pelo marido:

"art. 133. Se um homem afastou-se secretamente e em sua casa há o que comer, sua esposa guardará sua casa e cuidará de si mesma. Ela não entrará na casa de outro homem. Se essa mulher não cuidou de si mesma e entrou na casa de outro homem, comprovarão isso e a lançarão n'água."

Observação: Suspeita de traição

Em caso de suspeita de traição da esposa havia duas situações citadas no código:
"art.131 Se a esposa de um homem, seu marido a acusou, mas não foi surpreendida com outro homem, ela pronunciará juramento diante de deus e voltará para sua casa."
"art.132. Se contra a esposa de um homem foi levantado o dedo por causa de outro homem, mas ela não foi surpreendida dormindo com outro homem: para seu esposo ela mergulhará no rio."

"Mergulhar no rio" é uma pena usada em alguns casos de acusações graves não provadas. Se a pessoa morresse afogada é porque era realmente culpada. Mas se saísse ilesa era inocente, mas o acusador podia levar uma pena. Temos o caso do artigo 2 do Capítulo 1:
"Se um homem lançou contra outro homem uma acusação de feitiçaria, mas não pode comprovar, aquele contra quem foi lançada a acusação será mergulhado no rio. Se o rio o dominar, seu acusador tomará para si a sua casa. Se o rio o purificar e ele sair ileso, aquele que lançou a acusação de feitiçaria será morto e o que mergulhou no rio tomará para si a casa de seu acusador."

Condições para a não condenação da mulher infiel:

3. Infidelidade feminina comprovada por mulher sem provisões deixadas pelo marido:


"art. 134 Se um homem afastou-se secretamente de sua casa e nela não há o que comer, sua esposa poderá entrar na casa de outro. Essa mulher não tem nenhuma culpa."

"art. 135 Se um homem afastou-se secretamente e em sua casa não há o que comer e, antes de sua volta, sua esposa entrou na casa de outro e gerou filhos; e depois disto, seu marido voltou e chegou à cidade, essa mulher voltará para o primeiro marido e os filhos ficarão com o pai."

Em observação aos artigos 134 e 135, não é dado ao homem nessas condições o direito de dar carta de divórcio à essa mulher.



Condições para o divórcio segundo o Código Hamurabi:
As cartas de repúdio ou divórcio eram apresentadas às famílias das mulheres ou diante de tribunais e eram cedidas nas seguintes condições:

4. Abandono do homem da cidade
"art. 136 Se um homem abandonou sua cidade e fugiu e depois de sua saída sua esposa entrou na casa de um outro, se este homem voltou e quer retomar sua esposa, a esposa do fugitivo não retornará a seu marido, porque ele desprezou a cidade e fugiu."

5. A mulher é sacerdotisa 
As sacerdotisas tinham autorização para realizar em seu próprio nome vários atos jurídicos, podiam adquirir e investir em bens. Elas administravam seus próprios negócios, compravam bens imobiliários e praticavam a usura. Podiam ter, portanto, certa independência financeira e condições de se manter caso os maridos pedissem carta de divórcio. Elas só podiam se casar de novo após a criação dos filhos.

"art. Se um homem decidiu repudiar uma sacerdotisa, que lhe gerou filhos, devolverá a essa mulher o seu dote e dar-lhe-á a metade do campo, do pomar e dos bens móveis e ela educará os filhos. Depois que houver educado os seus filhos, de tudo que foi deixado para os seus filhos dar-lhe-á a parte correspondente à de um herdeiro e o homem de seu coração poderá tomá-la por esposa."

6. A mulher é estéril
A mais dolorosa de todas as condições. O marido de mulher estéril podia pela lei exigir carta de divórcio, abandoná-la ou devolvê-la à família caso ela não se submetesse a uma segunda mulher. A falta de herdeiros era uma ameaça 
ao patrimônio familiar.
" art. 138 Se um homem quer abandonar sua primeira esposa, que não lhe gerou filhos, dar-lhe-á a prata correspondente, isto é, o preço que o pai do noivo pagou ao pai da noiva e restituir-lhe-á o dote que trouxe de seu pai. Só então poderá abandoná-la."
"art. 139 Se o pai do noivo nada pagou e não houve dote, dar-lhe-á uma mina de prata como indenização do repúdio."
"art. 140 Se o homem pertence à classe média, dar-lhe-á, apenas, um terço de uma mina de prata."

7. A mulher acumulou bens, decidiu ir embora, negligenciando a casa e o marido
"art. 141 Se a esposa de um homem, que mora na casa de seu marido, decidiu ir embora e criou para si um pecúlio, dilapidou sua casa, negligenciou seu marido, comprovarão isso contra ela. Se seu marido declarou que deseja repudiá-la , ele poderá repudiá-la. Ele não lhe dará coisa alguma, nem para viagem, nem como indenização de separação. Se seu marido declarou que não deseja repudiá-la, seu marido poderá tomar outra mulher e ela morará como escrava na casa de seu marido."

8. Aversão por infidelidade do homem 
Esse caso é analisado nos tribunais para testar a conduta da mulher em casa. Deve ser comprovada a infidelidade e humilhação do marido apesar da postura correta da esposa com as suas obrigações de mulher e dona de casa.
"art. 142 Se uma mulher tomou aversão a seu marido e disse-lhe: 'Tu não terás relações comigo', seu caso será examinado em seu distrito. Se ela for irrepreensível e não tiver falta e seu esposo for um saidor e a tiver humilhado muito, essa mulher não tem culpa, ela tomará o seu dote e irá para acasa de seu pai."
"art. 143 Se ela não é irrepreensível, mas é saidora, dilapida a sua casa e desonra seu marido, jogarão essa mulher n'água."

Condições não aceitas para dar a carta de divórcio
9. Doença da esposa
"art.148 Se um homem tomou uma esposa, e esta foi acometida por moléstia contagiosa, e ,se ele decidiu esposar outra, ele poderá, mas não poderá repudiar a esposa doente. Ela morará na casa que construíram e ele a sustentará enquanto viver."
"art. 149 Se essa mulher não concordou em morar na casa de seu marido, ele devolver-lhe-á o dote que trouxe da casa do pai e ela irá embora."

A mulher adúltera era punida muito mais seve­ramente do que o marido infiel. O divórcio a pedido da esposa era difícil.

