Martinho Lutero (e os outros reformadores
protestantes do século XVI) causou uma transformação imensurável à
igreja ao exigir reforma. Eles declararam que a teologia da igreja na
Europa Ocidental era um desvio do ensinamento bíblico apostólico. O
chamado de mobilização dos reformadores foi sola Scriptura, que
significava que somente a Bíblia era a autoridade sobre eles, em
contraste com o papa, os concílios eclesiásticos ou a tradição. Ao
chamarem a igreja para viver tendo somente a Bíblia como autoridade
sobre ela, os reformadores não tentaram transformar sua escatologia.
A negligência em aplicar os princípios de sola Scriptura a
toda a Escritura resultou em muitos cristãos negando uma interpretação
plena e literal da Bíblia. Por exemplo, as porções históricas da Bíblia
são consideradas alegóricas, e as seções proféticas das Escrituras
sofrem um destino ainda pior.
A negligência em aplicar os princípios de sola Scriptura a toda a Escritura resultou em muitos cristãos negando uma interpretação plena e literal da Bíblia.
A Reforma (1500-1650) foi uma revolução teológica e a interpretação
bíblica também testemunhou uma transformação por causa da revolução
teológica. Ramm escreveu: “Embora os historiadores admitam que o
Ocidente estivesse maduro para a Reforma devido às várias forças em
atuação na cultura europeia, houve uma Reforma hermenêutica que
precedeu a Reforma eclesiástica”.[1] Zuck explicou as forças em atuação
como “a abordagem literal da Escola de Antioquia e dos vitorinos”.[2] O
legado do escolasticismo também foi um fator que contribuiu para a
Reforma, uma vez que as línguas bíblicas foram reavivadas durante aquele
período. Homens como Lutero e Calvino retornaram ao texto bíblico e à
atratividade natural da interpretação mais cientifica e literal das
Escrituras.
A importância que Lutero dava à interpretação literal também
significou uma ênfase sobre as línguas originais. Rejeitando alegorias,
Lutero enfatizava o sensus literalis. Ele afirmou: “Não
conseguiremos preservar por muito tempo o evangelho sem as línguas. As
línguas são a bainha na qual esta espada do Espírito está contida”.[3]
Não obstante, uma pessoa deve ser mais do que um filólogo, um
historiador, ou mesmo um teólogo; o Espírito Santo deve iluminar a mente
do intérprete. “Lutero exigia uma leitura ‘simples’ ou ‘literal’ das
Escrituras, que não se baseava nem em distinções filosóficas nem em
distinções complicadas, argumentações teológicas formalizadas de
objeções e respostas”.[4]
Os escritos de Lutero estavam repletos de escatologia, mas ele não
foi um revolucionário (diferentemente de alguns dos anabatistas do
século XVI). Ele interpretava os acontecimentos do seu tempo como
profecias sendo cumpridas. Assim, eventos da época, tais como as
chamadas aparições de 1529, a onda de calor subsequente ao eclipse solar
de 1540, a disseminação da sífilis e a mudança do nível da água de uma
das hidrovias comerciais da Europa central foram interpretados como
sinais do retorno de Cristo.[5] O papado era considerado o Anticristo e
os turcos foram tidos como os servos do Anticristo.[6] A identificação
que Lutero fez do Anticristo significava que “os últimos dias estão às
portas” e o fim da história está próximo. Lutero via seu tempo presente
como o da grande tribulação, que teria seu clímax, sem demora, através
do retorno de Jesus Cristo.[7] Às vezes ele espiritualizava o milênio,
enquanto que em outras ocasiões Lutero afirmava que o milênio já havia
passado. Lutero não estabeleceu datas para o final dos tempos, e na
maior parte do tempo ele cria estar em algum lugar entre o milênio e o
final da era.[8] João Calvino também acreditava que o papado fosse
equivalente ao Anticristo.[9]
Como a escatologia não era uma questão de importância maior durante a Reforma, os reformadores não tiveram a oportunidade de aplicar sua hermenêutica consistentemente; todavia, quando a aplicaram, esse fato levou ao reavivamento do pré-milenismo.
Lutero não desenvolveu suas visões escatológicas sistematicamente
porque a sua ênfase estava nas questões soteriológicas; desta forma, ele
pôde manter a perspectiva amilenar (agostiniana) do catolicismo romano.
