Wilfred Hahn
Em tempos recentes, “fake news” e
a “mídia falsa” chegaram ao conhecimento do público. Por que
recentemente? Notícias falsas e os chamados “fatos alternativos” foram
reputados como sendo fatores importantes no resultado das eleições
recentes nos Estados Unidos. Um sentido maleável da verdade criou falsas
realidades e uma “cobertura midiática” que serviu às agendas políticas.
Inverdades e propensões foram amplamente aceitas como táticas
políticas, contanto que, logicamente, essas se alinhassem com a causa e
as perspectivas preferidas de tal pessoa.
Como tal, muitos aparentemente chegaram à lamentável conclusão de que
não existe algo como “a verdade” na arena pública do discurso; tampouco
“um relato do fato como ele é”.
Repórteres de notícias e legisladores, portanto, já não podiam ser
confiáveis para transmitir fatos livres de tendências e vernizes. Em vez
disso, a mídia era mais comumente vista como tendo se vendido a
opiniões tendenciosas, número de espectadores e lucros. É claro que os
candidatos políticos de todas as bandeiras também buscavam influência
com tendências e apresentação de informações de um determinado modo,
especialmente um modo favorável. Nesse sentido, as notícias e os
políticos se davam muito bem. De fato, eles realmente precisam um do
outro.
Fake news não é notícia, embora pareça que ela está se
tornando muito mais aceita e difundida atualmente. Mas será que podemos
dizer que estas tendências são novas? O analista Chris Hedges, do Truthdig,
diz que os jornalistas e as empresas midiáticas abandonaram há muito
tempo o relato de notícias. Citando-o diretamente: “A paisagem da mídia
na América é dominada pelas ‘fake news’. Tem sido assim há décadas. Essas fake news não emanam do Kremlin. É uma indústria de bilhões de dólares por ano”.[1]
A Bíblia tem uma outra palavra para “fake news”; é chamada
“mentira”. Como tal, logicamente, as falsas notícias foram originadas há
muito tempo. Elas têm estado circulando de uma forma ou de outra desde o
início dos tempos.
A Bíblia tem uma outra palavra para “fake news”; é chamada “mentira”.
Contudo, vamos nos voltar novamente para os tempos mais recentes. A fake news na
mídia escrita de fato só veio a existir na mesma ocasião em que as
notícias começaram a ser amplamente divulgadas. Isso foi por volta da
época em que Johannes Gutenberg inventou a imprensa, em 1439. Quase que
imediatamente, e desde lá até agora, houve questões sobre ética
jornalística ruim, confusão sobre o que era verdadeiro e o que era falso
e “notícias de aluguel”.
Enquanto a mídia impressa hoje toma muitas formas, a concentração da
propriedade é, contudo, prevalecente na maioria dos canais – não apenas
domesticamente, mas também globalmente.
Atualmente, o negócio da mídia é, globalmente, uma grande indústria, e
a propriedade tem se tornado cada vez mais concentrada nas últimas
décadas. Isto é verdadeiro globalmente bem como domesticamente na
maioria dos países de alta renda.
Por exemplo, considere que 7 companhias, ou menos, controlam mais do
que 50% da mídia impressa dos EUA hoje em dia. De acordo com um
levantamento feito em 2016 pela revista Forbes, 15 bilionários no EUA controlam toda a indústria da mídia. Negociações visando fusões estão em andamento.
Deveras, a ambição e a motivação para o lucro certamente têm um forte
papel, assim como o viés político. Não pode haver dúvida de que as
empresas de mídia mais importantes são devedoras a seus acionistas. Isto
se aplica a todo o modelo de lucro corporativo. Neste sentido, os
negócios de mídia não são mais culpáveis do que qualquer outra
corporação pública. Na verdade, as empresas de mídia falam sem
restrições sobre isso.
Como certa vez falou o chefe da Westinghouse (que, naquela época, era
dono da CBS, a rede de televisão): “Estamos aqui para servir aos
anunciantes. Esta é a nossa razão de ser”.[2] Outros chefes da mídia
estavam em amplo acordo. Rubin Frank (ex-presidente da NBC News) disse:
“Notícia é algo que alguém quer suprimir. Tudo o mais é publicidade”.
Rubin Frank (ex-presidente da NBC News) disse: “Notícia é algo que alguém quer suprimir. Tudo o mais é publicidade”.
À medida que a cultura corporativa chegou à dominação e a competição
entre diferentes mídias foi aquecida, aumentou a pressão para “produzir”
a notícia que as pessoas vão querer ler. Novamente citando Chris
Hedges: “Os jornalistas há muito tempo desistiram de tentar descrever um
mundo objetivo, ou a dar voz a homens e mulheres comuns. Eles se
tornaram condicionados a atender as demandas corporativas”.
