por Dr. Paulo Romeiro
Uma das características de grande parte da Igreja Evangélica
Brasileira é a sua avidez por novidades. Vários segmentos evangélicos
não se contentam mais com a antiga doutrina pregada pelos apóstolos e
pais da Igreja — mais tarde defendida pelos Reformadores — e vivem numa
busca constante de novidades e modismos doutrinários.
Nos últimos
anos, vimos vários ensinos e práticas controvertidos invadirem os
púlpitos e infestarem a mídia evangélica, tais como: quebra de
“maldições hereditárias”, “cura interior”, “confissão positiva”,
“espíritos territoriais”, “mapeamento espiritual”, cultos de
“libertação”, “galacionismo” (a tentativa de levar a Igreja à práticas e
ensinos do Velho Testamento, como a guarda do Sábado e das festas de
Israel), dentre muitos outros.
Uma das últimas novidades a invadir
o arraial evangélico brasileiro chegou da Colômbia. Denominado G 12
(Grupo 12), esse é um movimento que propõe o crescimento das igrejas
através de células, com reuniões nas casas. O principal protagonista do G
12 é César Castellanos Domínguez, líder da Missão Carismática
Internacional, com sede em Bogotá.
Entre 1989 e 1990, sua esposa
Cláudia (com quem se casou em 1976) envolveu-se com a política, sendo
candidata à presidência daquele país, ficando em quinto lugar no número
de votos. Mais tarde, ela conseguiu eleger-se senadora. O casal tem
quatro filhas: Joana, Lorena, Manuela e Sara Ximena.
Castellanos
conta que depois de sua experiência com Cristo e de trabalhar como
evangelista nas ruas de Bogotá, teve a oportunidade de pastorear
pequenas igrejas, durante nove anos de ministério. A última delas só
tinha 30 membros quando ali chegou, alcançando dentro de um ano, o
número de 120 membros. Insatisfeito com os resultados conseguidos nessa
igreja, ele renunciou ao pastorado.
Em fevereiro de 1983, enquanto
passava férias numa praia colombiana, diz ter tido uma experiência com
Deus, que o chamava para pastorear. No mês seguinte, iniciou na sala de
sua casa a Missão Carismática Internacional, com apenas oito pessoas.
Traçou
depois um alvo para atingir o número de 200 membros. O líder colombiano
confessa que foi grandemente influenciado por David (Paul) Yonggi Cho,
da Coréia, que já vinha adotando por várias décadas o sistema de
crescimento de igreja em células (também chamado de grupos familiares).
Atualmente
são muitos milhares que formam a família da igreja na Colômbia. Para o
final de 1997, a meta de Castellanos era ter 30 mil células e 100 mil
grupos. No ano 2000, seu alvo é ter um milhão de membros. Já pensou?
Já
existem no Brasil várias pessoas e ministérios que abraçaram a visão de
César Castellanos. Os que mais se destacam são Valnice Milhomens, muito
conhecida pelos seus programas de TV, e Renê Terra Nova, líder da
Primeira Igreja Batista da Restauração, em Manaus. A exemplo de Valnice,
Renê já pertenceu também à Convenção Batista Brasileira. Valnice
explica sua ligação com a Colômbia:
Tendo a convicção de que o
modelo de Bogotá era a base para o modelo que Deus tem para nós, temos
retornado às convenções para beber da fonte. Cremos que Deus deu ao Pr.
César Castellanos o modelo dos doze que há de revolucionar a igreja do
próximo milênio, pelo que o abraçamos inteiramente, colocando-nos sob
sua cobertura espiritual dentro dessa visão revolucionária, fundada na
Palavra de Deus. Tendo sido ungida como um de seus doze internacionais,
estamos, como igreja, comprometidos em viver essa visão.1
POR QUE G 12?