Os reformadores abandonaram o método alegórico de interpretação
(característico do catolicismo) em todas as áreas, exceto na
escatologia. O amilenismo é o ponto de vista profético da Igreja
Católica, e foi também o ponto de vista profético dos grandes
reformadores. O motivo pelo qual os reformadores retiveram o amilenismo
do catolicismo foi a época em que viveram. Eles abraçaram, sim, uma
interpretação gramático-histórica das Escrituras relativamente à
soteriologia e à eclesiologia. Como a escatologia não era uma questão de
maior importância, os reformadores não tiveram a oportunidade de
aplicar sua hermenêutica consistentemente.
No final dos anos 1500 e início dos anos 1600, os intérpretes
pré-milenistas começaram a prosperar em consequência da interpretação
bíblica durante o período final da Reforma. Durante o século XIX, a
Revolução Francesa e as ações de Napoleão angustiaram os cristãos, o que
fez com que alguns temessem que o imperador pudesse ser o Anticristo;
desta forma, desenvolveu-se um interesse renovado pela profecia bíblica.
Por exemplo, Lady (Theodosia) Powerscourt realizou uma dentre muitas
reuniões que buscavam tratar das preocupações proféticas. John Nelson
Darby (1800-1882) foi convidado para as Conferências de Powerscourt de
1831 a 1833, que tiveram uma influência duradoura sobre ele. A transição
daquela época da igreja para o reino milenar, no qual Israel tinha
proeminência sob o governo de Cristo, era entendida através da
interpretação da septuagésima semana de Daniel 9 como sendo futura.
Baseado em uma crença resoluta em uma interpretação literal das
Escrituras, ele desenvolveu um desenho preciso para os acontecimentos
escatológicos. Darby acreditava em uma distinção entre Israel e a igreja
que se estendia pela eternidade. Ele também ensinava que as
dispensações são economias de Deus e que a era da igreja é um parêntese.
Darby começou primeiro a articular suas visões sobre um arrebatamento
pré-tribulação e a desenvolver seu pensamento dispensacionalista durante
sua convalescença (dezembro de 1826 a janeiro de 1827). Em 1833, ele
desenvolveu uma sistematização completa de escatologia, ou daquilo que é
conhecido como dispensacionalismo pré-milenista.
Embora o dispensacionalismo não tenha sido sistematizado como
doutrina até os anos 1800, com John Nelson Darby, houve indivíduos em
toda a história da igreja que afirmavam um sistema dispensacionalista de
uma certa variedade. Dois dos primeiros proponentes do
dispensacionalismo incluem o batista James R. Graves (1820-1893) e o
presbiteriano James H. Brookes (1830-1897). O dispensacionalismo foi
comunicado amplamente por meio de conferências bíblicas tais como a
Conferência Bíblica de Chicago (1878-1909), e por meio de numerosas
publicações. Uma faculdade de teologia ou um instituto bíblico de
pós-graduação que articulava os ensinamentos do dispensacionalismo podia
ser encontrado em quase que todas as principais regiões metropolitanas
dos Estados Unidos. Inicialmente, o dispensacionalismo foi ensinado
entre os batistas, as igrejas bíblicas e as igrejas independentes, além
de um número significativo de congregações presbiterianas. Muitas das
denominações pentecostais, tais como as Assembleias de Deus e a Igreja
do Evangelho Quadrangular, adotaram o dispensacionalismo, e este foi
também dominante em meio ao movimento carismático durante os anos
1960-1970. Embora o dispensacionalismo ainda seja amplamente ensinado
entre os evangélicos e os fundamentalistas, sua influência começou a se
dissipar dentro da academia primeiramente nos anos 1950-1960. O ensino
dispensacionalista também declinou nos anos 1980, à medida que mais
carismáticos, evangélicos e pentecostais se tornaram preocupados com
questões sociais.
Aspectos não desenvolvidos da teologia dispensacionalista podem ser
identificados anteriormente ao século XIX, especialmente em meio à
igreja primitiva e muitos séculos antes de Darby. O dispensacionalismo
clássico (em torno dos anos 1878-1940) é um termo que denota a teologia
dos dispensacionalistas – tanto nos Estados Unidos quanto no Reino Unido
– entre os escritos de Darby e os de Lewis Sperry Chafer (especialmente
os vários volumes denominados Teologia Sistemática, escritos por este último). As notas interpretativas dentro da Bíblia de Estudo Scofield são representativas do dispensacionalismo clássico.
Um aspecto significativo do dispensacionalismo clássico foi a noção
dualística da redenção, relativamente a propósitos celestiais e
terrenos. O dispensacionalismo revisado (modificado) (em torno de
1950-1970) é uma designação adotada a partir da revisão de 1967 da Bíblia de Estudo Scofield.
