Em Cristo estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento. (Colossenses 2:3)

Ninguém vos engane com palavras vãs; porque por essas coisas vem a ira de Deus sobre os filhos da desobediência.(Efésios5:6)
Digo isso a vocês para que não deixem que ninguém os engane com argumentos falsos. (Colossenses 2:4)

25 de abril de 2018

QUANDO A NAÇÃO GEME SOB A LIDERANÇA DE MAUS GOVERNANTES


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Rev. Hernandes Dias Lopes

“Ouvi, agora, isto, vós, cabeças de Jacó, e vós, chefes da casa de Israel, que abominais o juízo, e perverteis tudo o que é direito”
(Mq 3.9).
O profeta Miqueias confrontou os pecados da nação de Israel e de Judá. Era um tempo de decadência dos valores morais, uma época marcada pela opressão econômica, pela corrupção política e pela desidratação da vida religiosa. A crise mostrava sua carranca em todos os setores da sociedade.

O Estado estava aparelhado para dar pleno curso à corrupção. Os líderes maquinavam o mal e o praticavam porque o poder estava em suas mãos (Mq 2.1,2). Não havia apenas uma tolerância ao mal, mas uma desavergonhada inversão de valores. O bem era aborrecido e o mal era amado (Mq 3.2). Os líderes eram descritos como cruéis e canibais, que devoravam o povo, em vez de cuidarem do povo (Mq 3.3). O texto em epígrafe mostra os cabeças de Jacó e os chefes de Israel abominando o juízo e pervertendo tudo o que é direito (Mq 3.9). O poder judiciário estava, em grande parte, mancomunado com os criminosos, para proteger-lhes nas cortes. O profeta denuncia: “Os seus cabeças dão as sentenças por suborno” (Mq 3.11). Havia, uma espécie de conluio dos poderes constituídos para dar pleno curso ao crime. Miquéias é enfático nessa denúncia: “As suas mãos estão sobre o mal e o fazem diligentemente; o príncipe exige condenação, o juiz aceita suborno, o grande fala dos maus desejos de sua alma, e, assim, todos eles juntamente urdem a trama” (Mq 7.3). A corrupção não estava apenas nas casas de leis, nos palácios e nas cortes, mas também na religião. O profeta Miquéias não poupa os profetas e os sacerdotes. Sua denúncia é contundente: “Os seus sacerdotes ensinam por interesse; e os seus profetas adivinham por dinheiro” (Mq 3.11). A religião estava tão adoecida pelo pecado, que esses líderes além de terem vendido sua consciência ao esquema de corrupção, ainda criavam falsos mecanismos teológicos para justificarem sua desfaçatez: “… e ainda, se encostam ao Senhor, dizendo: Não está o Senhor no meio de nós? Nenhum mal nos sobrevirá” (Mq 3.11b).

Não bastasse as altas rodas do poder político estarem no fundo do poço moral, a família, guardiã dos valores que devem reger a sociedade, também estava navegando nas águas turvas dos conflitos e das malquerenças. O profeta ergue sua voz e denuncia: “Porque o filho despreza o pai, a filha se levanta contra a mãe, a nova, contra a sogra; os inimigos do homem são os da sua própria casa” (Mq 7.6). A nação toda capitulou-se à impiedade e à perversão. O profeta ergue sua trombeta e denuncia esse colapso coletivo: “Pereceu da terra o piedoso, e não há entre os homens um que seja reto; todos espreitam para derramarem sangue; cada um caça a seu irmão com rede” (Mq 7.2).

A liderança política da nação em vez de governar o povo com sabedoria e probidade, explorou-o com voracidade. Em vez de fazer cumprir as leis para o estabelecimento da ordem, abominaram o juízo; em vez de serem exemplo de retidão, perverteram tudo o que é direito (Mq 3.9). Longe de serem paradigma para a nação, tornaram-se mestres da ilicitude. Em vez de inspirar nobres atitudes em seus súditos, tornaram-se na mais infame escola do crime. O Brasil não se distancia tanto dessa triste realidade denunciada pelo profeta Miqueias. Que Deus tenha misericórdia de nossa nação, para que homens maus não nos governem e que os criminosos não sejam tidos em alta conta pelo nosso povo. É tempo de arrependimento! É tempo de voltarmo-nos para o Senhor!


http://www.ippinheiros.org.br/pastorais/quando-a-nacao-geme-sob-a-lideranca-de-maus-governantes/




24 de abril de 2018

Uma exposição bíblica sobre a depravação dos seres humanos

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(Rm 1.18-32)¹


O leitor da carta aos romanos facilmente percebe que o apóstolo Paulo decidiu desmascarar a ira de Deus contra os impiedosos de forma contundente, e isso pode ser percebido por não se encontrarem os termos centrais da ação salvadora de Deus, a saber: justiça, amor, misericórdia, promessas, vida eterna, morte expiatória de Jesus etc. É obvio que Paulo não particularizou o alvo da ira divina, pois não empregou o termo grego ἔθνος (ethnos), que pode ser traduzido por “gentio”, “pagão”, “nação” ou “povo não judeu”. Entretanto, os povos gentílicos estavam muito mais imersos em impiedade, imoralidades e idolatrias que os judeus, o que fez com que as verdades reveladas no texto se tornassem juízo sobre eles. A bem da verdade, a carta aos Romanos não isenta os judeus de denúncias, os quais foram também fortemente repudiados por Paulo.

O foco deste artigo é uma análise da doutrina da depravação total da humanidade em Romanos 1.18-32. No entanto, no decorrer desta exposição, procuraremos evidenciar mais especificamente os povos gentílicos. É certo que tanto gentios quanto judeus pecaram; entretanto, a ação missionária divina veio primeiro ao povo judeu, para estes alcançarem as nações gentílicas (Gn 12.3-5). Assim, analisaremos apenas a aplicabilidade do texto de Romanos 11.18-32 às etnias não judaicas, seguindo, assim, o contexto da divisão natural do esboço da carta.

1. A revelação geral de Deus nega a inocência do homem (Rm 1.18-23)

Esses versículos fazem parte da grande introdução da Carta aos Romanos, mas, pela natureza desta abordagem, percebemos que o apóstolo Paulo começa a falar aqui sobre os gentios de maneira específica e de forma um pouco mais distinta que nos primeiros 17 versículos. Assim, Paulo escreveu: “Pois a ira de Deus se revela do céu contra toda a impiedade e injustiça dos homens que impedem a verdade pela sua injustiça” (Rm 1.18, A21).  Ele deixa claro que ninguém será poupado na face da terra, quando Deus aplicar seus juízos finais. A denúncia feita por Paulo acerca dos pecados dos homens impiedosos e injustos no começo de sua abordagem retrata a depravação dos seres humanos e nos faculta uma visão mais ampla a respeito da ira divina contra o progresso da impiedade e do ser humano perverso.

A visão que Paulo tem nessa denúncia da maldade humana é atestada pelo fato de que essa ira “se revela do céu contra toda a impiedade e injustiça dos homens”. Ou seja, as práticas dos seres humanos caídos não agradam a Deus, pois pervertem a verdade pela injustiça. Aqui, numa leitura simples, pode-se concluir equivocadamente que o ser humano teria a capacidade de interromper os planos de Deus. Uma análise mais profunda desse versículo, porém, chegará à conclusão do que realmente Paulo quis dizer.

É evidente que ninguém pode impedir a operação de Deus no universo ou em qualquer lugar que se possa imaginar. Isaías registra a onipotência divina “Desde toda a eternidade, eu o sou, e não há ninguém que possa fazer escapar das minhas mãos; agindo eu, quem impedirá?” (Is 43.13, A21). É possível concluir que não pode haver nenhuma tentativa bem-sucedida por parte dos seres criados (humanos e angelicais) que possa impedir as realizações dos planos de Deus. Desde a antiguidade até a contemporaneidade, a história bíblica e os registros do cristianismo nos informam isso de maneira muito clara.

No entanto, se advogar tal proposta de frustração não era a intenção de Paulo, já que nenhuma criatura pode competir com o Deus poderoso, então o que Paulo tinha em mente? Levando em conta o que já foi dito, entende-se que Paulo emprega o termo κατεχοντων (katechaoanton), que vem da raiz verbal κατεχω (ketechô) e significa “detenho, tomo posse de”. Acompanhado de αδικια (adikia; injustiça), descreve uma ação intencional projetada por homens impiedosos e injustos que pretendem controlar e manipular a sociedade em que vivem.

O resultado dessa ação, propositalmente feita por homens dessa natureza, é posicionar-se contra qualquer obra que tenha como propósito glorificar a Deus. Esses homens impiedosos e injustos usam todos os seus recursos para um fim desesperador. Distorcem o que é verdade e injustamente transferem para a mentira a verdade de Deus. Mentem, difamam o povo de Deus, deformam a justiça, com o intuito de suas inverdades parecerem ser verdade. Sem dúvida alguma, Paulo conhecia bem a mente do povo helênico, a cultura na qual o Novo Testamento foi escrito, e, por isso, os dois termos gregos empregados pelo apóstolo no versículo 18 apontam para um nível muito alto da ingenuidade do homem; ασεβειαν και αδικιαν (asabeian kai adikain; “impiedade e injustiça”). Portanto, a negação do homem “não piedoso” e do “não justo”, em uma tradução literal, denota a pessoa tanto impiedosa quanto injusta; um duplo grau de depravação do homem que vive sem se importar com o que faz, muito menos com fato de que prestará contas a Deus no juízo final.

Os seres humanos depravados, que inverteram as verdades divinas pelas suas mentiras, foram identificados por Paulo como conhecedores da revelação geral. Isso significa que suas ações não foram por causa de ignorância da existência de Deus; pelo contrário, até as criaturas atestam que há um Criador acima de tudo: “Pois o que se pode conhecer sobre Deus é manifestado entre eles, porque Deus lhes manifestou” (Rm 1.19, A21).

Segundo Calvino, Paulo designa que propriedades divinas podem ser conhecidas pela revelação natural e aponta tudo o que se presta para anunciar a glória do Senhor, ou seja, tudo quanto deve nos induzir ou incitar a glorificar a Deus. Isso implica que não se pode compreender perfeitamente a Deus em toda a sua grandeza, embora haja certos limites dentro dos quais os homens devam se alinhar e compreender o que lhe é facultado (CALVINO, 1997, p. 64)..

Calvino (1991, p. 16), em sua obra prima As Institutas, levanta uma questão pertinente: “Em que consiste conhecer a Deus e qual é a finalidade desse conhecimento?”. Ele sustenta que o conhecimento de Deus não é somente saber que há um Deus, senão também quem é Deus. Para Calvino, não pode haver conhecimento de Deus, no sentido próprio da palavra, sem haver religião ou piedade.

Todavia, o foco não é o conhecimento mediante o qual o homem perdido reconhece a Deus como seu Redentor em Cristo, senão o primeiro conhecimento que diz respeito ao conhecido do Criador. Para Calvino (1991, p. 16), este conhecimento primário concernente ao Deus Criador reconhece que Ele é a fonte de todo bem. Em nenhuma parte há uma gota da sabedoria ou da luz, da justiça ou do poder, que não procede dele.

Segundo Cabral (1998, p. 34), o que se pode conhecer sobre Deus “Indica que o conhecimento acerca de Deus é revelado na própria vida do homem, na natureza e em toda a criação [...]. É um fato inevitável no homem. Está manifesto na sua vida esse conhecimento”. Portanto, o que Deus manifestou ao homem, implica com propriedade que esse conhecimento, de alguma forma, pode ser negligenciado pelo ser criado, mas jamais, neutralizado.

O apóstolo Paulo  não especifica em detalhes de que tipo de conhecimento se trata, porquanto, o contexto desta seção mostra de forma geral que se refere somente ao que Deus soberanamente decidiu para ser conhecido pelos homens, pelo fato de ser o Criador deles. Estes foram feitos segundo a sua imagem, pois o universo no seu todo é uma prova que conclama esse conhecimento.

