Papiro,
pergaminho, papel, fita de vídeo, CD, DVD, Blu-ray – muito tempo depois
que esses materiais tenham virado pó, a primeira mídia de gravação, a
tabuleta de argila cuneiforme da antiga Mesopotâmia,
ainda durará. |
Por volta dos anos 1900 foi descoberta a biblioteca do imperador assírio Assurbanípal (668-627 a.C.) na antiga cidade de Nínive. Tábuas de argila contaram os segredos dos habitantes da Mesopotâmia no seu dia a dia, suas histórias e também suas lendas.
“Levantou Noé um altar ao
Senhor, e, tomando de animais limpos e de aves limpas, ofereceu
holocaustos sobre o altar”.(GENESIS, cap 9
, ver 20).
Enlil, furioso com Ea por ter
permitido que um humano sobrevivesse e conhecendo o segredo dos deuses,
viu-se sem alternativa que não a de transformar Utnapishtim em um
imortal, para que sua maldição de que nenhum mortal sobrevivesse se
completasse.
Gilgamesh desapontado por não ter tido sucesso em busca da imortalidade, prepara seu retorno para Uruk, mas é abordado pela esposa de Utnapishtim que, compadecida com o fracasso do herói, revela-lhe o segredo da imortalidade em que, nas profundezas do mar, havia uma planta maravilhosa, e quem a comesse, seria eternamente jovem. O herói então mergulha no mar profundo, ferindo-se, mas obtendo a tão desejado segredo.
Tomado de rara compaixão,
Gilgamesh decide não comer sozinho o maravilhoso fruto, mas sim
dividi-lo com os anciãos da cidade de Uruk. No retorno para casa,
Gilgamesh é surpreendido por uma serpente marinha que lhe rouba a flor,
perdendo para sempre o segredo da imortalidade:
“Se conseguires pegá-la (a
planta sagrada), terás então em teu poder aquilo que restaura ao homem
sua juventude perdida. (…) Vem ver esta maravilhosa planta. Suas
virtudes podem devolver ao homem toda a sua força perdida. (...) mas nas
profundezas do poço havia uma serpente, e a serpente sentiu o doce
cheiro que emanava da flor. Ela saiu da água e a arrebatou”. (SANDARS,
1992, p. 160).
Apesar dos fins da ação de comer
o fruto sejam diferentes (a morte e a imortalidade), podemos fazer uma
analogia da função da serpente em roubar a imortalidade do homem: sendo
tirando-lhe a oportunidade da vida eterna pela sua obtenção, como na
Epopéia de Gilgamesh; sendo condenando-lhe a morte pela cessão do fruto
ao homem, como no livro do Gênesis. Gilgamesh então ficou desolado e
abatido, pois além de fracassar em sua missão, perdera para sempre o
irmão Enkidu, restando-lhe apenas, melancolicamente esperar o dia de sua
morte chegar.
No livro do Gênesis, não encontramos somente semelhanças com a Epopéia de Gilgamesh, mas com outros textos antigos, como o sumeriano Mito de Dilmum onde o deus Enki, o senhor das águas profundas e do abismo que suporta a terra; e Nintu, a virgem pura, deusa que presidia aos partos; habitavam sozinhos num mundo cheio de delícias sem que nada existisse além do par divino, caracterizando uma descrição muito semelhante do que seria e onde seria o jardim Éden:
“E plantou o Senhor Deus um
jardim no Éden, da banda do Oriente, e pôs nele o homem que havia
formado. (...) E saía um rio do Éden para regar o jardim, e dali se
dividia, repartindo-se em quatro braços. (...) O nome do terceiro rio é
Tigre; é o que corre pelo oriente da Assíria. E o quarto é o Eufrates”.
(GENESIS, cap. 2, ver. 8-14).
Considerações finais.
É impossível afirmar a
influência direta da Epopéia de Gilgamesh sobre a escrita do livro do
Gênesis, pois tanto um como o outro poderiam ter sido influenciados por
histórias ainda mais antigas e difundidas no Oriente, ao mesmo tempo em
que é inegável que o mundo situado entre o Mediterrâneo e os Montes
Zargos, onde havia intensa circulação de mercadores de diferentes etnias
e religiões variadas, era pequeno demais para descartar qualquer
influência cultural entre eles.