De fato, muitos jornalistas trabalham abertamente como escribas para
os poderosos e influentes... remodeladores e fiadores das novas “frases
de efeito” para satisfazer agendas alternativas de talvez lobbies,
indústrias ou mesmo pessoas ricas individuais.
Como resultado de todas as tendências acima mencionadas, George Friedman (o intrépido analista geopolítico e fundador de Geopolitical Futures [Futuros
Geopolíticos]) diz: “A imprensa de prestígio, como costumávamos
chamá-la, esbanjou sua herança vinda de gerações anteriores de
jornalistas e perdeu seu direito de pronunciar a verdade”.[3]
Ao longo do caminho, também observamos que o que é chamado notícia
hoje é geralmente nada mais do que histórias para entretenimento. Grande
parte do conteúdo das notícias populares é trivial – acontecimentos de
Hollywood e novidades da vida dos ricos e famosos. Os profissionais dos
noticiários dos canais de notícias populares tendem a ter aparência e
maquiagem de estrelas e astros de cinema. Mulheres jornalistas são
apresentadas sentadas em banquetas altas e vestidas com saias curtas.
Falatórios sem importância fazem sucesso.
A notícia real, passada, presente e futura, recebe menção restrita,
limitada. Da mesma forma, a notícia internacional equilibrada continua a
desaparecer do domínio público, inclusive durante esses tempos de
atividades antiterroristas estrangeiras. A notícia internacional que
realmente chama a atenção dos canais de mídia em massa ou é superficial
ou é selecionada para entretenimento ou propaganda.
Ilusão é Verdade
A ideia de que a ilusão e as falsidades podem passar por verdades –
até mesmo convencendo uma sociedade inteira a descartar a realidade – é
velha. Foi uma ideia primeiramente promovida no jardim do Éden. “Foi
isto mesmo que Deus disse...?” (Gn 3.1). Satanás promoveu uma mentira
torcendo a verdade.
Todavia, de maneira geral, as pessoas tendem a gostar de acreditar em
mentiras. Por quê? Porque a mensagem das mentiras parecerá agradável às
pessoas. Mesmo sabendo que são mentiras, elas serão aceitas.
De maneira geral, as pessoas tendem a gostar de acreditar em mentiras.
O profeta Zacarias confirma, em suas duas visões registradas em
Zacarias 5, que “mentira e roubo” definirão a essência da sociedade
humana nos últimos dias. Mas como alguém pode realizar a tarefa de fazer
com que todos creiam em mentiras?
Adolf Hitler, mesmo sendo um homem perverso como era, foi um mestre
observador da psique humana. (Assim também é Satanás, o “pai da mentira”
– João 8.44.) Citando Hitler: “Toda propaganda tem que ser popular e
tem que acomodar-se à compreensão dos menos inteligentes dentre aqueles
que ela procura alcançar”. Ele usou esse entendimento para causar
grandes males e celebrou essa vulnerabilidade, dizendo: “Que sorte dos
governantes que os homens não pensam”.
Mas, o que é a propaganda? É qualquer coisa que escolhe manipular a
verdade. No entanto, seus mercados atualmente estão virtualmente em toda
parte, especialmente devido às novas tecnologias: o amplo alcance da
internet, mídia comercial e social (i.e.: Twitter, Facebook, Instagram,
etc.).
O que é popular, ou o que vai ser “viral”, não é necessariamente
verdadeiro e provavelmente não é uma notícia importante. Contudo, essa
“corrente” de blogs, novos sites, postagens no Facebook e no YouTube
(para mencionar apenas alguns dos mais importantes sites sociais)
produzem um tipo de nova realidade compartilhada para as sociedades.
Richard Sennett, em seu livro O Declínio do Homem Público,
faz a observação que uma “personalidade coletiva [é agora] gerada pela
fantasia comum [...] e aqueles que podem manipular e moldar essas
fantasias determinam as direções tomadas pela ‘fantasia coletiva’”.
Endossar (i.e., aceitar como a visão de vida e de mundo de alguém) a
“personalidade coletiva da fantasia comum” é francamente ser enganado,
corrompido e descrente.
Pensamentos para Reflexão
A Bíblia diz que todo aquele que busca conforto nas coisas e
perspectivas terrenas constrói sobre a areia. São as palavras de Cristo
que devemos ouvir e praticar, não as fantasias do mundo (Mt 7.26). Tiago
diz: “Adúlteros, vocês não sabem que a amizade com o mundo é inimizade
com Deus? Quem quer ser amigo do mundo faz-se inimigo de Deus” (Tg 4.4).