Essa realidade é exposta por Paulo quando disse: “Pois desde a criação do mundo os atributos invisíveis de Deus, seu eterno poder e sua natureza divina, têm sido vistos claramente” (Rm 1.20, NVI).  O Deus revestido com toda sua majestade não se limita ao espaço ou tempo, pelo contrário, as criações e atributos invisíveis dele são próprias testemunhas da sua existência, pois seu eterno poder e sua divindade têm sido vistos pelos homens de forma óbvia. Paulo reportou-se ao salmista Davi para fundamentar essa afirmação; “Os céus declaram a glória de Deus; o firmamento proclama a obra das suas mãos. Um dia fala disso a outro dia; uma noite o revela a outra noite” (Sl 19.1-2, NVI).

Portanto, somente “O insensato diz no seu coração Deus não existe. Todos se corrompem e praticam abominações; não há quem faça o bem” (A21, Sl 14.1). Para Stern (2008, p. 364):

É assim que a Bíblia chega mais perto de “provar a existência de Deus”, pois não há razão por que ela deveria prová-la. Pelo contrário, os pecadores precisam se esforçar para ignorar Deus; os mecanismos de defesa requerem energia constante para serem mantidos por pessoas que, motivadas por sua injustiça, mantêm a supressão da verdade.
Visto que os pecadores insensatos mantêm os seus corações endurecidos, mesmo contemplando as incríveis obras divinas no universo, inclusive neles mesmos, “sendo compreendidos por meio das coisas criadas, de forma que tais homens são indesculpáveis” (Rm 1.20b, NVI). Para Calvino (1997, p. 65), tal fato nos homens, mesmo vetados da misericórdia divina, “prova nitidamente o quanto os homens podem lucrar com a demonstração da existência de Deus, ou seja, total incapacidade de apresentar qualquer defesa que os impeça de serem justamente acusados diante do tribunal divino”.

Na sequência, no versículo 21, Paulo imprime com firmeza o nível mais alto do desespero do homem perante o seu Criador: imperdoável por Deus. Se existe uma notícia desesperadora para o homem moral é estar consciente do seu estado de ser criado, vetado do perdão divino. A conjunção grega empregada por Paulo é διότι (dioti) “porque”, a qual designa causa, ou o motivo de tal ação. “Porque, mesmo tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças; pelo contrário, tornaram-se fúteis nas suas especulações, e o seu coração insensato se obscureceu” (Rm 1.21, A21). É importante ressaltar os dois verbos utilizados nesse versículo e conjugados no tempo pretérito perfeito: glorificaram e deram. Aqui Paulo descreve um histórico da depravação total e definitiva da humanidade instalada com a queda de Adão (Gn 3).

Entretanto, ao ser humano não se basta apenas ter conhecimento de Deus ou reconhecer a sua existência; para Paulo isso não justifica nada. Os seres humanos têm consciência de que há um Deus e, por mais que sejam ateus, a negação da verdade não se traduz em anulação da existência da divindade – do Deus Supremo. Todavia, a grave denúncia do apóstolo Paulo é no sentido de que estes homens “não o glorificaram como Deus e nem lhe deram graças”; eles estão vivendo e se comportando como se Deus não existisse.

Segundo Stern (2008, p. 365): 

Se você reconhece ou não a existência de Deus, a questão não é essa. Até os demônios creem em Deus, mas a ‘crença’ deles os faz tremer [Tg 2.19], porque eles sabem que não podem evitar o castigo que Deus tem para suas más obras e pensamento”. Por isso, é aceito como axiomático que saibam quem Deus é (Rm 1.18-20) e estejam cientes da sua existência. A questão, melhor dizendo, é que eles “não o glorificaram como Deus e nem lhe agradeceram.
A segunda parte do versículo 21 completa estas duplas negações “não e nem”, descrevendo assim a soberba e a ingratidão do homem. A forma como Paulo tece o seu argumento revela o que deveria ser feito para Deus, mas infelizmente não foi, contudo, o que aconteceu foi uma ação praticada de maneira oposta por estes homens; “pelo contrário, tornaram-se fúteis nas suas especulações, e o seu coração insensato se obscureceu”. (Rm 1.21b, A21).

“Tornaram-se” deixa claro que a ação não foi externa, nem eles foram passivos, mas sim eles mesmos decidiram se tornar tolos em suas enganosas especulações. Segundo Paulo, o coração insensível se agarra na escuridão “os seus pensamentos se tornaram tolos, e a sua mente vazia está coberta de escuridão” (NTLH).  A ação é praticada por um agente ativo, denotando assim, as consequências negativas que transformaram as vidas deles e os conduziram à imoralidade.

O coração humano é o centro da sua projeção, pois é dele que brota tudo quanto a ideia do homem superior — desejo de ser igual a Deus ou a suposta ciência de que Deus não existe. E ainda, se ele existisse não tem nada a ver com o ser humano — teísmo aberto. A falsa crença em Deus, colocando-o no universo dele e o homem no seu, cria naturalmente dois reinos antagônicos ou no mínimo desconexos: um manda no céu e outro manda na terra, pois tais homens não querem estabelecer um relacionamento pessoal com Deus. Para Stern (2008, p. 365),

não se relacionaram [seres humanos] pessoalmente com ele [Deus] como quem ele é. É esta falha inicial que provoca a longa decadência. Uma vez que Deus não está mais em seu pensamento. Todas as coisas se tornam fúteis ou ‘vãs’. Seu coração se torna espiritualmente obtuso; e sem a luz de Deus [Rm 8.12] [...].
Para Paulo, estes homens enganaram a si mesmos porque “Dizendo-se sábios, tornando-se loucos” (Rm 1.22, A21). O efeito do pecado sobre a mente humana é mudar a sua falsa inteligência em loucura (1Co 1.17-27); como acertadamente Calvino (Apud WILSON, 1969, p. 30) afirma
que quando os miseráveis homens vão em busca de Deus, em vez de subirem mais altos que eles próprios, como deveriam fazer, avaliam Deus por sua própria estupidez [...]. Daí, não o conceberam segundo o caráter no qual ele se manifesta [...].
O termo  empregado por Paulo para descrever os falsos sábios é σοφοὶ (sofhoi), o qual também se traduz por “filósofos”. Os homens da antiguidade, e até a era moderna ou pós-moderna, se orgulhavam e estão se orgulhando por gabar-se de ser filósofos, ou seja, os eruditos da filosofia, ciência sobre a qual se teria dito que é a mãe de todas as demais ciências no campo do saber.

Os seres humanos recusaram conceber Deus como Deus e se declararam idólatras ao optar por honrar algo no lugar de Deus. Entretanto, eles reprimiram a verdade divina a fim de escapar de sua condenação e assim, supostamente, viver de um modo livre e independente. Essa supressão nada mais é do que a distorção da verdade por mentira (Rm 1.25). A busca do ser humano por ser livre o conduziu até o ponto de abandonar a verdade e tornar-se quase semelhante a um animal em todos os aspectos : agir e viver instintivamente. Como Eliade (1992, p. 98) sustenta acerca do homem moderno “Só será verdadeiramente livre quando tiver matado o próprio, o último Deus”.

Sem demora, Paulo, com a conjunção coordenativa “e”, dá sequência ao versículo 22 para explicar a insensatez dos homens que se dizem sábios, mas na verdade se tornaram loucos. “E substituíram a glória do Deus incorruptível por imagens semelhantes ao homem corruptível, às aves, aos quadrupedes e aos repteis” (Rm 1.23, A21). Paulo apresenta o conhecimento que recebeu no Antigo Testamento, referente à desobediência dos seus antepassados judeus, de abandonar YHVH para seguir outros deuses. “Em Horebe, fizeram um bezerro e adoraram uma imagem de fundição. Assim trocaram sua glória pela imagem de um boi que come capim. Esqueceram-se de Deus, seu Salvador, que havia feito grandes coisas no Egito” (Sl 106.19-20, A21). No livro do profeta Jeremias também se encontra a declaração de Deus: “Mas o meu povo trocou a sua glória por aquilo que é imprestável” (Jr 2.11b, A21).

Depois de minar a verdade de Deus e de não reconhecer a glória divina, o ser humano depravado em seu ser ficou sem Deus. Contudo, a sede ontológica de adoração faz parte da constituição humana. Se não adora ao Deus verdadeiro, adorará um falso deus, mesmo que venha a ser por isso condenado! Esse fato esclarece a tendência humana de se entregar à idolatria. “O ser humano trocou a glória do Deus verdadeiro por deuses substitutos que ele próprio havia feito. Colocou a vergonha no lugar da glória, corruptibilidade no lugar da incorruptibilidade, as mentiras no lugar da verdade” (WIERSBE, 2012, p. 675).

Há uma observação relevante nesta lista de falsos deuses; o ser humano ocupa a primeira colocação. A iniciativa da idolatria parte do homem, pelo homem e para o homem, não de Satanás; esta seria a descrição esperada no tocante a idolatria. Porém, isso não significa que Satanás está de fora dessa ação injusta, pelo contrário, o que Paulo descreveu acerca dos homens em sua depravação foi o resultado do pecado causado por Satanás no jardim de Éden.

Em Gênesis 3.5, encontra-se o relato do episódio primário em que, pela primeira vez, o ser humano foi seduzido por Satanás a desejar ser como Deus, caso comesse do fruto proibido por Deus, “Na verdade Deus sabe que no dia em que comerdes desse fruto, os vossos olhos se abrirão, e sereis como Deus, conhecendo o bem e o mal” (A21). Segundo Wiersbe (2012, p. 675),

Satanás encorajou o homem a exaltar a si mesmo. Em vez de os seres humanos feitos à imagem de Deus, fizeram deuses para si a sua própria imagem e se rebaixaram a aponto de adorar aves, insetos e outros animais.
Macdonald (2008, p. 418) salienta que “Ao adorar ídolos, o ser humano adora demônios. Paulo afirma expressamente que os sacrifícios oferecidos pelos gentios aos ídolos são sacrifícios feitos a demônios, e não a Deus (1Co 10.20)”.

Portanto, nota-se que o ser humano faz de tudo para se livrar de suas más ações; a troca do objeto da adoração, do Deus Supremo para o deus (homem, satanás e os seus demônios), foi a consequência definitiva da depravação humana. Pois Deus culpou e condenou o homem por ter sido ele o responsável por seus atos perversos e impiedosos. Isso deixa claro que a inocência dele foi vetada pela revelação geral de Deus. Ou seja, ninguém é poupado em seus atos por justificar desconhecer as leis divinas.

2. As razões que levaram Deus abandonar os gentios (Rm 1.24-28)

Os versículos 24 a 28 explicam as fortes razões que levaram Deus a retirar sua misericórdia daqueles que decidiram pela idolatria. Paulo registra as tríplices rejeições: “Deus os entregou”, “Deus os entregou”, "foram entregues pelo próprio Deus” (Rm 1.24,26,28, A21). A conjunção do verbo “entregar” no pretérito perfeito exibe o sentido do abandono pleno do Criador, como uma resposta iminente de Deus deixando os seres humanos a mercê de suas perversidades explicitas nos versículos 22 e 23. Abaixo, veja como estas três entregas-rejeições foram apresentadas por Paulo.

