prof. Moisés Bezerril
FÉ E APOLOGÉTICA: UNIDADE OU DUALIDADE?
Quando o movimento pentecostal chegou ao Brasil quase um século atrás, seu discurso era de uma fé que não precisava de bases teológicas ou apologéticas; ridicularizavam os sermões estudados e o estudo da teologia. Enfatizavam o valor da fé acima do conhecimento, como se os dois fossem separados, uma dualidade. Essa perspectiva pentecostal introduziu no mundo uma religião sem cultura, sem bases sólidas, sem razões para a própria fé. A fé pregada por eles era uma fé cega, que ninguém sabe até hoje definí-la.
Quando dou aulas sobre o dilúvio bíblico, percebo um grande desinteresse por parte de alguns alunos, que demonstram se interessar apenas pela fé reformada. Conheço algumas pessoas que acham os temas da criação e do dilúvio importantes para a igreja, mas não fundamental. Ao dar uma palestra em certa igreja sobre criacionismo, um irmão pediu-me a palavra e argumentou que se agente tem fé nas Escrituras, não precisaremos de confirmações ou averiguações científicas dos eventos bíblicos; basta a fé. Segundo esta afirmação, tudo o que um crente precisa em sua vida espiritual é ter fé.
Incrivelmente esse foi o discurso pentecostal que inaugurou um século de ignorância e perversão do evangelho na nossa nação, e acelerou o processo de secularização da nossa sociedade brasileira.
DUALIDADE PERVERSA: FÉ x APOLOGÉTICA
É muito comum pastores e alunos de teologia falarem de fé e apologética como se a fé fosse separada de suas bases racionais.
Dizem que só precisam de fé, e que Deus não precisa de bases racionais para ser provado.
Primeiro, é claro que neste discurso estão falando da fé apenas como fé salvadora (segurança, confiança), mas esquecem que a fé salvadora depende da fé histórica; falar apenas de um aspecto da fé consiste em um reducionismo conceitual. Antes de termos segurança, é preciso compreender que a verdade básica para tal segurança precisa ter veracidade. Isso significa que na ordo salutis (ordem da salvação) a primeira operação do Espírito é convencer o homem da verdade da Palavra de Deus, atribuindo-lhe veracidade.
Segundo, se a fé é baseada em princípios primeiros que são verdadeiros, nossa mente trabalhará sempre com categorias racionais todas as vezes que se invocar a palavra fé. Como a fé salvadora tem conteúdo racional, é possível que ela se alimente de um convencimento racional para se tornar mais forte ou mais fraca. Isso é tão verdade que o alimento pra fortalecer a fé são os sacramentos e as Escrituras.
A apologética tem sido entendido como um elemento separado da fé cristã, mas apologia teológica é exposição da fé; todas as vezes que falamos em apologética estamos falando de fé. Essa é a razão por que profecia é segundo a proporção da fé (Rm 12:6). Toda a teologia é, na verdade, uma exposição da fé cristã, e a vida cristã é uma batalha na defesa dessa fé, (Judas 3).
Se considerarmos o pensamento cristão apostólico concernente a essas coisas, veremos que não podemos falar de fé sem apologética; do contrário estamos falando de uma fé oca, vazia, e cega. Falar de fé sem princípios é falar do nada.
CONFIANÇA EXAGERADA EM TRADUÇÕES, VERSÕES, E PESSOAS
As mentes ingênuas sempre afirmam que não precisamos de apologética; dizem que para ser cristão basta ter fé no que a Bíblia diz. Então eu pergunto: o que a Bíblia diz? A qualquer resposta a esta pergunta eu interrogo: sua tradução está corretamente traduzida? Após a resposta desta pergunta acrescento: quantos pontos divergentes sobre o que você crê há no mundo? Quem está certo? Que princípio você escolheu para estar convencido de que crê numa verdade? O que lhe garante que você não esteja errado?
É evidente que a fé é um conjunto de verdades racionais e explicáveis; fé não é sentimento, é certeza. A certeza não é oca, possui conteúdo. Então, quando falamos de fé estamos falando de conteúdo.
O maior problema das pessoas que fazem tal afirmação é que elas acham que estão de posse de um conjunto de verdades em mãos em que não há nenhuma dúvida, e nenhum debate sobre elas. As mentes ingênuas acham que ainda estamos no tempo dos apóstolos, quando a verdade estava sendo entregue sem nenhuma corrupção, (até mesmo eles tiveram que defender sua fé em seu tempo).
A editora Vida tem um livrinho sobre os dinossauros que diz que não importa se Deus criou o mundo em 6 dias ou em eras geológicas, o que importa é que Deus enviou seu filho para morrer por todos nós, e nos oferecer o caminho da salvação. Até hoje fiquei sem entender o objetivo daquela publicação; para mim não serviu de nada, levando em conta ter sido publicado por uma editora evangélica. Além disso parece que a editora Vida está de acordo que estabelecer a data da criação não é tão importante para os cristãos. Esse ponto de vista já é fruto de uma visão secularizada das Escrituras.