Condições para o Divórcio nas Leis de Moisés e nas Escrituras
Apesar das novas gerações tenderem a enfraquecer as relações tradicionais, pouco mudou dessa estrutura no mundo das sociedades da era bíblica.

O código de leis de uma sociedade organizada sofre influência direta da cultura e de seus costumes. As leis mosaicas refletiam o pensamento oriental do mundo antigo sobre o casamento, o divórcio e outros assuntos, perpetuados pelo antigo Código de Hamurabi.

O divórcio não foi condenado nas Escrituras por causa das condições desfavoráveis impostas à mulher pela cultura da sociedade e por causa da poligamia. Mas havia condições explícitas e bem definidas para a concessão da carta.
D'us odeia o repúdio no casamento conforme descrito em Malaquias 2. Na época as mulheres nessa condição ficavam desesperadas e se derramavam nos templos: "Ainda fazeis isto: cobris o altar do Senhor de lágrimas e de gemidos, de sorte que Ele já não olha para a oferta, nem a aceita com prazer da vossa mão."  v.13
Em tempos de frieza espiritual, os homens eram infiéis e quebravam a aliança do casamento após vários anos de convivência. Como não se encaixavam nas condições de pedir a carta de divórcio citada em Deuteronômio 24.1 eles enviavam as esposas de volta para as suas famílias ou simplesmente as despediam ou abandonavam.
"Porque o Senhor foi testemunha da aliança entre ti e a mulher da tua mocidade, com a qual tu foste desleal, sendo ela a tua companheira e a mulher da sua mocidade." v.14


כִּי-שָׂנֵא שַׁלַּחפ "Porque odeio o repúdio." Malaquias 2.6, onde o verbo שַׁלַּח é um verbo que significa enviar, mandar, remeter, afastar, despedir, expulsar, libertar, repudiar.

Essa não é a mesma palavra usada em Deuteronômio 24.1 "Quando um homem casa com uma mulher ou a possui, se ela o desagrada (ou) se tem evidência de má conduta sexual por parte dela*, ele lhe escreverá uma carta de divórcio e a colocará em sua mão, assim liberando-a de sua casa. Quando ela assim deixar a sua casa, ela pode ir e casar com outro homem."
O termo aqui é סֵפֶר כְּרִיתֻת carta de divórcio, e ela só podia ser concedida caso houvesse estranheza entre o casal após o matrimônio pois na época os casamentos eram arranjados também em Israel e os noivos só se conheciam no dia da cerimônia.
כִּי-יִקַּח אִישׁ אִשָּׁה, וּבְעָלָהּ; וְהָיָה אִם-לֹא תִמְצָא-חֵן בְּעֵינָיו, כִּי-מָצָא בָהּ עֶרְוַת דָּבָר--וְכָתַב לָהּ סֵפֶר כְּרִיתֻת וְנָתַן בְּיָדָהּ, וְשִׁלְּחָהּ מִבֵּיתוֹ

Portanto, a carta de divórcio não era uma instituição de D'us, era apenas uma permissão caso não houvesse identificação entre o casal no início do casamento. Era na verdade uma anulação da cerimônia. Nesse caso, a família da noiva era convocada junto com os anciãos, e os motivos do pedido da separação eram colocados. Após o seu retorno para casa, ela sendo jovem, tinha condições de se casar de novo.O divórcio entre esse casal era irreversível.

Cartas de divórcio não costumavam ser dadas após o nascimento do primeiro filho, ainda mais homem. Conforme já citamos, cartas de divórcio não eram cedidas por causa da velhice da mulher, nem por causa de doença.

*"evidência de má conduta sexual por parte dela": não era virgem, contrário ao estabelecido no contrato.


A seguir um vídeo sobre o Código de Hamurabi, com leitura de algumas leis de todos os tópicos.
https://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=6Wk5OnhlmBM

Se um homem é capaz de conquistar a alma de sua esposa dia após dia de modo a incentivá-la a preservar o seu casamento, ele será capaz de conquistar a alma de pelo menos um errante para a leitura e obediência da Torá. 
 

Bibliografia:
Código de Hamurabi - Código de Manu (Livros oitavo e Nono) - Lei das XXII Tábuas. Supervisão Editorial Jair Lot Vieira - EDIPRO, 1ª edição, 1994, SP.
1.A Torá Viva - O Pentateuco e as Haftarot - Anotado por Rabino Aryeh Kaplan- Editora Maayanot;
2.Tehilim - Salmos Tradutores: Adolph Wasserman & Chaim Szwertszarf; McKlausen Editora; RJ.
3.Dicionário Português Hebraico e Hebraico Português - Abraham Hatzamri e Shoshana More-Hatzamri - ed. Sêfer
4.Dicionário Hebraico-Português&Aramaico-Português, Sinodal Vozes, 4ª edição, 1994.

FONTE: 
http://telahebraica.blogspot.com.br/2012/06/o-divorcio-no-mundo-antigo-o-codigo-de.html



OBSERVAÇÕES:
O Código de Hamurabi é um conjunto de leis criadas na Mesopotâmia, por volta do século XVIII a.C, pelo rei Hamurabi da primeira dinastia babilônica. O código é baseado na lei de talião, “olho por olho, dente por dente”.

Leis e objetivos do código
As 281 leis foram talhadas numa rocha de diorito de cor escura. Escrita em caracteres cuneiformes, as leis dispõem sobre regras e punições para eventos da vida cotidiana. Tinha como objetivo principal unificar o reino através de um código de leis comuns. Para isso, Hamurabi mandou espalhar cópias deste código em várias regiões do reino.

As leis apresentam punições para o não cumprimento das regras estabelecidas em várias áreas como, por exemplo, relações familiares, comércio, construção civil, agricultura, pecuária, etc. As punições ocorriam de acordo com a posição que a pessoa criminosa ocupava na hierarquia social.

O código é baseado na antiga Lei de talião, “olho por olho, dente por dente”. Logo, para cada ato fora da lei haveria uma punição, que acreditavam ser proporcional ao crime cometido. A pena de morte é a punição mais comum nas leis do código. Não havia a possibilidade de desculpas ou de desconhecimento das leis.
 FONTE: http://www.suapesquisa.com/mesopotamia/codigo_hamurabi.htm
 

24 de março de 2011

Divórcio e recasamento: pecados imperdoáveis pelo Espírito Santo?