Primeira entrega

Paulo fundamenta-se na resposta de Deus à perversidade humana, iniciando como o motivo da entrega “É por isso que Deus os entregou à impureza sexual, ao desejo ardente de seus corações, para desonraram seus corpos entre si” (Rm 1.24, A21). Deus em sua ira os entregou, isto é, foram pagos segundo a medida dos seus pecados (Rm 1.26,28). Para Radmacher (2010, p. 363):

A ira de Deus já se manifesta em nossos dias (v.18), porém, ela se manifestará plenamente por ocasião da volta de Cristo (1Ts 1.10). A Bíblia nos informa que Deus não desistiu da humanidade, mas Ele permitiu que ela se afundasse no pecado, de acordo com os desejos pecaminosos do coração humano. Frequentemente, Deus dá ao homem novas oportunidades de enxergar toda a malignidade do pecado.
O evangelho, além de proclamar o juízo vindouro, também prega o juízo presente, pois fala das consequências na vida terrena para quem não o aceitar. Isto é atestado com o tipo da entrega descrita por Paulo no versículo 24. Os seres humanos, assediados neste contexto, foram entregues à impureza sexual — prática ilícitas —, ao desejo ardente de seus corações — intensidade da prática —, demonstrando a amplitude e intensidade do mal projetado e armazenado no coração humano. A preposição “para” indica que a imoralidade humana e o coração insensato do homem produzem o seguinte estado: “desonraram seus corpos entre si”. Macdonald (2007, p. 418) sustenta:
Em outras palavras, a ira de Deus se voltou contra toda a personalidade do ser humano. Em resposta à concupiscência perversa do coração dos homens. Deus os entregou à impureza heterossexual: adultério, relações ilícitas, lascívia, prostituição etc. A vida de tais indivíduos se tornou uma sucessão de orgias nas quais desonram os seus corpos entre si.
Nos versículos 23 e 24, Paulo descreve os seres humanos substituindo a glória de Deus incorruptível por imagens parecidas aos seres criados e essa depravação espiritual resultou em outro abandono divino. No versículo 25 está o registro do motivo da primeira entrega à desgraça do pecado: “Pois substituíram a verdade de Deus pela mentira e adoraram e serviram à criatura em lugar do Criador, que é bendito eternamente. Amem” (A21). Este versículo ecoa o sentimento do versículo 23, porém de modo algum é mera repetição dele. Ora, o que Paulo tem em mente é vindicar a manifestação da severidade do juízo divino sobre os idólatras (Rm 1.24), como a dura resposta à odiosa natureza depravada deles. Depois, revela no versículo 23 a intenção humana de detratar a glória essencial de Deus com sua idolatria. Entretanto, a fervente tribulação de louvor apresentada no texto é também a declaração da bendita santidade do Criador. Se isso fosse possível ao homem, ter sucesso em modificar a glória divina, então a linha divisória entre o Criador e a criatura deixaria de existir, e Deus já não seria Deus (WILSON, 2007, p. 33).

Segundo o mesmo autor, é absolutamente impossível ao homem obter sucesso em sua pecaminosa tentativa de diminuir a glória de Deus. Mais adiante, Paulo registra que todas as criaturas terão de pagar tributo aos direitos da glória do Criador, querendo ou não, seja sob a misericórdia ou sob a ira (Rm 9.22,23; Ap 4.11). Paulo culpou os homens em dois graves erros; um residente em suas mentes “eles substituíram a verdade de Deus em mentira”, e o outro residente na vontade deles “serviram mais a criatura no lugar do Criador”. David Brown (Apud WILSON, 2007, p. 34) bem dizia: “Professando servir o Criador por meio da criatura, logo deixaram de ver o Criador, fixando-se na criatura”.

Segunda entrega

Por terem invertido a ordem e a essência do Criador, a depravação dos seres humanos os levou a um abandono vergonho: “Por causa disso, Deus os entregou a paixões vergonhosas. Até suas mulheres trocaram suas relações sexuais naturais por outras, contrárias à natureza” (Rm 1.26, NVI). O termo grego descrito no texto quanto à relação das mulheres também pode ser traduzido por “fêmeas”, uma vez que Paulo escreveu θήλειαι (thêleiai; fêmeas) e não γυνή (gynê; mulher).

Ora, como a palavra θήλειαι aparece no dicionário e léxico grego sem nenhuma declinação, é θήλυς (thelus). O dicionário grego de Taylor (1991, p. 99) traduz o termo por “sexo feminino – mulher”; o Novo Testamento Grego (ed. ALAND e outros, 2009, p. 857) traduz “feminino; como substantivo, mulher, Rm 1.26”. Já o léxico do Novo Testamento, de Gingrich & Danker (1984, p. 98), traz “fêmea”. O Novo Testamento Interlinear da Vida Nova traduz θήλειαι por “mulheres”; e o de Luz apresenta “fêmeas”.

Entretanto, as versões  em língua portuguesa traduzem por “mulheres” e não “fêmeas”, pois thêleiai (fêmeas) é a sua forma no plural do caso nominativo; termo este diferente de γυνή (gynê; mulher ou esposa). Independente da tradução “mulheres” ou “fêmeas”, a intenção apresentada por Paulo, quando preferiu empregar θήλυς e não γυνή, é que os comportamentos sexuais das mulheres se fundiram até mesmo no sentido de que abandonaram a sexualidade de mulher e se fizeram superficialmente fêmeas semelhantes às fêmeas dos animais. Portanto, Paulo não está tratando mais da imoralidade sexual em termos gerais, como no versículo 24, porém torna especifica, e centraliza, a atenção das repugnantes manifestações da depravação humana, a saber: a homossexualidade obstinada.

“As paixões vergonhosas” destacam o sentido do versículo 24b “para desonrarem seus corpos entre si”. Paulo não ataca as mulheres diretamente; parece que a ideia do pecado neste versículo remonta à queda adâmica. No entanto, “as suas mulheres”, ou melhor, “suas fêmeas”, “trocaram suas relações naturais por outras, contrarias à natureza”. Isto nos leva a lembrar da mesma troca já registrada nos versículos 23-25; a glória do Deus imortal por uma imagem de seres criados; Deus, que é a verdade, trocado por mentira. Segundo Hendriksen (2001, p. 103), “É evidente que o apóstolo está censurando a prática obstinada da homossexualidade ou sodomia”.

Ao censurar a homossexualidade, primeiro a prática lésbica é reprovada: relações sexuais entre as mulheres. É evidente que o conceito de lesbianismo ou lésbica não foi descrito por Paulo, mas a prática, tendências e comportamentos, são obviamente descritos e condenados neste trecho e consequentemente na visão geral da Bíblia.  Portanto, “Pois até as mulheres trocam as relações naturais pelas que são contra a natureza” (NTLH) deixa claro que o apóstolo condena as fêmeas lésbicas, as quais inverteram o uso legitimo do sexo.

Segundo Lopes, lesbianismo é a relação sexual entre mulher e mulher e já era uma prática “normal” na época de Paulo, mas não como nos dias atuais. Ainda segundo Lopes (2010, p. 91), “Deus tirou o pé do breque. Entregou essas pessoas a paixões infames, e as mulheres se entregaram ao lesbianismo”. Essa afirmação de Paulo, em 1.26, “está enfatizando o grau superlativo da degradação. As mulheres sempre foram guardiãs da moralidade.  Quando até as mulheres se corrompem, a cultura já chegou ao fundo do poço”, diz Lopes.

Infelizmente, não são somente as mulheres que perderam suas identidades de feminismo em relação ao sexo; “Os homens, da mesma maneira, abandonando as relações naturais com as mulheres, arderam em desejo sexual uns pelos outros, homem com homem, cometendo indecência e recebendo em si mesmos a devida recompensa do seu erro” (Rm 1.27, A21). Paulo inicia este versículo com o adjetivo que coloca em igualdade de dois gêneros, classificando-os em uma mesma situação, ὁμοίως (omoiôs; semelhantemente). A boa tradução da versão Almeida Século 21 “os homens, da mesma maneira” deixa claro e explícito que a depravação atingiu igualmente homens e mulheres (Rm 1.26) no mesmo nível (Rm 1.27).

Ora, sendo assim, não é surpreendente a observação de que estes homens foram denominados ἄρσενες, (arseves; machos) e não ἀνθρώποἱ (antrõpooi; homens (plural)), ou ἀνθρώπος (antropos; homem (singular)). As versões da língua portuguesa traduzem homens/homem (A21, NTLH, KJA, NVI, RA, e a Vulgata-Latina traz masculi e não hominis).

Paulo preferiu primeiro iniciar com as mulheres, para enfatizar ainda mais a depravação através da prática odiosa, mas sem excluir a estrutura masculina, pois esses “abandonando as relações naturais com a mulher...” (Rm 1.27b). O termo grego para natureza é φυσικὴν (fhysikên), o qual denota “de acordo com a natureza”, isto é, os homens violaram o princípio do uso natural e correto do seu sexo, criado para a procriação e prazer conjugal, ato exclusivo entre o homem e a sua mulher (Hb 13.4).

Com o abandono do uso ordenado por Deus para a relação sexual, a depravação maculou os homens e eles “arderam em desejo sexual uns pelos outros, homem com homem”. Além do ardor, Paulo aponta a intensidade do desejo homossexual utilizando a palavra grega empregada para ação reflexiva; ἀλλήλους (allêlous; uns pelos outros). Nesse termo há uma preposição muito forte que requer afinidade de pessoas da mesma comunidade. Paulo, em outras cartas, recomendou aos cristãos que tenham amor e que orem uns pelos outros, para indicar a ideia de comunhão local. Por incrível que pareça, os seres humanos, em seu estado profundo de depravação, vivem e se relacionam no homossexualismo em uma perversa e imoral harmonia.

O texto não afirma que tais pessoas tiveram algumas relações sexuais entre si mesmas. A ênfase é muito mais do que uma mera prática homossexual, pois se trata de viver e aprovar o homossexualismo. Para Paulo, bastaria o desejo sexual ardente nos corações dos homens para com homens para que se caracterize pecado abominável perante Deus, todavia eles foram à prática “cometendo indecência e recebendo em si mesmos a devida recompensa do seu erro” (Rm 1.27, A21).

É importante ressaltar que o termo “erro”, encontrado em nossa versão, é uma tradução idiomática da palavra grega πλάνης (palanês; desvio); em outras palavras “desvio do alvo traçado por Deus”. Esta ideia define muito bem a origem do pecado, portanto o erro denota, em primeira instância, o desvio do caminho ou de uma instrução em que a pessoa foi orientada. A queda de Adão é uma evidencia óbvia para isso.

Homossexualismo (Rm 1.24,27), segundo Lopes (2010, p. 92), é fruto do “homem que desprezou o conhecimento de Deus e perverteu o culto divino, perdeu a própria identidade. Homossexualismo é uma total negação do mundo real”. A prática homossexual nega qualquer possibilidade de continuidade da raça humana e ameaça extinguir a identidade da pessoa como fruto do relacionamento biológico entre seres humanos de sexo oposto. Como deve ser o posicionamento cristão perante o universo do homossexualismo? Lopes nos responde:

Não podemos concordar com a bandeira levantada pela homofobia [sic], quando os ativistas desse movimento afirmam que o homossexualismo é uma opção normal e que o casamento entre as pessoas do mesmo sexo é uma união de amor que deve ser chancelada pela lei de Deus e dos homens. Ao descrever homossexualismo, Paulo aponta sete características desse pecado abominável: 1) imundícia (1.24); 2) desonra para o corpo (1.24); 3) paixão infame (1.26); 4) antinaturalidade (1.26); 5) contrariedade à natureza (1.26); 6) torpeza (1.26) e 7) erro (1.28)” (LOPES, 2010, p. 92).
O autor do livro de Provérbios estava ciente da amplitude progressiva das manifestações da depravação humana quando afirmou: “Seis coisas o SENHOR detesta, sim, a sétima que ele abomina” (Pv 6.16, A21). As seis características do pecado da depravação sexual apontadas por Paulo são insuportáveis para Deus, porém, a sétima lista delas está no topo da escala, pois é do erro ou desvio que brotam todos os tipos de pecados. É certo que isto não traduz graus de pecados, mas sim intensificação da manifestação natureza pecaminosa já totalmente depravada.