Como podemos falar que a doutrina da criação não é fundamental, se ela é um ponto hoje de divergência nos presbitérios e seminários do mundo inteiro?
Outros dizem que não interessa se o dilúvio foi global ou universal, o que importa é que Cristo morreu por nós.
Como poderíamos achar que a Palavra de Deus só é importante quando trata da fé salvadora e da morte de Cristo? Essas pessoas não se dão conta de que a Bíblia não pode ser verdade em algumas partes e meia verdade em outras. Essas mentes letárgicas foram responsáveis pela expulsão de Deus das escolas, das universidades, da política, da economia, e da sociedade. Essas idéias de que a Bíblia só trata de verdades espirituais constituíram o argumento para o Catolicismo Romano, na pessoa do papa João Paulo II, dar as boas vindas ao evolucionismo, na sua introdução no corpo doutrinário de tal igreja, afirmando total compatibilidade do catolicismo com o evolucionismo de Darwin.
Quando pastores e seminaristas não acham fundamental a visão científica e apologética das doutrinas bíblicas, eles estão confiando demais em traduções bíblicas, ou em pessoas que afirmaram e formularam doutrinas, mas não se dão ao trabalho de averiguar se estão firmados na verdadeira fé; além disso, estão estendendo as mãos ao secularismo, tal como fez o catolicismo romano.
DISCURSO SIMPLÓRIO
A idéia de que a igreja de Cristo só precisa de sermões sobre o pecado é fruto de uma visão simplória das Escrituras.
Se Deus pretendesse que a igreja ouvisse apenas verdades redentivas nos cultos de domingo, o cânon bíblico teria apenas a epístola aos Romanos.
A verdade é que esses pastores estão enaltecendo partes da Bíblia acima de outras, de tal maneira que chegam à idéia absurda de conceber que só há necessidade de inerrância nas verdades redentivas. É por isso que se desinteressam pelo restante das Escrituras. Incrivelmente esse foi o discurso dos liberais do século XIX, que defendiam que apenas algumas partes das Escrituras eram autêntica história. Essa visão empobrece a vida teológica da igreja e cria uma dualidade dispensacionalista em sua mente; a Bíblia passa a ser mais interessante em alguns lugares, do que em outros.
O discurso teológico que trata apenas de uma única verdade, gera uma sociedade que olha somente para cima, com conceitos medievais e que não acompanha o mundo moderno em seus novos desafios. Todos os dias o mundo em rebelião inventa uma nova arma contra a igreja de Cristo, mas a maioria não trata do assunto, nem tampouco ensina-se a igreja a se defender e defender sua fé. Ao invés disso fomentam um conceito errado de apologética, formando uma divisão entre fé e apologética, enaltecendo a fé e menosprezando a apologética.
A verdade é que as pessoas que desprezam a apologética ou a têm como algo separado da fé, fazem uso desse expediente para justificar sua ignorância e superficialidade sobre a Bíblia.
SER PASTOR É SER VOCACIONADO PARA A APOLOGIA
Já ouvi muitos pastores dizerem que não são vocacionados para apologética. Outros dizem que são apenas pastores. É interessante notar que esses modelos não são achados nas Escrituras Sagradas. Todos os profetas do Antigo e Novo Testamentos eram verdadeiras espadas na hora de estabelecer a verdade em conflito com o paganismo. Os escritos apostólicos são profundas apologias da fé cristã para demolir as trevas e o erro que Satanás impôs ao mundo em rebelião contra Deus.
A vocação pastoral está ligada intimamente à pregação da verdade, de maneira a proteger o rebanho de Deus dos lobos devoradores com as falsas doutrinas. O pastor é aquela figura separada do grupo porque detém, dentre tantas aptidões e requisitos, a capacidade de conhecer mais e defender a fé cristã diante da sociedade e do rei. Seu discurso é argumentativo, e seus argumentos são convincentes. Sua tarefa não é impor a verdade, e sim convencer a todos dela. Quem impõe é o Espírito; ele convence por meios não naturais.
DEUS É LÓGICO, A FÉ É LÓGICA
Há uma tradição de se dizer que a fé não é lógica porque Deus vai contra a lógica. Essa tradição é a mesma que costuma dizer que o evangelho é contra a razão. Quem pensa assim é profundamente estimulado a repudiar a razão no entendimento das verdades bíblicas.
No século XVII, antes da escolástica protestante, os reformadores repudiaram a razão como o meio em si de encontrar a verdade, pois concebiam que a razão também era corrompida; o que não significa que ela é impossibilitada de reconhecer a Deus e descobrir suas obras. Na verdade, depois de Calvino, toda a teologia reformada foi um assentamento das verdades bíblicas em arcabouço lógico aristotélico. Portanto, a afirmação de fé irracional, ilógica, contra a razão é cacoete dos velhos pentecostais que não gostavam de estudar a Bíblia, e se apresentavam com suas “revelações” fresquinhas vindas do céu.