 
 
Vivenciar o divórcio pode ser uma das experiências mais estressantes e dilacerantes da vida das pessoas. Vivenciá-lo dentro da igreja, no entanto, pode ser ainda pior.
Isso porque muitos cristãos sinceros, infelizmente ainda não obtiveram o conhecimento bíblico correto sobre o assunto e, por causa disso, são reticentes na sua relação com irmãos divorciados.
Esse post tem como objetivo lançar alguma luz sobre a questão. Primeiramente, é preciso que nos lembremos de que “… a lei foi dada por intermédio de Moisés; a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo” (Jo. 1.17).
A primeira pergunta que devemos nos fazer, portanto, é se os que vivem tragédias matrimoniais como o divórcio, por exemplo, também são dignos dessa “graça” e dessa “verdade” trazidas por Jesus. Creio que uma consciência cristã experiente tem a resposta certa para ela.
Um outro ponto importante é dizer que a Bíblia fala apenas de um divórcio, no texto de Jeremias 3:8, que diz o seguinte: “E vi que, por causa de tudo isto, por ter cometido adultério a rebelde Israel, a despedi, e lhe dei a sua carta de divórcio, que a aleivosa Judá, sua irmã, não temeu; mas se foi e também ela mesma se prostituiu”.
Nesse texto, Deus está advertindo a Judá de que está procurando problemas. Ele, então, instruiu a Jeremias para que alertasse a Judá de que ela havia sido testemunha da infidelidade de sua irmã Israel, e que Ele a havia mandado embora e lhe dado carta de divórcio. Assim mesmo, Judá não se arrependeu (Jr. 3.6-8). 

POR QUE A FALTA DE COMPREENSÃO SOBRE O DIVÓRCIO?

Quando Jesus foi questionado pelos fariseus, no evangelho segundo Marcos, “se é lícito ao  marido repudiar sua mulher” ele respondeu, fazendo outra pergunta: “Que vos ordenou Moisés?”
A resposta deles foi: “Moisés permitiu lavrar carta de divórcio e repudiar” (Mc. 10.2-4).
Essa resposta dada pelos fariseus se refere à lei à qual o historiador Josefo, que viveu um pouco depois da época de Jesus, chama de “a lei dos judeus”, e se encontra em Deuteronômio 24.1-4.
Esta é a lei de que trata Deuteronômio: “Se um homem tomar uma mulher e se casar com ela, e se ela não for agradável a seus olhos, por ter ele achado coisa indecente nela, e se ele lhe lavrar um termo de divórcio, e lho der na mão, e a despedir de casa; e se ela, saindo da sua casa, for e se casar com outro homem…” (Dt. 24.1-2).
Isso estava vigente na época de Jesus, mas a situação em que os homens judeus viviam era bem diferente, pois eles, na realidade, não a praticavam, e tomavam outras esposas, sem se incomodar em pensar em divórcio.
Ora se não se divorciava, o que fazia, então, um homem daquela época com a primeira esposa, quando tomava outra? Simplesmente, punha-a de lado, não lhe dando documento algum. Assim, caso se arrependesse, tinha a esposa anterior sempre à sua disposição! Isso era uma crueldade para com as mulheres, contra a qual Jesus se insurgiu.
A palavra hebraica, usada no Antigo Testamento, para descrever esse “pôr de lado” ao qual nos referimos é shalach, diferente da palavra que significa divórcio (como utilizada em Jeremias 3.8) que é keriythuwth que, literalmente significa excisão ou corte do vínculo matrimonial.

Ora, shalach normalmente é traduzido por “repudiar”. Então, as mulheres que eram “colocadas de lado” por seus maridos, sem carta de divórcio como mandava a lei, eram “repudiadas” e era contra essa espécie de repúdio que Jesus se opôs.
Quando, em Lucas 16.18 ele diz: “Quem repudiar sua mulher e casar com outra comete adultério; e quem casa com a mulher repudiada pelo marido também comete adultério”, ele está se revoltando contra uma prática cruel e injusta, porém não está se referindo ao divórcio.

Na verdade, no Novo Testamento, a palavra grega utilizada para “repúdio” vem do verbo apoluo, e é equivalente à palavra hebraica shalach (“deixar” ou “repudiar”). Já a palavra hebraica utilizada para “divórcio” é keriythuwth, cujo equivalente no grego (língua na qual foi escrito o Novo Testamento) é apostasion.
Resumindo, para ficar mais claro: shalach, no hebraico, corresponde a apoluo, no grego e significa “repúdio”, em português. Keriythuwth, no hebraico, corresponde à palavra grega apostasion e significa “divórcio”, de fato, em português. A não compreensão dessa diferença é que provoca tanta confusão e tanta incompreensão em nossos dias!

QUE PALAVRAS JESUS SE UTILIZOU PARA TRATAR DO ASSUNTO?

As passagens bíblicas nas quais Jesus tratou deste assunto incluem Lucas 16.17-18; Mateus 19.9, Marcos 10.10-12 e Mateus 5.32. Nessas passagens, Jesus utilizou onze vezes a palavra apoluo, em uma de suas formas e, em todas essas ocasiões, o que ele proibiu foi o apoluo, ou seja, o repúdio. Ele jamais proibiu apostasion, a carta de divórcio exigida pela lei judaica!

Isto posto, devemos traduzir a palavra grega apoluo por divórcio? A tradução Revista e Corrigida de Almeida, que é a mais antiga em língua portuguesa sempre usou “deixar” e “repudiar”. Do mesmo modo, emprega essas mesmas palavras a Revista e Atualizada.

E Por Que As Pessoas Passaram a Ler Diferente?