A terceira entrega

Romanos 1.29 começa com uma conjunção aditiva de uma oração, και (kai; e), seguida do adjetivo καθèς (kathôs); ambas podem ser traduzidas por “e como, assim como, conforme, de acordo com”. “Assim, por haver rejeitado o conhecimento de Deus” (Rm 1.28a, A21) é uma implicação causal de que suas atitudes foram reprovadas por Deus. O apóstolo Paulo insiste em sua teologia que Deus não pode ser responsabilizado pelos erros humanos, e nem os homens que ignoram Deus são independentes ou irresponsáveis por suas ações. Em outras palavras, agindo eles em seu suposto absolutismo de decisão não estão isentos da intervenção de Deus.

A segunda parte deste versículo 28 revela o controle absoluto do Deus todo poderoso sobre as suas criaturas. Por terem rejeitado a majestade de Deus, estes homens “foram entregues pelo próprio Deus a uma mentalidade condenável para fazerem coisas que não convêm” (Rm 1.28b, A21). Somente neste versículo, Paulo repete a ideia da reprovação divina pela ação do homem perverso. No início do versículo 28, ele emprega οὐκ ἐδοκίμασαν (ouk edokimasan; não foram aprovados por Deus), e na segunda parte do mesmo versículo encontra-se ἀδόκιμον νοῦν (adokimon noun; “mente reprovada” ou “mente não aprovada”). A tradução da A21, “mentalidade condenável”, apresenta a fundamentação paulina da depravação que causou a esses homens a rejeição de Deus.

A maior desgraça com a qual o ser humano pode se deparar é ser reprovado por Deus. Se o homem for reprovado pelo homem ainda terá esperança pela frente, pois o julgamento humano limita-se apenas às coisas externas ou àquelas que ele mesmo pode ver, enquanto Deus vê além e conhece toda verdade dos fatos e intenções (Sl 139). Ser reprovado por Deus significa a aplicação do justo juízo divino, o qual intensifica a pratica de mais ações ilícitas, uma vez que tais atitudes geram consequências punitivas por si mesmas. Deus entregou os seres humanos depravados aos “seus maus pensamentos, de modo que eles fazem o que não devem” (Rm 1.28, NTLH). Sem o temor do Senhor no coração, e tendo as mentes deturpadas e incapazes de funcionar com consciência para zelar pelos valores morais humanos, o resultado foi fazer “tudo quanto suas mentes malignas poderiam imaginar” (Rm 1.28, BV).

Segundo Stott (2007, p. 86), os homens com a sua mente depravada são conduzidos não apenas à imoralidade, mas a praticar o que não deviam (Rm 1.28), “evidenciado em uma inúmera variedade de práticas antissociais, as quais, juntas, descrevem a derrocada da comunidade humana, na medida em que os padrões desaparecem e a sociedade se desintegra”. O ser humano entregue a sua depravação gera a sua própria desgraça.

3. Uma lista de pecados (Rm 1.29-32a)

Paulo apresenta uma longa lista de pecados praticados pelos seres humanos depravados em seu ser e por isso são reprovados por Deus. A disposição das mentes deles é fonte para fazer as coisas que saciam sua sede pecaminosa. A lista de pecados registra vinte e um itens encontrados nos versículos finais de Romanos 1. Para Stott, os 21 itens de vícios que compõem a lista não eram incomuns na época, na literatura estoica, judaica e igreja primitiva. Todos os comentaristas parecem concordar que é uma lista que resiste a qualquer classificação mais esmerada.

A identificação dos vícios é dividida por Stott em seis partes, a saber:  1) Começa com quatro pecados generalizados dos quais os seres humanos tornaram-se cheios e diz respeito a toda sorte de injustiça, maldade, ganância e depravação (Rm 1.29); 2) Depois vêm outros cincos pecados que retratam relacionamentos humanos maculados ou rompidos: inveja, homicídio, discórida, engano e malícia (Rm 1.29); 3) Prosseguindo, segundo Stott, vem um par isolado que sublinha a calúnia e a difamação — bisbilhoteiros, caluniadores; 4) Em seguida, outros quatro tipos de pecados que tratam de maneiras de orgulho distintos e extremos: inimigos de Deus, insolentes, arrogantes e presunçosos; 5) Aparece outro par independente de palavras que traduz pessoas que são criativas em relação ao mal e rebeldes em relação a seus pais: inventam maneiras de praticar o mal e são desobedientes aos pais (Rm 1.30); 6) A lista termina com outros graves tipos de pecados: insensatos, desleais, sem amor pela a família e implacáveis (ou como diz a BLH “são imorais, não cumprem a palavra, não têm amor por ninguém e não têm pena dos outros” (Rm 1.31)) (STOTT, 2007, p. 86).

A lista dos pecados descridos por Paulo é a mais longa encontrada nas suas cartas e descreve suficientemente a amplitude da depravação da natureza pecaminosa, porém não significa que os pecados das pessoas se limitavam apenas aos da lista. Wilsom argumenta que Paulo não intencionou oferecer um catálogo completo dos vícios da época, mas apresentar uma descrição dos pecados que dominavam o mundo pagão

[...] O apóstolo não parece seguir nenhuma ordem particular, às vezes há associação “de som e às vezes de sentido” (Brown). Paulo não quis dizer que todos esses pecados se achavam em toda pessoa, indivíduo, mas sim “todos eram culpados de alguns, e alguns eram culpados de todos eles” (Poole) (WILSON, 2007, p. 36).
O apóstolo Paulo termina a sua denúncia tenebrosa aos homens que vivem sem nenhuma proteção divina, declarando um agravante; eles são conhecedores do juízo de Deus. A inocência humana, em relação aos seus atos pecaminosos, foi descartada por Paulo durante o seu discurso, particularmente nos versos 18-28. O apóstolo insiste que o que pode ser conhecido sobre Deus foi suficientemente manifestado pelo próprio Deus (Rm 1.19) e mesmo tendo conhecido a Deus não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças; ao contrário, tornaram fúteis em suas vanglórias e especulações e o seu coração insensível se obscureceu (Rm 1.21). Portanto, a partir daí, Paulo apresenta as claras razões da inversão da verdadeira essência do Deus verdadeiro, a verdadeira essência do deus falso — inclusive os seres humanos que se auto deificam —, das imagens e dos ídolos.

Por isso, Paulo afirma que os seres humanos depravados foram sentenciados “conhecendo bem o decreto de Deus, que declara dignos de morte os que praticam essas coisas” (Rm 1.32a, A21). A palavra grega traduzida por decreto é δικαίωμα (dikaioma), que possui a mesma raiz de justiça (dikaiosyne) e de justo (dikaios). No entanto, a justiça de Deus é também punitiva, e isto em nada afeta a verdade de Deus continuar sendo perfeito em todas as suas ações. Mais à frente, o texto paulino define dois polos que separam definitivamente o homem que tem Deus como seu Salvador e vive sob sua proteção, do homem sem Deus que vive desprotegido por estar fora da graça especial de Deus. A sentença divina anunciada por Paulo em Romanos 6.23 serve como salário para todos os transgressores da justiça divina, os quais são dignos de morte. “Porque o salário do pecado é morte”, entretanto a ruptura da impiedade acontece por um ato de graça “mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Jesus Cristo, nosso Senhor” (A21).

4. Aprovar ato ilícito é cometer pecado (Rm 1.32b)

Nesse trecho, o leitor é confrontado com questões acerca da concordância com alguém em pecado, mesmo sem ter praticado. Paulo deixa claro que os que praticam ações pecaminosas são dignos de morte, porém “não somente as fazem, mas também aprovam os que as praticam” (Rm 1.32b, A21). É verdade que no texto grego não se encontra os dois verbos “aprovar” e “praticar” e sim “parecer” e “fazer”. A frase grega ἀλλὰ καὶ συνευδοκοῦσιν τοῖς πράσσουσιν (ala kai syneudokusin toîs proassoysin) pode ser traduzida por “mas também parecem bem com os que fazem”.

Cranfield (2005, p. 52) descreve com firmeza o que Paulo quis dizer ao afirmar que não apenas os que cometem pecados, mas também os que concordam com os que cometem são dignos de morte:

A frase sugere que aprovar a prática de más ações de outros é ainda mais depravado do que fazê-las [...] que é, de fato, verdade que o homem que aplaude ou encoraja os que praticam algo vergonhoso, embora não o praticando ele mesmo, não só é tão depravado como os que praticam, mas muitas vezes, se não sempre, mais depravado do que eles realmente. Pois os que aplaudem e encorajam as ações perversas de outros contribuem deliberadamente para o estabelecimento de opinião pública favorável ao vício e, com isso, promovem a corrupção de multidão inumerável; eles não terão estado muitas vezes [...], (CRANFIELD, 2005, p. 52).
Portanto, Paulo veta qualquer futura objeção humana, quando se quer livrar do juízo ou tentar se justificar da sua falsa inocência. Uma pessoa pode até ser inocentada pelo juízo humano, mesmo tendo sido o infrator, desde que não tenha suas más ações vistas pelos homens, mas jamais poderá esconder-se aos olhos do Todo Poderoso. Os pecados de todos os seres humanos não são considerados apenas pela mera prática, muito mais que isso, são considerados pecados que produzem depravação total. E mais, toda maldade que nasce no coração e toda concordância para com aqueles que vivem as suas vidas sem nenhum temor ao Deus Criador estão debaixo da justa condenação divina.

Palavras finais

Acabamos de apresentar a denúncia e repúdio de Paulo aos seres humanos depravados. A forte linguagem empregada parece dar a entender que os povos gentios foram alvo particular das denúncias, uma conclusão restrita no que diz respeito à significância e graves consequências do pecado. Visto que todos os seres humanos pecaram, somos direcionados a aplicar a doutrina da depravação pelo pecado a todos os povos que viviam ou que estão vivendo sob domínio da impiedade e injustiça, independentemente das origens étnicas. O próprio Paulo em sua carta aos Efésios descreveu a situação de pessoas que viviam sem Deus, sem nenhuma distinção racial, como se segue:

Anteriormente, todos nós também vivíamos entre eles, satisfazendo as vontades da nossa carne, seguindo os seus desejos e pensamentos. Como os outros, éramos por natureza merecedores da ira. Todavia, Deus, que é rico em misericórdia, pelo grande amor com que nos amou, deu-nos vida juntamente com Cristo, quando ainda estávamos mortos em transgressões — pela graça vocês são salvos (Ef 2.3-5, NVI).
Entretanto, o que parece inacreditável é que, muitas vezes, aqueles que se intitulam cristãos estão tendo os mesmos comportamentos parecidos com os dos pagãos. Pseudo cristãos dizem que têm o conhecimento de Deus, contudo, não fazem a sua vontade. Este assunto Paulo retoma em Romanos 2.1-8, só que desta vez o foco são os moralistas judeus e não judeus, pois eles também cometem pecados e serão julgados por Deus.

É prudente registrar que a descrição dos pecados catalogados por Paulo em Romanos 1.29-32a não deve denotar que são mais graves em relação aos outros que não foram listados, muito menos que devem ser interpretados como se fossem somente estes pecados que foram condenados. Ora, qualquer pecado é pecado mortal e depravador, isto é, qualquer pecado é um desvio de um alvo traçado por Deus, e neste sentido quem se desviar deste alvo é tido como depravado, transgressor. Por isso, nenhum ser humano é isento de pecado, exceto Jesus Cristo, o nosso Grande Deus (Tt 2.13). Quando o cristão autêntico comete pecado, ele deve se sentir contrito, arrependido e confessar perante Deus o seu erro. Esta atitude traduz bem o pleno sentido bíblico da santificação e Paulo destina os capítulos 6 a 8 da carta aos Romanos para tratar desse assunto.

É ainda relevante afirmar que os perfis de depravação apresentados refletiam o contexto da época e eram os pecados mais comuns ou populares no mundo greco-romano. É como se hoje, no século XXI, se pedisse para um pastor cuidadoso e capaz apresentar uma lista dos pecados mais praticados no mundo atual. Certamente essa lista hodierna não teria muita diferença daquela apresentada por Paulo. Pessoalmente, eu relacionaria onze pecados: imoralidade, mentira, assassinato, roubos, fraude, tráfico humano, corrupção, arrogância, nepotismo, idolatria e descriminação/injustiça.