Como poderíamos admitir que o Pai da lógica é contrário à lógica? O Deus que partilhou a menor parte de sua intelectualidade com o homem só pode ser mais lógico do que é a mente humana. O problema pode ser bem melhor definido da seguinte maneira: pelo fato do homem, em sua razão e lógica finita, não conseguir apreender racionalmente grandes dificuldades da Divindade, não se pode dizer que Deus não é lógico porque não tem assentimento lógico na mente humana. O problema não está em Deus, mas no homem. Sua razão é finita e limitada; ele não pode apreender Deus em seu ser absoluto, e nem mesmo compreendê-lo perfeitamente em sua pessoa revelada. Se dissermos que Deus não é lógico, cometemos o terrível erro em teontologia de dizer que Deus é de confusão e se contradiz a si mesmo. Seria um absurdo dizer isso dAquele que é toda perfeição.
Quanto a fé podemos dizer que ela se dá em algum lugar, e seu único abrigo parece ser amente. Vejamos o disse Jesus a respeito de processo de instalação da fé num descrente: “mas o que foi semeado em boa terra é o que houve a palavra e a compreende; este frutifica e produz a cem, a sessenta e a trinta por um.” (Mt 13:23) Neste texto a fé não é sentir, nem se dá noutro lugar que não a mente do pecador sem Cristo. Existe uma compreensão que é um movimento da mente; isso não poderia se dar de maneira ilógica, pois a mente humana não compreende categorias ilógicas. Se a fé fosse uma operação ilógica de Deus, ela aconteceria em um outro lugar no homem que não fosse a mente.
A sabedoria de Deus que tornou-se loucura para os gregos (I Co 1:21) foi chamada por Paulo desabedoria(dotada de lógica); era considerada loucura porque não cabia dentro do sistema que os gregos haviam criado para conceber Deus. Ainda mais Paulo diz que a loucura de Deus ésábia(dotada de lógica), (I Co 1:25). Isso significa que a atribuição a Deus de ilógico é um erro teológico grave. O homem é que não tem sabedoria suficiente para entender o Deus do conhecimento.
FÉ REFORMADA, APOLOGÉTICA, E EVANGELIZAÇÃO
Interessantemente, quem mais utilizou a apologética para evangelizar a Europa medieval foram os reformadores. Isso aponta para uma função da apologética que há muito tempo foi esquecida pelos pregadores reformados de nosso tempo: a evangelização. Parece que nossa pregação nunca terá o poderoso efeito da dos reformadores porque não damos as respostas que nossa sociedade pagã precisa ouvir. A voz profética foi silenciada em nome de uma hamartiologia exclusiva para a igreja. Nenhum pastor hoje desafia os erros da sociedade estatizada, em público que não seja seus fiéis. Essa pregação nunca atingirá o âmago da sociedade.
É possível constatar que os meios de comunicação já estão saturados da mesma pregação evangélica (quer seja por falsários ou não); falar de Cristo a uma sociedade cristã católica é muito fácil; parece que estamos anunciando o que todo mundo já sabe, e não o que eles precisam saber. Dizer que todos são pecadores e que herdaram o pecado original de Adão já não causa muito impacto ou interesse no homem moderno; eles concordam conosco, e até se acham nossos irmãos. É necessário, portanto, mostrar-lhes a diferença entre o erro e a verdade. Essas são as instruções que Paulo dá a Timóteo para seu trabalho de evangelista, (II Tm 4:1-5). Parece-me que a mensagem que Deus quer para esta sociedade é uma mensagem apologética, denunciando todos os erros dessa sociedade pagã, do estado ímpio, e de suas grandes religiões. Parece que teremos que voltar ao século XVI e aprender com os reformadores a pregar mais apologeticamente contra as multidões de erros do nosso estado ímpio. A sociedade precisa ser impactada com a verdade de seus erros; dizer para todas as formas de erros que Cristo é o salvador de suas almas é um pouco simplório. O mundo encerra em si muitíssimos erros que a Palavra de Deus precisa alcançar e debelar. O cristianismo autêntico prega sobre tudo, e tem respostas para tudo. Escolher um único tema das Escrituras e passar cem anos falando só sobre aquilo é fechar os olhos às necessidades gritantes de uma sociedade decadente que carece de muitas outras respostas coerentes. Essa foi a fórmula evangelística dos reformadores em seu tempo, ao atacarem o papado, provocando o maior movimento de reforma espiritual conhecido até hoje. Como reformados, deveríamos imitar mais os reformadores, e deixar um pouco de lado a obsessão de pregar sobre um único tema só para a igreja, (um grupo de fiéis há anos catequizados na doutrina reformada do pecado). Parece que isso é chover no molhado. Certamente nossa pregação não mudará muito a cara desta nação.
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