Endossar a “personalidade coletiva da fantasia comum” é francamente ser enganado, corrompido e descrente.
Cito o senador John McCain, que, na ocasião estava preocupado com os
possíveis efeitos da contínua concentração da mídia, disse algo que se
alinhava com a capacidade da profecia bíblica (embora ele talvez nem
estivesse consciente disso): “Em algum ponto, você terá muitas vozes – e
um ventríloquo”.
Com a busca comum aos lucros e a contínua concentração da mídia e das
notícias, provavelmente haverá um grupo ainda menor – de fato, talvez
constituído por apenas um indivíduo – que poderá controlar todo o
sistema de mensagens na mídia em algum momento no futuro. Este resultado
pode estar a alguma distância no tempo; ou talvez não.
A Bíblia identifica duas criaturas que podem ser futuros candidatos
para o papel do tal “ventríloquo de um mundo só” – o Anticristo e o
Falso Profeta.
Como as “fake news” têm em sua origem o pai de todas as mentiras, seu reino de iniquidade sobre o mundo tem verdadeiramente prosperado. George
Friedman faz uma ampla observação sobre tal sociedade, que já vemos em
grande escala atualmente: “Portanto, as mentiras florescem, acusações
depreciativas são feitas, e alguns de cada lado ficam livres para crer
no que eles quiserem crer [...]. Censores e
prestação de contas já não existem mais. O Twitter é o lugar onde
pessoas mal-intencionadas, com tempo à mão, podem falar mentiras”.
Como as “fake news” têm em sua origem o pai de todas as mentiras, seu reino de iniquidade sobre o mundo tem verdadeiramente prosperado.
Mas há uma dimensão adicional da fake news que os leitores não devem deixar de saber. Daniel Boorstin, em seu livro The Image: A Guide to Pseudo-Events in America [A
Imagem: Um Guia para Pseudo-Acontecimentos na América], faz alusão à
ela: “Os mesmos avanços que tornaram as imagens possíveis também fizeram
as imagens – embora planejadas, artificiais ou distorcidas – mais
vívidas, mais atraentes, mais impressionantes e mais persuasivas do que a
própria realidade”.[4]
Mais persuasivas? Será que isso é possível? Uma imagem que é mais
persuasiva do que a própria realidade? Isso poderia ser um processo
perigoso, na medida em que o real então não pode mais ser discernido de
uma imagem. A verdade seria inteiramente não discernível para os ímpios
em um mundo desse jeito. Os valores seriam desconectados, desarticulados
dos fatos e da verdade.
Em Apocalipse, lemos a respeito de uma imagem que é evocada para
enganar o mundo todo: “Por causa dos sinais que lhe foi permitido
realizar em nome da primeira besta, ela [a segunda besta] enganou os
habitantes da terra. Ordenou-lhes que fizessem uma imagem em honra à
besta que fora ferida pela espada e contudo revivera. Foi-lhe dado poder
para dar fôlego à imagem da primeira besta, de modo que ela podia falar
e fazer que fossem mortos todos os que se recusassem a adorar a imagem”
(Ap 13.14-15).
Que mensagens sairiam de uma imagem falsa como essa? Não sabemos
exatamente. Entretanto, sabemos que “o próprio Satanás se disfarça de
anjo de luz. Portanto, não é surpresa que os seus servos [tanto humanos
quanto demônios] finjam ser servos da justiça” (2Co 11.14-15). É
possível que o mal seja manipulado para que pareça bem... as mentiras
podem imitar a verdade (Is 5.20).
Já estamos enfrentando hoje essas preocupações e desafios?
2.000 anos atrás, muito tempo antes que existisse a imprensa escrita e
a internet, o apóstolo Paulo já estava preocupado a respeito do engano
do Diabo em torcer a verdade. “O que receio, e quero evitar, é que assim
como a serpente enganou Eva com astúcia, a mente de vocês seja
corrompida e se desvie da sua sincera e pura devoção a Cristo” (2Co
11.3).
Notas
- Chris Hedges. Truthdig. “‘Fake News’ in America: Homegrown, and Far From New” (18 de dezembro de 2016).
- Advertising Age. 3 de fevereiro de 1997.
- George Friedman. Geopolitical Futures. “The Internet and the Tragedy of the Commons” (4 de janeiro de 2017).
- Daniel Boorstin, The Image: A Guide to Pseudo-Events in America.
https://www.chamada.com.br/mensagens/fake_news_e_falso_futuro.html
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