Portanto, na qualidade de cristão regenerado, cada crente deve evidenciar, através da sua prática, a sua fé em Cristo. Os filhos de Deus não são nem vivem como depravados. O povo de Deus foi resgatado da depravação do pecado para ser luz às nações, a fim de que o nome de Cristo seja glorificado (1Pe 2.9).

Em um mundo de pessoas que vivem alienadas de Deus e depravadas pelo pecado, Deus tem homens e mulheres que não se deixam ser vencidos pelo pecado, pessoas que se humilharam e decidiram imitar a Cristo. Que contraste radical! Depravação total versus santidade; vida de pecado versus vida luta contra o pecado. Que Deus nos ajude a servi-lo e adorá-lo sempre!


Bibliografia

Versões bíblicas
A Bíblia Viva. 8.ed. São Paulo: Mundo Cristão, 1995.
Almeida Século 21. São Paulo: Vida Nova; Hagnos, 2008.
Bíblia Shedd. 2.ed. São Paulo: Vida Nova, 1997.
King James Atualizada. Novo Testamento Edições de Estudo. São Paulo: SBIA; Abba, 2007.
Nova Tradução da Linguagem de Hoje. São Paulo: SBB. 2000.
Nova Versão Internacional. Português-Inglês. 3.ed. São Paulo: Vida; 2003.

Comentários bíblicos e referência
ALAND, Barbara; ALAND, Kurt et al., orgs. O Novo Testamento Grego. 4.ed. revisada com introdução em português e dicionário grego-português. Barueri, SP: SBB, 2008.
CABRAL, Elienai. Comentário Bíblico de Romanos. 3.ed. Rio de Janeiro: CPAD, 1988.
CALVINO, João. Sumario de la Institución de la Religion Cristiana. Barcelona: CLIE: 1991.
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CRANFIELD, C. E. B. Comentário de Romanos. São Paulo: Vida Nova, 2005.
ELIADE, Mircea. O Sagrado e o Profano. São Paulo: Martins Fontes, 1992.
GINGRICH, F. Wilbur; DANKER, Frederick W. Léxico do Novo Testamento: Grego/Português. São Paulo: Vida Nova, 1984.
KISTEMAKER, Simon. Comentário do Novo Testamento, Romanos. São Paulo: Cultura Cristã, 2006.
LOPES, Hernandes Dias. Romanos: O evangelho Segundo Paulo. São Paulo: Hagnos, 2010.
LUZ, Waldyr Carvalho. Novo Testamento Interlinear. São Paulo: Hagnos, 2010.
MACDONALD, William. Comentário Bíblico Popular Novo Testamento: Versículo por Versículo. São Paulo: Mundo Cristão, 2008.
NOVO Testamento Interlinear: Grego-Português. 4.ed. Barueri: SBB, 2004.
RADMACHACER, Earl D., org. O Novo Comentário Bíblico Novo Testamento. Rio de Janeiro: Gospel, 2010.
STERN, David. Comentário Judaico do Novo Testamento. São Paulo: Templus & Atos; 2008.
STOTT, John. A Mensagem de Romanos. São Paulo: ABU, 2007.
WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Novo Testamento. Santo André: Geográfica, 2012. Vol. 1.
WILSON, Geoffrey B. Romanos: Um Digesto de Reflexões Reformadas. 2.ed. São Paulo: PES, 2007.
________________________________________________________
1O presente texto faz parte de um projeto de dissertação de mestrado em andamento. Os primeiros manuscritos deste texto foram compartilhados em sala de aula com os alunos do segundo ano noturno, na turma de 2014 do Seminário Betel Brasileiro.
2Almeida Século 21.
3Nova Versão Internacional.
4Os gregos sabiam muito bem o valor do termo δόξα (doxa; glória), do qual deriva o verbo δοξάζω (doxazô; glorificar); ἐδόξασαν “glorificaram”. Na verdade, a melhor tradução deste verbo ἢ ἠυχαρίστησαν é “nem lhe agradeceram”, como a NVI bem traduz “nem o renderam a graças”.
5Nova Tradução da Linguagem de Hoje.
6Correlações: Em Levítico 20.13, a pena de morte é anunciada sobre seus perpetradores. Para mais detalhes sobre esse abominável mal, ver Gn 19.4-9; Lv 18.22; 20.13; Dt 23.17-18; Jz 19.22-24; 1Rs 14.24; 15.12; 22.46; 2Rs 23.7; Is 3.9 e Lm 4.6. No Novo Testamento, veja 1Co 6.9-10; Ef 4.19; 1Tm 1.10; 2Pe 2.6 e Jd 7 (HENDRIKSEN, 2001, p. 104).
7King James Atualizada; e Almeida Revisada e Atualizada.
8Bíblia Viva.
9A ordem da lista dos pecados encontrada na versão Almeida Século 21 difere da lista apresentada por Stott. Vejamos: “Cheios de toda forma de injustiça, malícia, cobiça, maldade, inveja, homicídio, discórdia, engano, depravação; sendo intrometidos, caluniadores, inimigos de Deus, insolentes, orgulhosos, arrogantes, inventores de males, desobedientes aos pais, insensatos, indignos de confiança, sem afeto natural, sem misericórdia” (Rm 1.29-31).
101) Cheios da injustiça. O termo grego ἀδικίᾳ (adkia; injustiça) é uma negação da δικίᾳ (dikia; justiça), isto é, quem é despido de toda espécie de justiça. 2) Cheios de maldade. O termo grego πονηρίᾳ (ponaria) refere-se de uma pessoa maligna, cuja ação é sedutora, não apenas porque ela é má, mas também porque busca arrastar os outros para seu mau caminho. 3) Cheios de avareza. O termo grego empregado é πλεονεξίᾳ (pleoneksia), o qual descreve “o desejo desfreado que não conhece limites nem leis, o desejo insaciável às possessões e aos prazeres ilícitos”. 4) Cheios de ruindade. Aqui Paulo emprega o termo κακίᾳ (kakia), que se refere ao homem que é despido de todo tipo da natureza do bem, pois trata-se da pessoa que tem inclinação para o pior (LOPES, 2010, p. 93).


FONTE: http://www.teologiabrasileira.com.br/teologiadet.asp?codigo=416


23 de abril de 2018

A Igreja da Reforma que precisa de reforma


A igreja precisa ser tolerante, viva, intensa, altruísta e apaixonada,
além de doutrinariamente firme e portadora da verdade de Deus Foto: Pixabay


Luiz Sayão


A Reforma sempre afirmou uma igreja sempre se reformando; por isso, ela deve continuar
A Reforma Protestante completa 500 anos em outubro de 2017. A história da Europa e do mundo ocidental foi profundamente impactada por esse grande movimento religioso. As mudanças sociais, culturais, econômicas, teológicas e espirituais decorrentes do Protestantismo reescreveram a trajetória de diversos povos e lhes conferiu nova identidade. A história ficará marcada pela reforma luterana, anglicana, calvinista e anabatista. As raízes bíblicas da fé cristã primeira moldaram muito da civilização ocidental e a reconfiguraram na Reforma Protestante, especialmente entre os séculos 15 e 16.

Os contornos filosóficos e teológicos do fim da Idade Média exigiam uma releitura da cristandade europeia a partir das origens. Os reformadores, num momento histórico delicado, esboçaram uma caminhada em direção ao cristianismo primitivo, à busca da exegese dos textos bíblicos originais. Rompendo com a tradição católica medieval e o domínio do latim, tiveram de pesquisar o texto bíblico muito além da Vulgata Latina, buscando o mais próximo do original possível. O estudo do Novo Testamento Grego e da Bíblia Hebraica acabaram adquirindo prioridade na tradição protestante desde o início. De fato, a Reforma Protestante representou um retorno à Bíblia. Sola Scriptura foi o grito de Lutero, acompanhado por Calvino, Zuínglio e outras referências da grande reforma religiosa. Essa herança construiu história, principalmente na Europa Central e Setentrional, mas também na América do Norte, e mais recentemente no Brasil e na América Hispânica, fazendo-se também presente na África e na Ásia.

No entanto, o retorno à Bíblia teve significado muito além do religioso. Na verdade, representou um deslocamento de autoridade e uma libertação do indivíduo. As Escrituras tornam-se livro aberto, que podem ser examinadas por todos e devem ser entendidas pelo estudo sistemático. A autoridade do Livro abriu caminho para a hermenêutica, para a liberdade de exame e de consciência, para a educação de todos e para a ciência e o progresso. O sacerdócio universal de todos os crentes estabeleceu a igualdade entre as pessoas, definiu valores que impulsionaram a democracia. Sem a Reforma, a Europa não seria Europa, o Ocidente não seria o Ocidente.

Todavia, a Reforma não foi exatamente um movimento. Foi na realidade uma decorrência de busca de respostas no âmbito teológico, moral, social e econômico do fim da Idade Média. Desde Pedro Valdo (século 12), Jerônimo Savonarola, Jan Huss, até Lutero, Calvino e Zuínglio, temos uma trajetória de diversas demandas de contextos distintos que conduziu uma série de movimentos de mudanças na mesma direção. Era um clamor geral. A resposta encontrada foi o retorno às Escrituras para reescrever a espiritualidade europeia e sua sociedade. Mas, essa não é uma proposta estática. A Reforma sempre afirmou uma igreja sempre reformanda. Ela deve continuar.

Nosso ambiente ocidental tem hoje outra realidade. Há um cenário pós-iluminista, existencialista e secular. É o mundo pós-moderno. Não há referências, e o relativismo impera. A cristandade é vista com desconfiança. É um mundo completamente distinto e novo.

Nossa tradição reformada construiu sua teologia e seu modus operandi no ambiente da modernidade, fundamentada na razão cartesiana. No entanto, o pensamento filosófico contemporâneo reorganizou o nosso mundo. Trata-se de uma realidade pluralista e marcada pela experiência que dá significado à existência. Não é mais o mundo monoteísta racional. A clássica religião proposicional deu lugar ao ambiente da narrativa mística (O sucesso de A Cabana!). A verdade, antes sistemática e aristotélica, elaborada em um ambiente europeu, agora é global e principalmente fluida. A máxima cartesiana, do cogito, ergo sum, na qual a verdade racional é descoberta pelo indivíduo, perde espaço para um mundo intersubjetivo, no qual a verdade é a preferência da comunidade. Que tremendo desafio! Que caminho seguir?

A sabedoria das Escrituras é fascinante. A Bíblia não é um livro medieval ou moderno. Nem é pós-moderno. Mas, sua amplitude e sua exposição das palavras divinas apresentam um texto capaz de dialogar, interagir e alcançar qualquer sociedade e cultura. Por isso, precisamos com urgência retornar nossa atenção para as Escrituras outra vez. Deixando nosso enfoque limitado moderno e racionalista de apresentar o Evangelho, precisamos fazer com que o texto bíblico, a partir de sua própria mensagem, venha impactar o homem pós-moderno secularizado.

A igreja precisa ser tolerante, viva, intensa, altruísta e apaixonada, além de doutrinariamente firme e portadora da verdade de Deus. Que Deus nos abençoe nesta grande missão.



Luiz Sayão é professor em seminários no Brasil e nos Estados Unidos, escritor, linguista e mestre em Língua Hebraica, Literatura e Cultura Judaica pela Universidade de São Paulo (USP).



22 de abril de 2018

O perigo das nossas escolhas



“E levantou Ló os seus olhos, e viu toda a campina do Jordão, que era toda bem regada, antes do Senhor ter destruído Sodoma e Gomorra, e era como o jardim do Senhor, como a terra do Egito, quando se entra em Zoar.” ( Gênesis 13:10).