César Castellanos explica porquê:
Pedi
a direção do Senhor, e Ele prometeu dar-me a capacidade de preparar a
liderança em menos tempo. Pouco depois abriu um véu em minha mente,
dando-me entendimento em algumas áreas das Escrituras, e perguntou-me:
‘Quantas pessoas Jesus treinou?’ Começou desta maneira a mostrar-me o
revolucionário modelo da multiplicação através dos doze. Jesus não
escolheu onze nem treze, mas sim doze.2
Outros exemplos bíblicos
são citados, como as 12 pedras no peitoral do sacerdote (Êx 28.29);
também com 12 pessoas Jesus alimentou as multidões. Para reforçar o
argumento de Castellanos, Valnice acrescenta:
Podemos notar que o
número doze, nas Escrituras, é o número de autoridade e governo… O dia
tem 24 horas, que são dois tempos de doze. Cada ano tem doze meses. O
relógio não pode ser de 11 ou de 13 horas. Deve ser de doze horas, para
que possamos administrar o tempo. Não foi um capricho de Jesus escolher
doze homens. Ele sabia que estava ali a plenitude do ministério. Os
fundamentos requeriam doze apóstolos.3
Penso que não há
necessidade de se criar uma aura mística ao redor do número doze, pois
há outros números na Bíblia que também despertam a atenção. Pense, por
exemplo, no número três. Três é o número da Trindade. Três foram os
presentes que os magos do Oriente ofertaram a Jesus. Três foram os
principais patriarcas: Abraão, Isaque e Jacó. Três foi o número dos
discípulos mais íntimos de Jesus: Pedro, Tiago e João.
O número
sete também é bastante sugestivo. Em sete dias Deus fez o mundo. Durante
sete dias, o povo de Israel marchou em volta da cidade de Jericó, até
conquistá-la. Instruído por Eliseu, Naamã mergulhou sete vezes no rio
Jordão para ser curado de lepra. Sete foi o número dos diáconos
escolhidos pelos apóstolos (Atos 6.5). Sete foram também as igrejas do
Apocalipse. Agora, pense no número 40. Por 40 o povo de Israel
peregrinou no deserto. Moisés esteve no monte durante 40 dias, jejuando e
orando na presença de Deus. Jesus jejuou 40 dias no deserto, por
ocasião de sua tentação.
COMO FUNCIONA O G 12
A
igreja se divide em pequenos grupos denominados células. As pessoas são
evangelizadas através das células, das reuniões na igreja ou de eventos
evangelísticos. Depois de evangelizadas, começa o processo de
consolidação. O novo adepto responderá um questionário chamado
mapeamento espiritual, com uma grande variedade de perguntas sobre o
passado da pessoa e de seus familiares. Algumas perguntas são bastante
constrangedoras. Tal questionário vai dar ao líder da célula ou ao
discipulador uma visão da jornada espiritual do novo discípulo. Em
seguida, ele será levado a participar da célula, passando a construir
novos relacionamentos.
Após esse processo inicial, a pessoa é estimulada (e muito) a passar pelos seguintes estágios:
1. Pré Encontro: Constituído de quatro palestras preparatórias para o encontro de três dias. Nessa fase, o discípulo recebe orientações sobre a Igreja, o senhorio de Cristo, mordomia e batismo.2. Encontro: Um retiro espiritual de três dias, onde a pessoa receberá ministração nas áreas de arrependimento, perdão, quebra de maldições, libertação, cura interior, batismo no Espírito Santo e a visão da igreja. Cerca de 100 pessoas (jovens, mulheres, homens e crianças) são separadas um ou dois meses após a sua entrega na igreja e são levadas a um lugar distante do contexto familiar para serem ministradas. Para César Castellanos, o encontro equivale a todo um ano de assistência fiel à igreja.43. Pós Encontro: Quatro palestras para consolidação das vitórias alcançadas no Encontro.4. Escola de Líderes: Formação em três estágios de três meses cada, para se tornar líder de célula e de grupo de doze.5. Envio: Quando alguém começa uma célula de evangelismo a partir de três pessoas, tornando-se líder de célula. Depois de sua célula consolidada, ele começa a formação do seu grupo de doze para discipulado, tornando-se líder de doze. Consolidado seu grupo de 12, ele estimula a cada um a formar seu grupo de doze. Surge então o líder de 144, e assim por diante.
PRÁTICAS QUE PREOCUPAM
Não
há nada de errado em dividir a igreja em células ou grupos familiares
para reuniões nos lares ou outros locais. Muitas igrejas ao redor do
mundo têm feito isso e até com bons resultados.
Dependendo da
região ou da cultura onde se aplica o processo, pode ser uma boa idéia
ou não. Creio que um dos fatores que muito contribuiu para o crescimento
da Assembléia de Deus no Brasil foi o culto doméstico. Lembro-me de que
quando me converti na Assembléia de Deus de São José dos Campos, SP, em
1971, o culto doméstico era uma parte importante da programação da
igreja. Eu mesmo participei intensamente de tais programações. As
reuniões nos lares eram usadas para a evangelização dos perdidos e para a
edificação dos crentes. Não havia aberrações doutrinárias.