Essa é uma pergunta sobre a qual vale a pena discorrer um pouco, pois, no meio evangélico, principalmente, começou-se a ler: “aquele que divorciar sua mulher” nas passagens em que Jesus, com muita clareza, disse: “aquele que repudiar ou abandonar sua mulher”!
Ao que tudo indica, esse equívoco começou em 1611, quando a rei Tiago encomendou a versão mais antiga e, hoje em dia, mais popular da língua inglesa (a chamada King James Version). Nessa edição ocorreu um problema: em uma das onze vezes que Jesus usou o termo, os tradutores escreveram “divorciada”, ao invés de “abandonada” ou “repudiada”.
Isso aconteceu em Mateus 5.32, onde eles colocaram: “E aquele que se casar com a divorciada comete adultério”, embora a palavra grega não seja apostasion, mas uma forma de apoluo – situação que não inclui carta de divórcio para a mulher, pois ela, tecnicamente permaneceria casada.
A versão Standard Americana corrigiu o erro em 1901, mas nunca chegou a ser tão popular como a King James Version. Na verdade, tudo o que foi impresso depois (incluindo os léxicos gregos e americanos) foi influenciado por essa ocorrência. De onde resulta o fato incontestável de que a tradição nos ensinou a ter em mente “divórcio”, mesmo quando lemos “repúdio”.
(nota “estrangeira”: Entrei no Biblia On Line e copiei as versões de Mt 5.32:
but I say unto you, that every one that putteth away his wife, saving for the cause of fornication, maketh her an adulteress: and whosoever shall marry her when she is put away committeth adultery (American Standard Version).
But I say unto you, That whosoever shall put away his wife, saving for the cause of fornication, causeth her to commit adultery: and whosoever shall marry her that is divorced committeth adultery (King James).
Também entrei no Biblia On Line Net e abaixo está a versão em grego transliterado:
egô de legô umin oti a=pas tsb=os a=o tsb=an a=apoluôn tsb=apolusê tên gunaika autou parektos logou porneias poiei autên a=moicheuthênai tsb=moichasthai kai os ean apolelumenên gamêsê moichatai)

CONCLUSÃO

Tudo o que tivemos a oportunidade de examinar, através deste post, não pode e nem teve a pretensão de defender a prática do divórcio. Biblicamente falando, todos sabemos que o matrimônio foi planejado para durar a vida toda.
Portanto o divórcio é um privilégio, no sentido de servir como um corretivo apenas para situações intoleráveis. Mesmo assim, não deixa de ser uma tragédia: sentimento de culpa, perda da auto-estima, um agudo senso de ter falhado, solidão, rejeição, críticas dos familiares e dos irmãos em Cristo, problemas na educação dos filhos e uma série de outras graves conseqüências são os resultados concretos que afligem os divorciados.
No entanto, a graça de Cristo é abundante para eles também. Jesus sempre se identificou com os que sofrem e com os que, reconhecendo o seu pecado, confessam-no e o deixam. A igreja foi planejada para ser uma comunidade terapêutica, que cura as feridas; não que as fazem doer mais.
Portanto, nosso desejo sincero é que deixemos de ser juízes, pois não foi para isso que Cristo nos chamou. E que tenhamos mais amor, mais compreensão e mais empatia por esses nossos queridos irmãos divorciados. Por eles também Jesus derramou seu precioso sangue purificador!

Tony Ayres 
 
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BIBLIOGRAFIA:
Este artigo está baseado no apêndice O divórcio, a lei e Jesus, incluso in:
CARVALHO, Esly Regina, Quando o vínculo se rompe, ed. Ultimato, 2001
(nota “estrangeira”: O texto O divórcio, a lei e Jesus pode ser lido clicando aqui - altamente recomendável)
Todos estamos muito acostumados com a versão “oficial” cristã sobre divórcio e recasamento: NÃO PODE, divórcio talvez e olha lá, só em caso de adultério. É claro que nenhum cristão se casa para se separar anos depois, aliás nem os não-cristãos fazem isso. Os homens nem tanto, mas nós, mulheres, desde pequenas somos influenciadas pelas histórias infantis de que seremos buscadas por um príncipe encantado, com o qual seremos felizes para sempre. Não sei as crianças de hoje em dia, mas até minha geração era assim.
O fato é que não somos príncipes ou princesas, somos homens e mulheres falhos e que muitas vezes tomam atitudes erradas, que pecam e são carentes da misericórdia e do perdão de Deus. Deus perdoa, tem misericórdia, tem amor infinito por nós apesar de pecarmos contra Ele todos os dias. Mas e a Igreja?
É muito fácil jogar pedras quando não somos nós que estamos no meio da arena. No caso em que Jesus salvou uma mulher adúltera da morte por apedrejamento com Sua Palavra, é interessante notar que só a mulher estava sendo condenada. Ora, onde estava o homem com o qual foi cometido o adultério?
Infelizmente repetimos isso atualmente, em pleno século XXI. Temos computadores ultra-avançados, fomos à Lua, podemos conversar em tempo real com uma pessoa do outro lado do mundo, mas as mulheres continuam vítimas, embora agora tenham que trabalhar dentro e fora de casa, numa jornada incansável. Hoje, uma cristã que apanha do marido em muitas denominações está condenada a morrer apanhando, afinal tem que “fé em Deus” que um dia Ele consertará seu marido. Faça o sacrifício, morra, mas não cometa o ato “imperdoável” para a igreja que é o divórcio.
O importante é aparentar santidade, não ser santo. O importante é desfilar com a família no culto do domingo, dando glórias a Deus, e no resto da semana encher a mulher de sopapos e sair com outras, mas no domingo levar a “oficial” no templo! No mundinho gospel, a santidade que importa é a “aparência”: a mulher de César não precisa ser honesta, tem apenas que parecer (livre adaptação minha).
Não sou favorável ao divórcio. Ninguém merece passar os anos de sofrimento que essa atitude causa. Todo o pecado é perdoado, mas traz consequências. A consequência do divórcio é o gigantesco sofrimento em que todas as partes se envolvem, inclusive os filhos caso esses existam. Além do quase infinito sofrimento causado pela dissolução de um sonho que nasceu para ser eterno, ainda há a marca que a “igreja” coloca sobre os envolvidos. Os nazistas tatuavam um número nos corpos dos judeus; a “igreja” tatua a alcunha de “divorciado”, “vivendo em pecado”, “vivendo em adultério”, mesmo já havendo, lá nos céus, o perdão divino. Jesus disse à samaritana que tinha tido 6 maridos: você nunca teve marido. A história já começa com Jesus falando com uma samaritana, e os judeus não podiam falar com os de Samaria; depois vem Jesus e diz que a samaritana nunca teve marido, mesmo ela estando vivendo com o 6o.  Em outras palavras, Jesus lhe disse que, para Deus, é como se ela nunca tivesse sido casada, provavelmente porque até esse último fosse uma relação apenas de “aparência” – ver Jo 4.
É interessante que Jesus falava com mulheres em adultério, mas não há relatos de ter falado as mesmas coisas para homens na mesma situação. Seria isso mais uma evidência do cuidado de Deus para com aquelas que uma cultura profundamente machista colocavam em eterna posição de pecado e de condenação?
Não sou favorável ao divórcio. Não me casei para me separar daqui a alguns anos. Pretendo lutar com unhas e dentes para a manutenção do meu casamento, dos laços de amor e de respeito. Porém, não posso simplesmente jogar pedras nas pessoas que infelizmente não conseguiram suportar situações que desconhecemos. Sirvo a um Deus vivo, que nos perdoa quando nos arrependemos, e se Ele dá o perdão, quem sou eu para não perdoar? Além do mais há aquela exortação: perdoa para ser perdoado.
Como Igreja, ao invés de rotular e defenestrar quem passou por essa triste experiência, da qual já colhe por si só os frutos amargos através do grande sofrimento envolvido, devemos acolher essas pessoas e reintegrá-las nos templos. Como cristãos devemos amar, não relegar as pessoas à uma segunda classe.
Sou casada com um pastor que sofreu um divórcio. Casou-se e o casamento não durou 7 meses. Terminou após muitas brigas, quando ele saiu de casa pois sabia que poderia partir para a agressão física. Foi para a casa de sua mãe no interior, quando voltou não havia mais casa, tudo o que haviam comprado fora vendido a preço de banana aos “irmãos” da igreja onde congregavam. Ficou com todas as dívidas, pois os bens foram comprados à prestação, num montante de cerca de R$ 10.000,00. Ficou sem casa, sem carro, só com suas roupas, e teve de recomeçar do zero. Nunca foi atrás do divórcio, faltou a todas as audiências, sua ex-esposa que entrou com os processos de separação e divórcio. Um dia chega-lhe a notícia de que estava divorciado, e 4 anos depois nos casamos.
Esse foi um grande vale de lágrimas para o meu esposo. Sozinho em São Paulo, uma grande metrópole, traído pela denominação em que congregava (quando o assunto é dinheiro, comprar coisas novas baratinho, não há fé que resista), sem a mulher com a qual fez muitos sonhos, com o nome restrito por conta das dívidas de coisas que ele não tinha mais em mãos, mesmo assim lutou, trabalhou muito e conseguiu pagar as contas. É um homem de Deus que fala com autoridade, embora desconhecido, mas tem uma mácula imperdoável para muitos: o ter se divorciado e se casado novamente. Talvez deveria ter mandado matar a ex-esposa, aí ficaria viúvo e depois se arrependeria e seria aceito pelo “mundinho gospel”. Como ele não ousou consertar um pecado com outro ainda maior, ficaremos para sempre com essa mácula que só os homens enxergam, pois Deus já nos purificou com o Sangue de Jesus há muito.
Não recomendo o divórcio para ninguém. Não é essa a vontade de Deus. Deus nos fez para sermos uma só carne e um só sangue, por isso devemos pensar bem antes de nos casarmos, para evitar sofrimentos futuros. Não há casamento perfeito, por isso devemos semear o amor e o respeito todos os dias, perdoando-nos em todo o tempo. Porém, se alguém infelizmente passou por isso, saiba que a Graça de Deus pode tanto reconstruir um casamento falido, como reconstruir vidas. 
Onde abundou o pecado, superabundou a Graça. Que um dia a Igreja aprenda e entenda isso, em nome de Jesus. 
 