Ao meditar na história de Ló descrita na Bíblia, fiquei altamente encantada com o conhecimento adquirido. Mais uma vez pude perceber a necessidade que temos de esforça-nos para fazermos as escolhas certas, até porque como disse sabiamente Pablo Neruda: Você é livre para fazer suas escolhas, mas é prisioneiro das consequências”.

A vida realmente é feita se escolhas e é claro que o nosso objetivo principal é fazer escolhas que nos deixem felizes ou que nos permitam alcançar a tal almejada “felicidade”. Como já sabemos a importância que elas têm, por que não cuidarmos para fazermos sempre escolhas que nos trazem consequências positivas? Temos plena convicção de que fazer certas escolhas não é nada fácil, porém se abrirmos a mente veremos que algumas delas, por mais difíceis que pareçam ser no momento, podem nos fazer evitar uma série de problemas futuros.   

Os pastores de Ló, não estavam se relacionando bem com os pastores do seu tio Abraão. Abrão entende que é hora de ambos se separarem, uma escolha sábia, dada a situação atual. De acordo o andar da carruagem uma separação seria inevitável, então o mais adequado era fazer com que a mesma ocorresse de forma passiva, evitando brigas e confusões vindouras. Acreditamos que para Abraão tomar aquela decisão não foi nada fácil, no entanto, analisando a situação como um todo, ele sabia que a separação era inevitável. Abraão tinha apenas duas escolhas, separar por bem ou separar por mal. Ele fez uma escolha sábia.

Primeiro aprendizado: Escolhas sábias evitam perda de tempo.
Olhe a situação como um todo e não se coloque na posição de super-homem, até porque é preciso lembrar que algumas coisas não estão sobre o nosso controle. Não podemos controlar tudo, muito menos às pessoas. Visualize a situação atual e faça uma previsão de como a mesma estará daqui a cinco anos. Dependendo de como vemos as coisas, podemos perder cinco anos da nossa vida, para fazer uma escolha, que pode ser feita no momento presente nos proporcionando os mesmos resultados.
Abraão dá a Ló a oportunidade de escolher o caminho por onde seguir, de forma que ele seguiria o caminho contrário. Ló então olha para a campina do Jordão e se encanta pelas terras, armando as suas tendas até Sodoma. Mesmo sabendo que os homens daquele lugar eram maus e pecadores contra Deus, Ló opta por Sodoma.

Segundo aprendizado: Não se iluda com as aparências.
Ló na sua visão, havia feito a melhor escolha, optou por uma terra que facilmente poderia dar o sustento tanto para ele e sua família, como para os seus pastores e animais. Diferente de alguns espias, enviados por Moisés para Canaã que só analisaram o lado negativo da terra, Ló simplesmente se deteve ao lado positivo de Sodoma.
Antes de fazer qualquer escolha é preciso de antemão fazer uma análise de toda a situação, afinal de contas, tudo nesta vida, tem o lado positivo e o lado negativo. Cabe a nós pesarmos na balança e ver se realmente determinada escolha vale à pena. Não podemos nos iludir com as aparências, até porque, nem tudo que parece é. Nós seres humanos somos facilmente enganados por caminhos que nos aparenta serem mais curtos e mais fáceis. Atalhos são perigosos, principalmente porque dificilmente aparecem nos mapas.
O clamor contra Sodoma cresceu e Deus resolveu destruir aquele lugar. E Ló e toda a sua família iriam ser destruídos juntos, mas Abraão intercede por ele e Deus decide livrá-lo.

Terceiro aprendizado: Escolhas erradas nos levam a estar em lugares errados, em momentos errados e com as pessoas erradas.
Ló fez uma escolha e sua escolha colocou a vida dele e de toda a sua família em risco. Deus iria destruir aquele lugar por um motivo, e Ló iria ser destruído junto, tudo porque simplesmente estava no lugar errado, na hora errada, com as pessoas erradas.
É preciso saber bem, quem são as pessoas as quais decidimos nos associar, pois talvez as mesmas possam estar sentenciadas ao fracasso e a mesma sentença pode recair sobre nós, não por merecimento é claro, mas simplesmente pela nossa decisão de acompanhá-las.

Deus tem lindos projetos para mim e para você, o que devemos fazer é ter bastante cuidado com quem incluímos nestes projetos. Deus pode aprovar o nosso projeto, no entanto pode reprovar os nossos sócios.





20 de abril de 2018

O Significado Bíblico de "Misericórdia Quero, e Não Sacrifício"





Jeremias: - "Porque nunca falei a vossos pais, no dia em que os tirei da terra do Egito, nem lhes ordenei coisa alguma acerca de holocaustos ou sacrifícios". (Jr 7:22)

O Senhor Jesus ordenou aos fariseus e escribas que aprendessem o significado da ordem: - "Misericórdia quero, e não sacrifício’ "Ide, porém, e aprendei o que significa: Misericórdia quero, e não sacrifício” (Mt 9:13), certamente porque aqueles homens doutos da religião judaica desconheciam o significado da ordem divina.

Os escribas e fariseus eram homens versados na lei mosaica e estudavam os salmos e os profetas. Inclusive consideravam o povo como malditos porque nada conheciam da lei (Jo 7:49). Mas, a despeito de todo conhecimento que julgavam ter, Jesus mandou que fossem e aprendessem o significado da Escritura que diz: ‘Misericórdia quero, e não sacrifícios’ (Os 6:6).

Se os doutores à época desconheciam o verdadeiro significado do exigido por Deus, será que o homem do nosso tempo conseguiu aprender o que Jesus ordenou? Qual é a misericórdia que Deus exige?

É suficiente ir aos dicionários e pesquisar o sentido do termo ‘misericórdia’? O que dizem os dicionários?

É comum ouvir que ‘misericórdia’ diz de uma virtude, ou um sentimento que leva os homens a se compadecerem da miséria alheia. Termos como: piedade, compaixão, amor, caridade, etc., são traduzidos por misericórdia e comumente utilizados para fazer referencia ao sentimento despertado diante da infelicidade do outro.

O significado bíblico de misericórdia encontra-se no evento em que Samuel repreende o rei Saul, portanto se faz necessário rever todas as nuances da história que narra o extermínio dos amalequitas.

Quando o povo de Israel foi tirado do Egito, os Amalequitas saíram ao campo de batalha contra Israel, e Deus fez o seguinte juramento: “Escreve isto para memória num livro, e relata-o aos ouvidos de Josué; que eu totalmente hei de riscar a memória de Amaleque de debaixo dos céus” ( Ex 17:14 ).

Passado muitos anos, o povo de Israel pediu um rei ( 1Sm 10:19 ), e Saul foi aclamado rei ( 1Sm 10:24 ). Ao cabo de dias, veio a palavra do Senhor a Samuel incumbindo Saul com a missão de exterminar completamente os amalequitas “ENTÃO disse Samuel a Saul: Enviou-me o SENHOR a ungir-te rei sobre o seu povo, sobre Israel; ouve, pois, agora a voz das palavras do SENHOR. Assim diz o SENHOR dos Exércitos: Eu me recordei do que fez Amaleque a Israel; como se lhe opôs no caminho, quando subia do Egito. Vai, pois, agora e fere a Amaleque; e destrói totalmente a tudo o que tiver, e não lhe perdoes; porém matarás desde o homem até à mulher, desde os meninos até aos de peito, desde os bois até às ovelhas, e desde os camelos até aos jumentos” (1Sm 15: 1-3).

Saul convocou o povo para a batalha e emboscou a cidade de Amaleque. Como na cidade estavam os queneus, Saul deu ordem aos queneus que deixassem a cidade para que não fossem destruídos juntamente com os amalequitas (1Sm 15:6). Esta determinação se deu pelo fato de os queneus terem sido ‘misericordiosos’, pelo que Deus os preservou em vida (1Sm 15:6).

Ora, em primeira Samuel 15, verso 6, o termo ‘misericórdia’ é empregado segundo o que consta nos dicionários, pois os queneus tiveram piedade dos filhos de Israel quando no deserto.

A bíblia descreve que após os queneus se retirarem do meio dos amalequita, Saul promoveu segundo o que Deus lhe ordenara uma carnificina, pois foram mortos crianças, mulheres, velhos, homens, etc.: ‘feriu Saul aos amalequitas desde Havilá até chegar a Sur, que está defronte do Egito’ ( 1Sm 15:7 ).

Mas, da matança empreendida, Saul e o povo acharam por bem preservar a vida de Agague, o rei dos amalequitas e o melhor das ovelhas e vacas ( 1Sm 15:8 -9). Saul e o povo não quiseram destruir totalmente os amalequitas, contrariando uma ordem expressa de Deus, consequentemente, o juramento que Deus fez a Moisés não se cumpriu ( Ex 17:14 ).

Sob a ótica humana, o que Saul fez foi usar de ‘misericórdia’ para com Agague, pois poupou a vida de Agague. Mas, e a ordem de Deus?

Em seguida veio a palavra de Deus ao profeta Samuel, dizendo: “Arrependo-me de haver posto a Saul como rei; porquanto deixou de me seguir, e não cumpriu as minhas palavras” ( 1Sm 15:11 ).

Saul entendia que havia cumprindo a ordem de Deus ( 1Sm 15:13 ), porém, esta foi a palavra de Deus: “Porventura, sendo tu pequeno aos teus olhos, não foste por cabeça das tribos de Israel? E o SENHOR te ungiu rei sobre Israel. E enviou-te o SENHOR a este caminho, e disse: Vai, e destrói totalmente a estes pecadores, os amalequitas, e peleja contra eles, até que os aniquiles. Por que, pois, não deste ouvidos à voz do SENHOR, antes te lançaste ao despojo, e fizeste o que parecia mau aos olhos do SENHOR?” ( 1Sm 15:17 -19).

Diante do exposto por Deus, aniquilar os amalequitas aos olhos de Deus era o ‘bem’, e preservar uma única alma com vida o ‘mau’! Mas, Saul ainda não havia se dado conta do que fizera e contra argumenta: “Antes dei ouvidos à voz do SENHOR, e caminhei no caminho pelo qual o SENHOR me enviou; e trouxe a Agague, rei de Amaleque, e os amalequitas destruí totalmente; Mas o povo tomou do despojo ovelhas e vacas, o melhor do interdito, para oferecer ao SENHOR teu Deus em Gilgal” ( 1Sm 15:20 -21).

Neste evento a lição da misericórdia está sendo ensinada por Deus, mas os escribas e fariseus, apesar de examinadores das Escrituras, ainda não haviam aprendido: “Porém Samuel disse: Tem porventura o SENHOR tanto prazer em holocaustos e sacrifícios, como em que se obedeça à palavra do SENHOR? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar; e o atender melhor é do que a gordura de carneiros. Porque a rebelião é como o pecado de feitiçaria, e o porfiar é como iniquidade e idolatria. Porquanto tu rejeitaste a palavra do SENHOR, ele também te rejeitou a ti, para que não sejas rei” ( 1Sm 15:22 -23).

O prazer de Deus está em que o homem obedeça a sua palavra, e não em sacrifícios. Esta é uma verdade que ecoa por toda a Escritura, a mesma Escritura que os escribas e fariseus manuseavam:

"Pois não desejas sacrifícios, senão eu os daria; tu não te deleitas em holocaustos" ( Sl 51:16 );
"Fazer justiça e juízo é mais aceitável ao SENHOR do que sacrifício" ( Pv 21:3 );
"De que me serve a mim a multidão de vossos sacrifícios, diz o SENHOR? Já estou farto dos holocaustos de carneiros, e da gordura de animais cevados; nem me agrado de sangue de bezerros, nem de cordeiros, nem de bodes" ( Is 1:11 );
"Porque nunca falei a vossos pais, no dia em que os tirei da terra do Egito, nem lhes ordenei coisa alguma acerca de holocaustos ou sacrifícios" ( Jr 7:22 );
"Porque eu quero a misericórdia, e não o sacrifício; e o conhecimento de Deus, mais do que os holocaustos" ( Os 6:6 ).