Um dos
problemas em relação ao G 12 é a inserção de práticas, conceitos e
ensinos nada bíblicos, tais como quebra de maldições hereditárias, cura
interior, mapeamento espiritual, escrever os pecados em pedaços de papel
e queimá-los na fogueira, revelações extrabíblicas e outros. No meu
livro Evangélicos em Crise (Editora Mundo Cristão), tratei, de forma
abrangente, de algumas dessas aberrações.
Outra coisa intrigante é
a proibição taxativa de se relatar o que se passa nos encontros.
Conversei com várias pessoas que participaram e elas me falaram que a
única coisa que poderiam dizer do encontro é: “o encontro é tremendo”.
Observe uma das normas do Encontro: “Não se pode mencionar muitas coisas
sobre o Encontro, porque o mesmo trás consigo muitas surpresas e todos
os seus participantes comprometem-se a não revelar absolutamente nada do
que receberam lá”.5
Acho isso realmente muito estranho. Ora,
quando alguém recebe bênçãos de Deus, quando Deus faz uma grande obra
numa pessoa ou no meio de um povo, o mais natural e bíblico é dar
testemunho, é contar o que Deus fez. Tal proibição não tem base bíblica.
Ao contrário. Observe a declaração de Jesus diante do sumo sacerdote:
“Respondeu-lhe Jesus: Eu falei abertamente ao mundo; sempre ensinei nas
sinagogas e no templo, onde todos os judeus se reúnem. Nada disse em
segredo” (João 18.20).
Paulo escreveu a Timóteo: “E as coisas que
me ouviu dizer na presença de muitas testemunhas, confie a homens fiéis
que sejam também capazes de ensinar a outros” (2 Timóteo 2.2). Portanto,
não há por que ficar escondendo informações dos demais. Isso mais
parece “maçonaria evangélica”.
O G 12 assume também uma postura
exclusivista. Ele é apresentado como a única tábua de salvação para a
igreja, o último movimento de Deus na terra, a única solução para a
salvação das almas. É apresentado ainda como a restauração da Igreja
segundo o seu modelo original no livro de Atos dos Apóstolos. David
Kornfield, da Sepal, declarou:
Notamos que Deus está produzindo um
novo mover do Seu Espírito no seio da Igreja brasileira, à medida que
nos aproximamos de um novo milênio. Esse mover do Espírito é tão grande
que algumas pessoas o entendem como uma Segunda Reforma. A primeira
reforma, deflagrada por Martinho Lutero, tinha a ver com a justificação
pela fé e com a salvação individual. A Segunda Reforma celebra e
desenvolve a alegria de sermos salvos a nível coletivo; salvos para,
reciprocamente, vivenciarmos a alegria da vida em Cristo.6
César Castellanos confirma tal exclusivismo ao declarar:
A
frutificação neste milênio será tão incalculável, que a colheita só
poderá ser alcançada por aquelas igrejas que tenham entrado na visão
celular. Não há alternativa: a igreja celular é a igreja do século XXI.7
Nem
certos movimentos e líderes de Deus no passado escapam dos ataques do G
12. Valnice Milhomens denomina a Igreja da época do imperador romano,
Constantino, de “igreja política”, dizendo que Constantino relegou
oficialmente o vinho novo aos odres velhos das catedrais. Sobre a Igreja
Reformada, ela diz que Lutero reformou o vinho (teologia), mas o
derramou novamente nos odres velhos.
Para ela, o movimento de
avivamento procurou reavivar o vinho dentro dos odres velhos. Os
pentecostais e os carismáticos derramaram o vinho do Espírito Santo
dentro dos odres velhos. Quanto a Igreja em Células, sua opinião é de
que Deus está recriando modelos de comunidade de odres novos que
preservem o vinho novo em odres novos.8
Não é a primeira vez que
um surge um grupo ou movimento religioso dizendo ser a única e última
solução de Deus para o mundo. Não vou mencionar aqui as diversas seitas
que já fizeram isso. Mesmo dentro do mundo evangélico, já surgiram
vários grupos agindo da mesma forma. Lembro-me de quando morei nos
Estados Unidos, estava em voga o Shepherding Movement (Movimento do
Pastoreio), que ensinava um forma de discipulado onde cada novo membro
no grupo tinha um líder espiritual, um discipulador, a quem prestava
contas de tudo em sua vida.