http://estrangeira.wordpress.com/2009/09/26/divorcio-e-recasamento-pecados-imperdoaveis-pelo-espirito-santo/ 
 
Recomendação de site Psicoterapeuta Cristão
 

19 de fevereiro de 2011

DIVÓRCIO E REPÚDIO, QUAL A DIFERENÇA


Walter L. Callison
 
O DIVÓRCIO, A LEI E JESUS

O divórcio e um novo casamento são tópicos de muita discussão. O propósito deste artigo é inspirar o leitor a considerar a atitude da igreja frente a um novo casamento em vista do real sentido de termos originais hebraicos e gregos que definem corretamente a diferença entre “repúdio” e “divórcio”. “A lei veio por meio de Moisés mas a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo” (João 1:17).

Receberão graça os que estão sofrendo a tragédia matrimonial como descreve a lei no Novo Testamento? Afirmamos que a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo! Então como superabundará a graça àqueles que têm sofrido a tragédia de um fracasso matrimonial e um subsequente divórcio?

Cristo não só ensinou com palavras mas também com Sua vida. Ele deu novas idéias a Seus seguidores rejeitou o antigo ditado popular de “olho por olho” realçando o amor não a si mesmo mas ao semelhante tirando a mulher da condição de “objeto” para ser reconhecida como pessoa. Ele também ensinou a respeito da velha lei judaica.

Quando estudamos o que Jesus disse a respeito do divórcio devemos também estudar a vida que Ele viveu junto com os que tinham matrimônios desfeitos, bem como o que ensinou sobre a lei judaica, especialmente no que se refere à lei do divórcio. Mas o que há acerca de Suas palavras? Se uma pessoa divorciada se casa novamente, o que dizem suas palavras? “Todo aquele que repudiar sua mulher e se casar com outra adultera e aquele que se casar com a repudiada pelo marido também adultera”. Podemos imitar a natureza compassiva e misericordiosa de Cristo que enviou a mulher do poço de Jacó para Samaria a fim de que Dele testemunhasse. Mas Suas palavras acaso negam suas ações? Acaso as pessoas divorciadas que voltam a desposar alguém viverão por isso em adultério? Estarão proibidas desse modo de servir a Cristo?

Também precisamos dar ouvidos às palavras do apóstolo Paulo em I Timóteo 3:2 (“Mas é necessário que o ministro seja irrepreensívelmarido de uma só mulher. . .”). O texto fala de uma pessoa que se divorciou e se casou novamente? Neste aspecto Lucas faz somente um comentário muito conciso: “Porém mais fácil é passar céus e terra, que se mude ou tire um só til da lei. Todo aquele que repudiar a sua mulher e se casar com outra adultera e aquele que se casar com a mulher repudiada também adultera” (Lucas 16:17,18).