Deus não estava interessado em sacrifícios de bois e carneiros, antes na ‘misericórdia’ "Porque eu quero a misericórdia, e não o sacrifício; e o conhecimento de Deus, mais do que os holocaustos" ( Os 6:6 ).

Deus exige do homem ‘misericórdia’, mas que tipo de misericórdia? Para Saul, misericórdia significava destruir completamente os amalequitas. Enquanto Saul estava matando velhos, crianças, moças, mulheres, homens, etc., estava sendo ‘misericordioso’, mas quando decidiu preservar Agague, Saul deixou de ser ‘misericordioso’.

Qual o significado de ‘misericórdia’ que é exigida por Deus através de Oséias? Qual o conceito de ‘mau’ empregado por Deus ao falar a Saul por intermédio de Samuel?

Ora, através do que foi analisado até o momento, verifica-se que o conceito de ‘misericórdia‘ exigido por Deus destoa do significado que consta nos dicionários: A ‘misericórdia’ que Deus exige do homem significa obediência à Sua palavra.

Este significado que a bíblia apresenta acerca da ‘misericórdia’ decorre dos adágios, enigmas, parábolas e símiles existentes nas Escrituras que Deus apresentou por intermédio dos seus profetas ( Mt 13:35 ). É em função desta peculiaridade que o significado de misericórdia na bíblia possui uma tradução variável, sendo traduzido por vezes por: amor, caridade, compaixão, etc., porém, o conceito que emerge do termo é ‘obediência’. Compare:

"Porque eu quero a misericórdia, e não o sacrifício” ( Os 6:6 );

“Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar” ( 1Sm 15:22 ).

Quando enviou Saul para destruir os amalequitas, Deus estava velando para cumprir a sua palavra, e Saul que se dizia servo de Deus não teve compromisso com a ordenança de Deus.

Por não cumprir cabalmente o ordenado por Deus, Saul foi rejeitado. Ao desobedecer a palavra de Deus Saul tornou-se abominável a Deus, comparável a um idolatra ou feiticeiro.

Deus não queria nada do interdito, antes cumprir o seu juramento que fizera a Moises, de modo que a vontade de Deus era que Saul obedecesse a sua palavra.

Ora, enquanto Saul exterminava os amalequitas, estava obedecendo, estava tributando a Deus a ‘misericórdia’ exigida. Como Saul não foi ‘benigno’ matando todos os amalequitas, antes fez o que era mau aos olhos de Deus, Deus mostrou-se indomável a Saul “Com o benigno te mostrarás benigno; e com o homem sincero te mostrarás sincero; Com o puro te mostrarás puro; e com o perverso te mostrarás indomável” ( Sl 18:25 -26).

O benigno, o sincero, o puro, o misericordioso é aquele que obedece a palavra do Senhor. A palavra proferida por Deus “E faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos" ( Êx 20:6 ), é Deus apresentando o princípio da misericórdia ao povo lá no Êxodo, esta palavra não sofreu variação, não mudou ao longo dos tempos.

Quando Jesus diz: “Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia” ( Mt 5:7 ), estava demonstrando que somente alcançam misericórdia aqueles que guardam o mandamento de Deus. Os que ‘obedecem’ a ordenança de Deus são os ‘misericordiosos’, ou os que ‘amam’ a Deus, por conseguinte, são aqueles de quem Deus tem misericórdia.

Deus apresentou seu princípio da misericórdia que Ele mesmo exige na Lei, e não deixou de apresentá-la nos profetas. O protesto de Deus através de Oséias demonstra que a misericórdia exigida é o amor, a obediência: “Que te farei, ó Efraim? Que te farei, ó Judá? Porque a vossa benignidade é como a nuvem da manhã e como o orvalho da madrugada, que cedo passa” ( Os 6:4 ). O termo ‘benignidade’ é traduzido também por ‘amor’, ‘misericórdia’ e ‘obediência’.

Neste ponto é possível compreender a fala de Deus a Moisés: "Pois diz a Moisés: Compadecer-me-ei de quem me compadecer, e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia" ( Rm 9:15 ). Ora, Deus estabeleceu que terá misericórdia dos ‘misericordiosos’, ou seja, daqueles que deixam o seus pensamentos e que se convertem ao Senhor "Deixe o ímpio o seu caminho, e o homem maligno os seus pensamentos, e se converta ao SENHOR, que se compadecerá dele; torne para o nosso Deus, porque grandioso é em perdoar" (Is 55:7).

Quando Samuel ordenou que trouxesse a Agage, o rei amalequita, e o despedaçou, cumpriu o mandamento de Deus e, consequentemente, a palavra que Deus havia prometido a Moisés cumpriu-se cabalmente ( 1Sm 15:33 ). Naquele momento Samuel exerceu a ‘misericórdia’ exigida por Deus. Samuel realizou o que era bom aos olhos de Deus, pois na condição de servo do Senhor levou a cabo a promessa que Deus fizera a Moisés.

Somente compreendendo que a ‘misericórdia’ exigida por Deus é obediência à sua palavra, é possível interpretar o alerta: "Ide, porém, e aprendei o que significa: Misericórdia quero, e não sacrifício. Porque eu não vim a chamar os justos, mas os pecadores, ao arrependimento" ( Mt 9:13 ).

A importância desta fala de Jesus destaca-se pelo fato de três evangelista registrarem a convocação de Levi para ser discípulo: Mateus, Marcos e Lucas ( Mt 9:9 -13 ; Mc 2:13 -17; Lc 5:27 -32).

Os elementos para analisarmos a misericórdia e compreendermos a citação que Jesus faz do profeta Oséias possuía como plano de fundo a história da vocação de Mateus. Jesus passou pela recebedoria e convidou o cobrador de impostos a tornar-se discípulo, e em resposta Mateus não fez caso do serviço que desempenhava junto aos Romanos, pois deixou tudo e seguiu a Jesus.

Em seguida, conforme narra o evangelista Lucas, Mateus fez um grande banquete e muitos publicanos e pecadores reuniram-se em sua casa para comerem ( Lc 5:29 ).

Aquela profusão de pecadores e publicanos assentados com Jesus à mesa para comer fez os escribas e fariseus murmurarem e perguntarem aos discípulos de Jesus: - “Por que come o vosso Mestre com os publicanos e pecadores?”

A resposta de Jesus ecoou no recinto em tom de reprimenda à murmuração dos escribas e fariseus:

“Jesus, porém, ouvindo, disse-lhes: Não necessitam de médico os sãos, mas, sim, os doentes. Ide, porém, e aprendei o que significa: Misericórdia quero, e não sacrifício. Porque eu não vim a chamar os justos, mas os pecadores, ao arrependimento” ( Mt 9:12 -13 ).

Ao demonstrar que os que precisam de médico são os doentes, e não os sãos, Jesus enfatizou qual era a sua missão. Não há registro de que naquele banquete Jesus tenha realizado algum sinal miraculoso, o que dá a entender que a missão precípua de Jesus refere-se a salvar a humanidade do pecado, visto que Ele veio chamar os pecadores a uma mudança de concepção (metanoia).

O profeta Isaias descreveu o Messias como aquele que levaria sobre si as ‘nossas enfermidades’, e o termo ‘enfermidade’ é uma figura utilizada para retratar o pecado da humanidade. Ao assentar-se com os pecadores para banquetear-se, Jesus estava em busca dos perdidos, dos pecadores, dos enfermos, pois Ele veio para levar sobre si as enfermidades “Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e as nossas dores levou sobre si; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus, e oprimido” ( Is 53:4 ).

Este é um dos aspectos da profecia: através de figuras representa a realidade. Através de enigmas, parábolas, símiles, etc., têm-se elementos distintos que evidenciam uma ideia por similaridade, comparação "Falei aos profetas, e multipliquei a visão; e pelo ministério dos profetas propus símiles" ( Os 12:10 ).

Atualmente é comum entender que as ‘enfermidades’ que Jesus levou sobre si referem-se às enfermidades físicas em virtude das ações miraculosas que Cristo operou em meio ao povo, porém, as ‘enfermidades’ e as ‘dores’ que Jesus levou sobre si, na verdade, referem-se às transgressões, às iniquidades, ou seja, ao pecado da humanidade “Mas ele foi ferido por causa das nossas transgressões, e moído por causa das nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados” (Is 53:5).

A propositura de símiles através dos profetas visava trazer à compreensão do homem que o pecado se assemelhava a uma enfermidade. Jesus não levou ao calvário cegueira, lepra, paralisia, epilepsia, etc., antes ele foi moído pelo pecado da humanidade. A enfermidade que pesava sobre a humanidade diz da morte, da separação, da inimizade que se estabeleceu entre Deus e os homens em função da ofensa de Adão.

É em razão de todos os homens se desviarem e juntamente se tornarem imundos que foi do agrado do Pai fazer o Cristo enfermar (moê-Lo) ao colocá-Lo por expiação do pecado “Todavia, ao SENHOR agradou moê-lo, fazendo-o enfermar; quando a sua alma se puser por expiação do pecado, verá a sua posteridade, prolongará os seus dias; e o bom prazer do SENHOR prosperará na sua mão” ( Is 53:10 ); “Desviaram-se todos, e juntamente se fizeram imundos; não há quem faça o bem, não, nem sequer um” ( Sl 53:4 ).

Mas, se Deus prometeu enviar o Messias para expiar o pecado do povo, é obvio que com esta ação Deus estava demonstrando que o povo era pecador ( Mq 1:5 ). Seria um contra senso Deus colocar o seu Filho Unigênito por expiação do seu povo, se o povo não fosse pecador ( Mt 1:21 ).

Como Deus pôs a alma do Messias por expiação do pecado, certamente o povo tinha que reconhecer-se pecador. Como veio salvar os ‘enfermos’, neste caso, Jesus não seria de proveito algum para os que presumiam que não estavam enfermos "Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e as nossas dores levou sobre si; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus, e oprimido" ( Is 53:4 ).

É necessário a qualquer que deseja a salvação reconhecer seu estado de perdição, assim como era necessário aos escribas e fariseus reconhecerem que estavam perdidos como ovelhas desgarradas, pois o Cristo foi enviado aos perdidos, enfermos "Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo seu caminho; mas o SENHOR fez cair sobre ele a iniquidade de nós todos" ( Is 53:6 ).

Jesus anunciou ter sido enviado as ovelhas perdidas da casa de Israel quando os discípulos rogaram que despedisse a mulher Cananéia: - “Senhor, Filho de Davi, tem de misericórdia de mim, que a minha filha esta miseravelmente endemoniada” ( Mt 15:22 ); "E ele, respondendo, disse: Eu não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel" ( Mt 15:24 ).

Embora não quisessem enxergar a verdade, através desta parábola Jesus demonstra que os israelitas estavam fatalmente perdidos, enfermos “E aqueles dos fariseus, que estavam com ele, ouvindo isto, disseram-lhe: Também nós somos cegos? Disse-lhes Jesus: Se fôsseis cegos, não teríeis pecado; mas como agora dizeis: Vemos; por isso o vosso pecado permanece” ( Jo 9:40 -41).

Os escribas e fariseus entendiam que não eram como os demais homens, pecadores, e chegavam ao ponto de acreditarem que observavam a lei cabalmente. Eles não se sentiam necessitados, órfãos, pobres, tristes, oprimidos, antes acreditavam que tinham Abraão por pai, portanto, se consideram abastados, salvos ( Mt 23:28 ).

Um enfermo reclama de suas dores e um pecador, por sua vez, dos seus pecados, mas dos judeus ouvia-se somente que nunca foram escravos de ninguém. Sob esta ótica, se não estavam perdidos, porque esperavam um salvador? Eles desejavam um redentor nacional, mas Deus havia providenciado redenção do pecado. Daí a fala do apóstolo Paulo: "Se esperamos em Cristo só nesta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens" ( 1Co 15:19 ).