Dispensacionalistas revisados rejeitaram a distinção dualista eterna
entre os povos terrenos e os celestiais, com ênfase, em vez disso, nos
dois povos de Deus (Israel e a igreja), cada um com diferentes
responsabilidades no que se refere à dispensação, porém ambos
eternamente salvos da mesma maneira. Outra ênfase importante foi a
rejeição de duas novas alianças, uma para o Israel nacional (Jr
31.31-34; Hb 8.7-12) e uma para a igreja (Lc 22.20). O
dispensacionalismo progressivo (desde os anos 1980 até o momento
presente) denota um desenvolvimento recente que é considerado como
anormal ao dispensacionalismo clássico (tradicional), particularmente
uma vez que esses dispensacionalistas também afirmam um aspecto de “já,
ainda não” ao reino davídico de Jesus Cristo, que significa que o
reinado do Senhor “já” foi inaugurado (uma vez que ele reina sobre o
trono de Davi nos céus), embora o cumprimento completo do reino de Davi
seja “ainda não”, uma vez que aguarda o futuro reino milenar; portanto, o
trono do Pai e o trono de Davi são sinônimos.
Por toda a história do dispensacionalismo, tem havido um
desenvolvimento sistemático desde os tempos de Darby. Os
dispensacionalistas modernos continuam a desenvolver e a refinar o
dispensacionalismo; entretanto, o dispensacionalismo progressivo
permanece controvertido por introduzir mudanças fundamentais ao
dispensacionalismo, à medida que os dispensacionalistas progressivos são
vistos como tendo se separado do refinamento das visões dos
dispensacionalistas anteriores e introduzindo uma revisão drástica. No
início do século XX, o dispensacionalismo se tornou o mais popular
sistema evangélico de teologia.
Conclusão
Os reformadores suportaram tão incrível perseguição por parte da
Igreja Católica que foi natural que espiritualizassem as Escrituras e
entendessem que o papa era o Anticristo (é, portanto, compreensível por
que os reformadores desenvolveram suas conclusões!). Os reformadores
abandonaram o método alegórico de interpretação (característico do
catolicismo romano) em todas as áreas, exceto na escatologia. O
amilenismo é o ponto de vista profético da Igreja Católica, e um milênio
não literal foi também o ponto de vista profético dos reformadores
protestantes. O motivo pelo qual muitos dos reformadores mantiveram o
amilenismo do catolicismo foi a época em que eles viveram. Eles
abraçaram, sim, uma interpretação gramático-histórica das Escrituras
relativamente à soteriologia e à eclesiologia. Como a escatologia não
era uma questão de importância maior durante a Reforma, os reformadores
não tiveram a oportunidade de aplicar sua hermenêutica consistentemente;
todavia, quando a aplicaram, esse fato levou ao reavivamento do
pré-milenismo (que originalmente era apoiado extensivamente pela igreja
primitiva). À medida que a igreja celebra o quingentésimo aniversário da
Reforma, os crentes podem ser gratos pelo reavivamento que sobreveio em
reafirmar o evangelho da graça por meio da fé somente em Cristo, e como
a revitalização interpretativa levou à renovação do antigo
pré-milenismo.
Notas
- Bernard Ramm, Protestant Biblical Interpretation: A Textbook of Hermeneutics, 3rd rev. ed. (1970; reimpresso, Grand Rapids: Baker, 1997) 51-52.
- Roy B. Zuck, Basic Bible Interpretation (Colorado Springs: Victor, 1991) 44.
- Theodore G. Tappert, ed. e trad., Luther’s Works, ed. geral Helmut T. Lehmann (Filadélfia: Fortress Press, 1967) 4:114-115.
- Marit Trelstad, “Scholasticism as Theological Method,” em Encyclopedia of Martin Luther and the Reformation, 2 vols., ed. Mark A. Lamport (Lanham, MD: Rowman & Littlefield, 2017) 2:694.
- Luther’s Works, 54:134.
- Ibid. 54:346.
- Ibid. 54:134.
- Richard G. Kyle, The Last Days Are Here Again (Grand Rapids: Baker, 1998) 61; Gordon H. Johnston, “Reformation Hermeneutics,” em Dictionary of Premillennial Theology, ed. geral Mal Couch (Grand Rapids: Kregel, 1996) 164.
- John Calvin, Commentary on First John [online] (Christian Classics Ethereal Library, acessado no dia 29 de junho de 2017) disponível em
- http://www.ccel.org/c/calvin/comment3/comm_vol45/htm/ v.iii.vi.htm.
https://www.chamada.com.br/mensagens/a_reforma_protestante_e_o_pre_milenismo.html
Nenhum comentário:
Postar um comentário