Ele é conciso. Mas Jesus deixou claro que o Velho Testamento tinha algo significativo a dizer. Quando questionado pelos fariseus no evangelho de Marcos “se era lícito um marido repudiar a sua mulher” (Mar. 10:2) Jesus respondeu: “O que ordenou Moisés?” (Mar. 10:3). Eles responderam: “Moisés permite dar carta de divórcio e repudiá-la” (Mar. 10:4). Existia uma lei.

 
 
A lei se encontra em Deuteronômio 24:1-4 e era nesse contexto que Jesus vivia. Flávio Josefo, que também viveu nessa ocasião, referiu-se a ela como a “lei dos judeus”: “Aquele que deseja divorciar-se de sua esposa por qualquer razão (e em muitos casos isso ocorre com o homem) é permitido dar testemunho por escrito que não voltará a casar-se com aquela mulher. Portanto, ela estará em liberdade de se casar com outro homem. Contudo, antes dessa carta de divórcio ser-lhe dada, a ela não se permitirá casar novamente. . .” (Antigüidades dos Judeus “The Life and Work of Flavius Josephus”, Livro IV Cap. VIII Sec. 23 pág. 134 trad. The Woman. Whiston Holt Rinehart e Wiston N.Y.).

Eis a lei de que trata Deuteronômio: “Quando algum homem tomar uma mulher e se casar com ela e não se agradar por haver achado nela algo indecente lhe escreverá uma carta de divórcio e entregará em suas mãos e a mandará embora de casa. E saindo de sua casa poderá casar-se com outro homem” (Deut. 24: 1 e 2).

A lei ainda vigorava ao tempo de Cristo. Portanto devemos tratar com os “códigos da lei”. A Bíblia fala unicamente de um divórcio. Deus disse e o fez. Em Jeremias 2, Deus lembra a Judá que estava procurando problemas. Israel havia sido levado cativo. Deus disse a Jeremias que prevenisse Judá de que havia testemunhado a infidelidade de sua irmã Israel e que Deus havia despedido e dado carta de divórcio a ela e nem assim se arrependera (Jer. 3:6-8). Houve outras coisas que os homens fizeram com suas esposas. Muitos homens se casavam com mais de uma mulher e não se incomodavam em pensar em divórcio. Alguns foram servos de Deus: Salomão, Davi, Abraão e Esaú, por exemplo. Heróis das revoluções de Deus, mas também produto de suas culturas.

Se eles não se divorciavam, que faria um homem de sua época com sua esposa, quando resolvia casar com outra? 
 
 
Deixava-a de lado? Há uma palavra para isso no Velho Testamento, o termo hebraico shalach. É diferente da palavra hebraica para divórcio que é keriythuwthe que significa literalmente “incisão”, “corte do vínculo matrimonial”. O divórcio legal foi escrito como se pede em Deuteronômio 24 e o novo matrimônio permitido shalaché normalmente traduzido como “repudiada”. As mulheres eram “repudiadas” quando seus maridos se casavam com outras mulheres repudiadas para estarem disponíveis se alguém delas necessitassem ou as quisessem. Repudiadas para serem daí simples propriedades como escravas ou repudiadas em total isolamento. Aquele foi um tempo cruel para a mulher. Elas eram repudiadas para favorecimento a outra mulher, mas não lhes era dada carta de divórcio e conseqüentemente tampouco tinham o direito de se casar novamente. Esta palavra descreve uma tradição cruel e comum, mas contrária à lei judaica.

Algumas das injustiças e do terror experimentado por mulheres que foram “repudiadas” podem ser vistas nesta palavra hebraica shalach descrita no Langenscheid Pocket Hebrew Dictionary (McGraw-Hill1969) que assim expõe:

A fé cristã tomou raízes e floresceu numa atmosfera quase totalmente pagã onde a crueldade e a imoralidade sexual eram tomadas como presentes e direitos e onde a escravidão e a inferioridade da mulher eram quase universais, enquanto que a superstição e as religiões rivais com toda classe de falsas reivindicações existiam em todo o mundo.

Deus não gostava que “fossem repudiadas”. O profeta Malaquias com seu coração quebrantado instou com o povo de Deus para deixar essa prática. Ouçam Malaquias a implorar com eles. A palavra traduzida por “repudiando” em Mal. 2:16 não é a palavra hebraica para “divórcio”que é shalach (repudiar): “E direis: Por que? Porque Jeová tem testificado entre ti e a mulher da tua juventude contra a qual tens sido desleal sendo ela tua companheira e a mulher do teu pacto. Não os fez um havendo abundância de espírito? E por que um? Porque buscava uma descendência para Deus. Guardai pois, em vossos espíritos e não sejais desleais”.

Mas Jesus veio e Suas palavras não negaram Suas ações. Ele falou disso quando declarou: “Todo o que repudiar sua mulher e se casar com outra adultera e o que se casa com a repudiada adultera” (Luc. 16:18). Todo o que assim fizer comete adultério! Esta prática era cruel e adúltera, mas não era o divórcio.

O termo do Novo Testamento traduzido na versão King James como “repudiar” é uma forma da palavra grega apoluo. Este é o termo em grego, língua do Novo Testamento, semelhante ao hebraico shalach (deixarou repudiar). Existe uma palavra hebraica no Velho Testamento para divórcio keriythuwthe uma palavra grega do Novo Testamento apostasion. O Arnd’t Gingrich Lexicondo Novo Testamento cita o uso da palavra apostasion como termo técnico de uma carta ou escritura de divórcio que remonta a 258 AC. Apoluo termo grego com o sentido de “deixar de lado” ou “repudiar” não significa tecnicamente divórcio, apesar de amiúde ser usada sinonimamente. Naquela era de total domínio masculino, os homens geralmente tomavam outras esposas e não davam carta de divórcio quando as abandonavam e casavam-se com outras. A lei judaica que requeria carta de divórcio (Deut. 24:12) era por demais ignorada. Se um homem se casasse com outra mulher, o que importava? Se um homem “repudiava” (apoluo) sua esposa e não se incomodava em dar-lhe carta de divórcio, quem iria se opor? A mulher?

Jesus tinha algumas objeções a isso. Ele disse: “É mais fácil que passem os céus e a Terra do que não cumprir-se um til da lei” (Luc. 16:17). E disse mais: “Todo aquele que repudia a sua mulher e se casa com outra, adultera e aquele que se casa com a mulher repudiada, adultera” (Luc. 16:18).