Os hebreus, possivelmente muito antes de seus períodos de cativeiro na Babilônia e Assíria, já tiveram contato com as lendas e mitos sumério-acadianos e que por várias razões, os utilizaram na formulação de suas próprias lendas, o que sugere que seu deus, Jeová, toma por empréstimo características de deuses como Anu, Enlil e Ea, seja criando a terra e o homem, seja julgando-os por seus atos, seja compadecendo-se de seu povo e os protegendo. Acreditamos ser impossível obter conclusões definitivas sobre as influências de um texto sobre o outro, ou principalmente, da formação de um pensamento religioso sem a existência do pensamento antecessor, sem que se faça juízo de valores como é recomendado a um historiador, mas ao se estudar o contexto em que o Gênesis é idealizado e escrito, tomando aqui, palavras de Finkelstein e Silberman, observa-se que "a saga histórica contida na Bíblia (...) não foi uma revelação miraculosa, mas um brilhante produto da imaginação humana”. 10 Notas 1 SANDARS, N. K. A epopéia de Gilgamesh . São Paulo: Martins Fontes, 1992, p. 11-12. 2 Os 5 primeiros livros da Bíblia: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio. 3 GRELOT, P. Homem quem és? São Paulo: Edições Paulinas, 1980, p. 14. 4 CHARTIER, Roger. Textos, impressão, leituras. In: HUNT, Lynn. A nova história cultural . São Paulo: Martins Fontes, 1992. p. 211-238. 5 FINKELSTEIN, Israel; SILBERMAN, Neil Asher. The Bible Unearthed. Archaeology's New Vision of Ancient Israel and the Origin of Its Sacred Texts . New York: The Free Press, 2001, p. 38. 6 TIGAY, Jeffrey. On the evolution of the Gilgamesh epic . Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 1982, p.1. 7 ZILBERMAN, Regina. Nos princípios da epopéia: Gilgamesh. In: BAKOS, Margaret Marchiori; POZZER, Katia Maria Paim. JORNADA DE ESTUDOS DO ORIENTE ANTIGO: LÍNGUAS ESCRITAS E IMAGINÁRIAS, 3., 1997, Porto Alegre. Anais ... trabalho 4. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1998, p. 58. 8 BOUZON, Emanuel. Ensaios babilônicos: sociedade, economia e cultura na Babilônia pré-cristã . Porto Alegre: EDIPUCRS, 1998, p. 126. 9 CHARPIN, Dominique. El mundo de la biblia: Mesopotamia y la biblia . Valencia: EDICEP, 1984, p.
10 FINKELSTEIN; SILBERMAN. The Bible ... 2001. p. 13.
Referências Bibliográficas BÍBLIA, V. T. Gênesis. Português. A bíblia sagrada . Tradução João Ferreira de Almeida. Brasília: Sociedade Bíblica do Brasil, 1969. Cap. 1-9. BÍBLIA, V. T. Gênesis. Português. A bíblia de Jerusalém . Tradução Theodoro Henrique Maurer Jr.. São Paulo: Edições Paulinas, 1985. Cap. 1-9. BOUZON, Emanuel. Ensaios babilônicos: sociedade, economia e cultura na Babilônia pré-cristã . Porto Alegre: EDIPUCRS, 1998. CHARPIN, Dominique. El mundo de la biblia: Mesopotamia y la biblia . Valencia: EDICEP, 1984. CHARTIER, Roger. Textos, impressão, leituras. In: HUNT, Lynn. A nova história cultural . São Paulo: Martins Fontes, 1992. FINKELSTEIN, Israel; SILBERMAN, Neil Asher. The Bible Unearthed. Archaeology's New Vision of Ancient Israel and the Origin of Its Sacred Texts . New York: The Free Press, 2001. GRELOT, P. Homem quem és? São Paulo: Edições Paulinas, 1980. SANDARS, N. K. A epopéia de Gilgamesh . São Paulo: Martins Fontes, 1992. ZILBERMAN, Regina. Nos princípios da epopéia: Gilgamesh. In: BAKOS, Margaret Marchiori; POZZER, Katia Maria Paim. JORNADA DE ESTUDOS DO ORIENTE ANTIGO: LÍNGUAS ESCRITAS E IMAGINÁRIAS, 3., 1997, Porto Alegre. Anais ... trabalho 4. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1998. Referências Eletrônicas http://ira http://www.klepsidra.net/klepsidra23/gilgamesh.htmqipages.com/ CLOUGH, Brenda W. A short discussion of the influence of the Gilgamesh Epic on the bible . Disponível em http://www.sff.net/people/Brenda/gilgam.htm, 1999. Acesso em: 27 jul. 2003. CORREA, Maria Isabelle Palma Gomes. Mitos Cosmogônicos: Suméria e Babilônia . Disponível em http://www.galeon.com/projetochronos/chronosantiga/isabelle/Sum_indx.html, 200-. Acesso em: 18 ago. 2003. LOPES, Fabiano Luis Bueno. Exílio e retorno dos judeus na Babilônia . Disponível em http://www.galeon.com/projetochronos/chronosantiga/fabiano/fab_ind.htm, 200-. Acesso em: 18 ago. 2003. SUBLETT, Kenneth. Epic of Gilgamesh . Disponível em http://www.piney.com, 2003. Acesso em: 27 jul. 2003. http://www.ondehomenssetornamdeuses.com.br/pag08_ur.htm |
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