As críticas contra as igrejas eram bem
hostis e o movimento também se considerava a última solução de Deus
para o mundo. Mais tarde, muitos de seus líderes reconheceram que
estavam errados e pediram perdão, publicamente, pelos danos provocados a
muita gente.
Lembro-me de que aqui no Brasil, na década de 80,
surgiu um movimento promovido por várias comunidades denominado Novo
Nascimento. Sua ênfase era de que a pessoa, uma vez convertida, não
pecaria mais. E de novo, os testemunhos apresentados nesses movimentos
eram muito parecidos com os de hoje do G 12: “Eu fui membro (ou pastor)
de tal igreja, por tantos anos e não era salvo. Só depois que fiz o G 12
(ou os Encontros) é que recebi a vida eterna”. Ora, isso é negar um
trabalho da graça já realizado anteriormente na vida da pessoa.
VENTOS DE DOUTRINA
O
G 12 tem sido grandemente influenciado por vários líderes da Confissão
Positiva (Teologia da Prosperidade) – entre eles, Kenneth Hagin. Um dos
exemplos é o emprego do termo rhema. Na língua grega, há dois termos
para o vocábulo “palavra”: logos e rhema. Como os pregadores da
Confissão Positiva, vários líderes do G 12 (entre os quais César
Castellanos e Valnice Milhomens) fazem um alarde sobre uma suposta
diferença entre esses dois termos. Rhema, dizem eles, é a palavra que os
crentes usam para decretar ou declarar. É o “abracadabra”. Já logos, é a
palavra de revelação, mística, direta, que Deus fala aos iniciados. O
termo pode referir-se também à Bíblia.
Há alguns anos, conversei
com Dr. Russell Shedd sobre esse assunto e ele me disse que o apóstolo
Pedro não fez distinção entre esses dois termos quando escreveu 1 Pedro
1.23-25. Por favor, veja a seguir:
v. 23: pois fostes regenerados. Não de semente corruptível, mas de incorruptível, mediante a palavra (logos) de Deus, a qual vive e é permanente.v. 24: Pois toda a carne é como a erva, e toda a sua glória como a flor da erva: seca-se a erva, e cai a sua flor;v. 25: a palavra (rhema) do Senhor, porém, permanece eternamente. Ora, esta é a palavra (rhema) que vos foi evangelizada.
O
G 12 deixa muito a desejar no que se refere ao discernimento
doutrinário, pois tem sido grandemente influenciado pelos ensinos
anômalos de Peter Wagner e de outros na área de batalha espiritual.
Peter Wagner é professor da Escola de Missões do Seminário Fuller na
Califórnia, Estados Unidos. Entretanto, seus escritos sobre guerra
espiritual, como também os de Rebeca Brown, são inaceitáveis à luz da
Bíblia.
O G 12 não será o último vento de doutrina a invadir o
arraial evangélico. Seus líderes atuais já abraçaram outros modismos no
passado, e certamente abraçarão outros que virão. Por esta razão,
deixamos aqui um alerta ao povo de Deus: Todo líder, igreja ou
ministério que se abre para um vento de doutrina, um modismo
doutrinário, ou uma aberração teológica, estará sempre aberto para a
próxima onda, quando aquela já arrefeceu. Que Deus nos ajude a
permanecermos constantes, firmes na Rocha!
NOTAS
1 Milhomens, Valnice, Plano Estratégico para Redenção da Nação, Palavra da Fé Produções, São Paulo 1999, p. 12.
2 Castellanos, César, Sonha e Ganharás o Mundo, Palavra da Fé Produções, São Paulo, 1999, p. 78.
3 Milhomens, Valnice, Plano Estratégico para Redenção da Nação, p. 107.
4 Castellanos, César, Sonha e Ganharás o Mundo, p. 91.
5 Apostila de Igrejas em Células, p. 55.
6 Apostila de Igrejas em Células, p. 123.
7 Castellanos, César, Sonha e Ganharás o Mundo, p. 143
8 Milhomens, Valnice, Plano Estratégico para Redenção da Nação, p. 60.
por Dr. Paulo Romeiro
http://www.cacp.org.br/o-movimento-g12/
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