A diferença entre “repudiar” e “divorciar” entre o grego apoluo e apostasion, é séria. Apoluo indicava que a mulher era escrava repudiada sem direitos, sem recursos, desprovida do direito básico do matrimônio monogâmico. Apostasion significava que o casamento havia terminado, o que permitia um matrimônio legal subsequente. No papel existe a diferença. E a mulher que havia saído de casa podia ir-se e casar com outro homem (Deut. 24:2). Essa era a lei. Como começamos a ler “todo aquele que se divorcia de sua mulher” nos lugares onde Jesus literalmente disse: “todo aquele que repudia ou abandona a sua mulher?"  Existem outras passagensalém de Lucas 16:18 em que Jesus tratou deste assunto. Tais passagens incluem Mateus 19:9, Marcos 10:10-12 (onde é dito que Jesus deixou firmada a mesma lei para homens e mulheres) e em Mateus 5:32. Jesus empregou uma forma da palavra apoluo 11 vezes, e em todas elas, proibiu o apoluo--repúdio. Ele nunca proibiu o apostasion, carta de divórcio, requerida pela lei judaica.

Deveria a palavra grega apoluo traduzir-se como divórcio? Kenneth S. Wuestna, na sua tradução ampliada do Novo Testamento, sempre traduziu “repudiada” ou “deixada”, mas nunca “divorciada”. A versão antiga e literal da American Standard Version (em inglês) sempre traduziu como “deixar”. A versão King James traduz “deixar” e Jesus a emprega umas onze vezes. O número onze parece ser a fonte do problema. Em 1611 os tradutores da King James num trecho grafaram “divorciada” em lugar de “repudiada” ou “posta de lado”ou “deixada”. Em Mateus 5:32 escreveram “e todo aquele que se casar com uma mulher divorciada comete adultério”. A palavra não é o termo grego apostasion (divórcio), mas uma forma da mesma palavra grega apoluo a qual não inclui a carta de divórcio para a mulher. Ela, tecnicamente, ainda estaria casada.

Mateus 19:3-10 fala que os fariseus perguntaram a Jesus sobre este assunto dizendo: “Assim que não sendo dois, mas uma só carne, portanto o que Deus uniu, não o separe o homem” (vs. 6).

divórcio+separação_conjugal+desquite+descasar
Eles então perguntaram: “Por que Moisés ordenou que se desse uma carta de divórcio (apostasion) ao repudiar a mulher?” (vs. 7). Jesus replicou: “Por causa da dureza dos vossos corações” (vs. 8). O primeiro direito humano básico que Deus nos concedeu foi o de nos casarmos. Nenhuma outra companhia era adequada. Os direitos humanos estavam dirigidos só para os homens nesses dias. Jesus mudou isso. Ele requereu obediência à lei e direitos iguais no matriônio para a mulher. A graça superabunda em Cristo.
Jesus disse àqueles homens que, quem repudiasse a sua esposa e se casasse com outra, cometia adultério! ADULTÉRIO!!! A lei (Deut. 22:22) se refere à pena de morte como castigo para o adultério, tanto para o homem quanto para a mulher. Esse era um fato amargo para os homens que faziam com suas mulheres o que bem queriam. Mat. 19:10 nos dá a saber o seguinte: "Se é essa a condição do homem com sua mulher, não convém casar-se". Eles não viviam numa cultura em que se esperava que o homem vivesse com uma só mulher pela vida toda, que direitos iguais fossem dados caso o casamento não perdurasse.

Como começamos a ler “a todo aquele que se divorcie de sua mulher” naquelas citações em que Jesus diz literalmente: “a todo aquele que abandone ou repudie a sua mulher?”

Parece que o lugar onde constava 'apoluo' foi traduzido erroneamente por “divórcio” e em 1611 começou todo o processo. A Versão Americana Stardard corrigiu o erro em 1901. Não chegou a ser suficientemente popular para fazer muita diferença. Wuest foi cuidadoso em evitar citações erradas como temos notado acima. Mas quase tudo o que tem saído do prelo tem sido influenciado pela Versão Bíblica King James, e ainda os léxicos gregos e tradutores mais modernos parecem ter-se deixado influenciar pela ocorrência da tradução de apoluo como “divórcio, ainda quando o significado da palavra não inclui um divórcio escrito (apostasion). Isso, por tradição, nos é ensinado a ter em mente, ainda que nossos olhos leiam “repudiar” na Versão King James. Seria o divórcio escrito a solução para a prática cruel de “repudiar’, como indica Deuteronômio? O Capítulo 24 de Deuteronômio é uma evidência de que tal como Deus atentou às queixas do povo no Egito e propiciou liberdade de sua escravidão, Ele também considerou as súplicas das mulheres que eram como escravas, dando-lhes liberdade do abuso por meio da trágica necessidade do divórcio, trágica porque termina com algo que nunca deve terminar - o matrimônio; necessário para proteger as vítimas daqueles que não obedecem as regras do nosso Criador, o Todo-Poderoso. Necessária originalmente porque o homem “repudiou” a mulher, colocando-a entre matrimônios ilegais, múltiplos e adúlteros.

O Divórcio é uma Tragédia!
 
O divórcio é um privilégio concedido como um corretivo para situações intoleráveis. É um privilégio que, contudo, pode ser abusado. Divórcio não é um quadro bonito na maioria dos casos. Solidão, rejeição, um sentimento profundo de haver falhado, perda da auto-estima, crítica de familiares, dificuldades para cuidar dos filhos e muitos outros problemas que defrontam os divorciados.

O divórcio poder ser mais traumático do que a morte de um cônjuge. A morte de um esposo(a) é dura de suportar, mas um cônjuge morto não volta novamente. Como via de regra, o divorciado volta, e assim se prolonga a situação. O divórcio é, porém, ainda como ao tempo de Jesus, uma solução parcial para uma situação séria e cruel, e pode ser a única solução razoável. Pode ser necessária, mas sempre é uma tragédia! É fácil pregar contra o divórcio, mas é difícil para a igreja ser construtiva em propiciar preparo para o matrimônio. Devemos estar prontos para prevenir alguns divórcios, ajustando nossas leis de divórcio ou proibições religiosas contra o divórcio, pois tais ações não impedem o rompimento dos casamentos. Quando os pares permanecem juntos só pela preocupação com a notoriedade atraída pelas leis do divórcio, e pela “segurança dos filhos”, isto pode resultar em tragédia. Desastrosos triângulos matrimoniais, crueldade doméstica, abuso de crianças, homicídio e suicídio são algumas das conseqüências comprovadas de matrimônios falidos, mas não terminados.
Que opção mais tenebrosa! Um lar destruído é uma tragédia, mas nunca duvide de um homem jovem que ponha uma pistola na boca e termine seu matrimônio, a alternativa que encontrou para o divórcio. Sua igreja havia proibido o divórcio.
Nosso alto índice de divórcios não é o problema real. O fracasso nos matrimônios vem primeiro, e logo depois o divórcio. O índice de divórcios é somente um indício de nosso elevado índice de maus matrimônios. Para corrigir isso, devemos fazer mais do que falar contra o divórcio. Parece difícil para a igreja ser construtiva em prover preparação para o matrimônio e reforçá-lo. Nisto é que se acha nosso desafio! Pode uma pessoa divorciada ser ordenada como diácono ou pastor?

O apóstolo Paulo, um homem culto, conhecia a palavra grega para o divórcio (apostasion) e conhecia sua cultura. Ele também sabia que Cristo aceitaria qualquer um, mesmo ele, o “maior pecador” (I Tim. 1:15). É inadmissível que pastores e diáconos tenham muitas esposas, esposas escravas e concubinas. Cada uma dessas relações, que tinham o bonito título de poligamia, era adultério. Paulo rejeitava tais pessoas como líderes na igreja. O pedido da carta de divórcio em Deuteronômio 24 limitou o homem a uma só mulher e, além disso, é necessário que o ministro seja “irrepreensível, marido de uma só mulher, sóbrio, prudente, honrado, hospedeiro, apto para ensinar”. Ele rejeita a poligamia, não o divórcio.

Apesar do sério abuso, a lei do divórcio (Deut. 24) ainda tem validade. O divórcio é uma solução radical a problemas matrimoniais insuperáveis. Isto acaba com todas as esperanças de que o matrimônio deva ser conservado, e declara publicamente que está falido. O pecado relativo a essa falência deve ser confessado. “Se confessarmos os nossos pecadosEle é fiel e justo para nos perdoar e purificar-nos de toda maldade” (I João 1:9). Isto também inclui o perdão para a falência do matrimônio.

Ao contrário do repúdio, a carta de divórcio, que provém da lei, provê um benefício de dignidade humana para mulheres sujeitas ao abuso cruel, poligamia adúltera, e os caprichos dos homens de coração duro. Não existe algo de tão grande impacto como “desejo divorciar-me de você”, não é verdade? O divórcio declara o término legal do casamento, e havendo qualquer situação de adultério ou bigamia, qualquer das partes pode voltar a se casar. O divórcio rompeu a aliança matrimonial e todo o controle sobre a esposa anterior. O divórcio requeria estrita monogamia e prevenia contra o término unilateral, preservando o direito fundamental de casar-se. O divórcio faz o mesmo hoje em dia. Abandono, negligência, deserção, ou como se queira chamar ao coração duro que deixa sua mulher por outra mulher, sem divorciar-se, foram então proibidos pelo Senhor Jesus Cristo (Mat. 19:9, Mat. 5:32, Mar. 10:1112, Luc. 16:18).


Por séculos, muitas das comunidades cristãs tem interpretado estes ensinamentos de Jesus como:
1. O divórcio está absolutamente proibido, ou melhor, está permitido somente no caso em que se admita ou comprove adultério.
2. À pessoa divorciada, não se permite casar novamente.
3. Uma pessoa divorciada que se case novamente, vive em adultério.
4. Uma pessoa que se divorcia não pode ser ordenada como diácono ou pastor.

Todas as pessoas que possuem estas crenças estão erradas. As três primeiras são contrárias à lei de Moisés e baseiam-se na passagem em que Jesus nem sequer usou a palavra grega apostasion, a quarta baseia-se numa passagem em que Paulo também não empregou tal palavra. A palavra que Jesus empregou foi apoluo, para “repudiar”. Este era o problema do qual tratava, não o divórcio.

Uma pessoa divorciada deve ter muita graça e determinação para servir numa igreja que adota as quatro posições acima mencionadas. Como pode ser possível isto, quando a igreja é o Corpo de Cristo na Terra, para ser e servir como a pessoa de Cristo? Cristo, que uma vez levantou a voz por Jerusalém, deve olhar para baixo e levantar a voz por nós. Ele veio e chamou a Simão, o zelote, um radical anti-romano, e Mateus, um servo rejeitado em Roma, um par de incompatibilidades tais como se pode encontrar hoje, mas os pôs para trabalharem juntos na construção de Seu Reino. Logo, eles foram para Samaria, e Jesus mostrou-Se diante de uma mulher de antecedentes de fracassos matrimoniais, e a enviou para compartilhar da revelação de Deus em Cristo, como se ela fosse como qualquer outra pessoa. Ele deve levantar a voz quando nos vê desperdiçar tempo tratando de calcular quem podemos proibir de servir em Sua igreja.

Jesus abertamente ministrava a todos que a Ele iam. Ainda muitos de nossos amigos divorciados tem medo de nossas igrejas. Entendem que o que ensinamos acerca do divórcio é o que a Bíblia indica. Podemos estar corretos em relação a nós mesmos e tão opostos a Cristo? Se assim for, estamos equivocados. Ele veio para salvar os pecadores.

As únicas pessoas que Jesus sempre rejeitou foram os que queriam justificar-se a si mesmas, os religiosos “justos”. Está correta nossa compreensão de suas palavras simplesmente porque não se harmoniza com a sua vida? As pessoas divorciadas são merecedoras de verdadeiro respeito! Por séculos tem-se excluído essa gente das congregações e do serviço, do gozo e da igualdade, até mesmo da salvação, seres humanos pelos quais Cristo morreu. Se é ou não o divórcio um pecado, esta atitude preconceituosa sem dúvida o será! Conceda-nos o Senhor Sua graça para mediar a misericórdia de Cristo para os divorciados.

(This article appeared in the May/June 1986 edition of Your Church. Walter L. Callison is a Baptist minister from Iowa City, IA. He is a graduate of Park College and the Midwestern Baptist Theology Seminary. He served previously as director of missions for the Bethel Baptist Association.)