A fala dos judeus frente à mensagem de Cristo era como se não necessitassem da intervenção divina para serem salvos. Com provérbio “Os sãos não necessitam de médico”, Jesus demonstrou que fora enviado aos perdidos, ou seja, a todos os homens, porém, os judeus estavam apegados à lei, à circuncisão e à descendência de Abraão para serem salvos.

Os escribas e fariseus precisavam reconhecer que estavam enfermos para serem beneficiados com a vinda do Messias. Mas, os dizeres dos escribas e fariseus era como a de uma ovelha gorda e forte "A perdida buscarei, e a desgarrada tornarei a trazer, e a quebrada ligarei, e a enferma fortalecerei; mas a gorda e a forte destruirei; apascentá-las-ei com juízo" ( Ez 34:16 ).

Diante da mensagem do evangelho alguns pareciam dar credito, visto que muitos vieram ao batismo de João, e outros até creram em Cristo, porém, quando eram postos à prova, tais judeus apresentavam a argumentação de que nunca foram escravos de ninguém, que eram filhos de Abraão, etc. ( Jo 8:31 e Mt 3:9 ).

Jesus não veio convocar os livres, porém os seus interlocutores alegavam nunca terem sido escravos de ninguém ( Jo 8:33 ). Jesus veio buscar os perdidos, os doentes, os necessitados, os tristes, etc., porém, os filhos de Jacó consideravam nunca terem transgredido a aliança de Deus “E saindo o pai, instava com ele. Mas, respondendo ele, disse ao pai: Eis que te sirvo há tantos anos, sem nunca transgredir o teu mandamento, e nunca me deste um cabrito para alegrar-me com os meus amigos” ( Lc 15:29 ).

Neste diapasão, muitos dos filhos de Jacó achavam ter uma condição diferenciada diante de Deus por não se comportarem conforme os demais homens: "O fariseu, estando em pé, orava consigo desta maneira: Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros; nem ainda como este publicano" ( Lc 18:11 ; Lc 13:1 -2).

Os escribas e fariseus presumiam de si mesmos que tinham por pai Abraão ( Mt 3:9 ), pelo fato de serem descendente da carne de Abraão, entretanto, somente os que pertencem a Cristo são filhos de Deus "E, se sois de Cristo, então sois descendência de Abraão, e herdeiros conforme a promessa" ( Gl 3:29 ).

Por se acharem justos é que Jesus conta a parábola das cem ovelhas, demonstrando que a ‘ovelha perdida’ são aqueles que reconhecem a sua real condição e, por isso, Jesus veio em busca delas, e as ‘noventa e nove ovelhas no deserto’ referem-se àqueles que são justos aos seus próprios olhos, pois presumem que não estão perdidas e que não necessitam de arrependimento “Digo-vos que assim haverá alegria no céu por um pecador que se arrepende, mais do que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento” ( Lc 15:7 ).

Para aprenderem o que significa ‘misericórdia quero’, os escribas e fariseus teriam que ler Oseias 6, onde vem expresso o convite para se converterem ao Senhor, pois foi Deus quem os despedaçou e feriu, mas caso arrependessem, Deus haveria de sará-los “VINDE, e tornemos ao SENHOR, porque ele despedaçou, e nos sarará; feriu, e nos atará a ferida. Depois de dois dias nos dará a vida; ao terceiro dia nos ressuscitará, e viveremos diante dele” ( Os 6:1 ; Dt 28:63 ).

Se Deus prometia dar vida aos filhos de Israel, ressuscitando-os, significa que estavam mortos perante o Senhor. Somente após obterem a vida proveniente d’Ele, os arrependidos poderiam conhecê-Lo e prosseguir em conhecê-Lo.

O profeta Oseias compara a vinda do Senhor como a aurora. A mesma certeza que se tem que o sol virá, é a certeza quanto à vinda do Senhor, e a sua vinda seria como a chuva serôdia, pois trará vida a toda erva do campo ( Os 6:1 ; Sl 72:6 ).

Mas, diante da rebeldia de Efraim e de Judá Deus pergunta: - ‘Que te farei, ó Efraim? Que te farei, ó Judá? Porque a vossa benignidade é como a nuvem da manhã e como o orvalho da madrugada, que cedo passa’ ( Os 6:4 ). O termo ‘benignidade’ aqui apresentado possui o mesmo valor de amor, misericórdia e obediência.

Como os da casa de Jacó não obedeciam a Deus segundo a sua palavra, Deus apresenta o motivo pelo qual os abateu através dos profetas. Moisés foi um dos profetas que previu que os filhos de Jacó deixaria o caminho do Senhor e cada um seguiria os seus próprios conceitos, e por isso seriam castigados ( Os 6:5 ).

Enquanto não fizessem esta oração do salmista, não seriam atendidos: "Venha perante a tua face o gemido dos presos; segundo a grandeza do teu braço preserva aqueles que estão sentenciados à morte" ( Sl 79:11 ), pois foi isto que Deus ordenou por intermédio de Moisés: “Porque introduzirei o meu povo na terra que jurei a seus pais, que mana leite e mel; e comerá, e se fartará, e se engordará; então se tornará a outros deuses, e os servirá, e me irritarão, e anularão a minha aliança. E será que, quando o alcançarem muitos males e angústias, então este cântico responderá contra ele por testemunha, pois não será esquecido da boca de sua descendência; porquanto conheço a sua boa imaginação, o que ele faz hoje, antes que o introduza na terra que tenho jurado” ( Dt 31:20 -21).

Dai o apelo: - “Porque eu quero a misericórdia, e não o sacrifício; e o conhecimento de Deus, mais do que os holocaustos”. Israel não reconhecia que transgredira a aliança em Adão, o que os tornava aleivosos “Mas eles transgrediram a aliança, como Adão; eles se portaram aleivosamente contra mim” ( Os 6:7 ). Adão, o primeiro pai da humanidade havia pecado, e todos pecaram, inclusive os filhos de Jacó ( Is 43:27 ), porém, achavam que por serem descendentes da carne de Abraão eram filhos de Abraão. Prevaricaram na interpretação.

Por causa da multidão de sacrifícios que traziam ao templo, o povo de Israel entendia que era aceito por Deus, mas o que era importante negligenciavam: a obediência "Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que dizimais a hortelã, o endro e o cominho, e desprezais o mais importante da lei, o juízo, a misericórdia e a fé; deveis, porém, fazer estas coisas, e não omitir aquelas" ( Mt 23:23 ).

O que desprezavam? Que o juízo de Deus será sem misericórdia para com aqueles que não usaram de misericórdia! "Porque o juízo será sem misericórdia sobre aquele que não fez misericórdia; e a misericórdia triunfa do juízo" ( Tg 2:13 ). Ora, a ovelha gorda é a que não fez misericórdia, será apascentada com juízo "A perdida buscarei, e a desgarrada tornarei a trazer, e a quebrada ligarei, e a enferma fortalecerei; mas a gorda e a forte destruirei; apascentá-las-ei com juízo" ( Ez 34:16 ).

Quando os filhos de Jacó não se lembraram de fazer misericórdia? Quando o aflito de Deus veio ao mundo para levar sobre si as enfermidades dos filhos do seu povo, não creram n’Ele, antes perseguiram o homem aflito de Deus – Jesus ( Is 53:7 ). Não atenderam o convite do homem que era humilde e manso de coração "Porquanto não se lembrou de fazer misericórdia; antes perseguiu ao homem aflito e ao necessitado, para que pudesse até matar o quebrantado de coração" ( Sl 109:16 ; Mt 11:29 ).

Deveriam obedecer da lei os estatutos que versavam sobre a ‘misericórdia’ e a ‘fé’, em lugar de se lançarem aos sacrifícios ( Is 1:11 ).

Apesar do privilégio de manusearem as Escrituras constantemente, os lideres de Israel, rejeitavam a palavra de Deus. Não lançavam mão da recomendação do profeta Oséias, pois em lugar de sacrifícios, os escribas e fariseus deveriam tomar consigo palavras: "Tomai convosco palavras, e convertei-vos ao SENHOR; dizei-lhe: Tira toda a iniquidade, e aceita o que é bom; e ofereceremos como novilhos os sacrifícios dos nossos lábios" ( Os 14:2 ), o que demonstraria que reconheciam que haviam caído juntamente com toda a humanidade e necessitavam de Deus “CONVERTE-TE, ó Israel, ao SENHOR teu Deus; porque pelos teus pecados tens caído” ( Os 14:1 ); "Porque Deus encerrou a todos debaixo da desobediência, para com todos usar de misericórdia" ( Rm 11:32 ).

Mas, porque Deus exige palavras em lugar dos sacrifícios? Porque as palavras evidenciam o que há no coração. Se o homem reconhece que é pecador e admite que Jesus é o Filho de Deus, demonstra que verdadeiramente arrependeu-se dos seus conceitos e que verdadeiramente crê em Cristo.

Mas, se com a boca continuam a confessar conforme os escribas e fariseus alegando ter por pai Abraão, demonstram que não se arrependeram e que confessam o que há em seus corações perversos "Raça de víboras, como podeis vós dizer boas coisas, sendo maus? Pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca" ( Mt 12:34 ); "Cada um se fartará do fruto da sua boca, e da obra das suas mãos o homem receberá a recompensa" ( Pv 12 : 14); "Do fruto da boca de cada um se fartará o seu ventre; dos renovos dos seus lábios ficará satisfeito" ( Pv 18:20 ).

Se obedecessem a mensagem do evangelho, os escribas e fariseus se apresentariam com as seguintes palavras: “Pai, pequei contra o céu e perante ti, e já não sou digno de ser chamado teu filho” ( Lc 15:21 ), e Deus os receberia por filhos. Este seria o sacrifício verdadeiro segundo o que diz o salmista: "Os sacrifícios para Deus são o espírito quebrantado; a um coração quebrantado e contrito não desprezarás, ó Deus" ( Sl 51:17 ); "Porque nunca falei a vossos pais, no dia em que os tirei da terra do Egito, nem lhes ordenei coisa alguma acerca de holocaustos ou sacrifícios" ( Jr 7:22 ).

Jesus veio chamar os pecadores a uma mudança de concepção (arrependimento), enquanto os justos aos seus próprios olhos permanecem apegados a sua própria concepção. Os que creem em Cristo passam a oferecer o sacrifício dos lábios, confessando a Cristo como salvador ( Hb 13:15 ).

Dai o alerta do pregador: “Há uma geração que é pura aos seus próprios olhos, mas que nunca foi lavada da sua imundícia” ( Pv 30:12 ), pois os justos aos seus próprios olhos não se deixam lavar da imundícia oriunda da ofensa de Adão.

Quando disse que ‘não veio chamar os justos, mas os pecadores, ao arrependimento’, Jesus esta alertando os seus ouvintes segundo o previsto nas Escrituras, de que o Cristo seria enviado às ovelhas perdidas da casa de Israel, mas os seus não o receberam ( Mt 15:24; Jo 1:11 ).

O publicano Mateus não fez caso do cargo que exercia quando foi chamado na recebedoria, pois largou tudo e seguiu após Jesus, assim como Simão, João e Tiago ( Lc 5:11 e 28). Agiram como o crente Abraão quando saiu do meio da sua parentela diante da ordem divina.

Diante do chamado de Cristo, o cobrador de impostos não o negou diante dos homens “Portanto, qualquer que me confessar diante dos homens, eu o confessarei diante de meu Pai, que está nos céus. Mas qualquer que me negar diante dos homens, eu o negarei também diante de meu Pai, que está nos céus. Não cuideis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer paz, mas espada; Porque eu vim pôr em dissensão o homem contra seu pai, e a filha contra sua mãe, e a nora contra sua sogra; E assim os inimigos do homem serão os seus familiares. Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a mim não é digno de mim. E quem não toma a sua cruz, e não segue após mim, não é digno de mim. Quem achar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a sua vida, por amor de mim, achá-la-á. Quem vos recebe, a mim me recebe; e quem me recebe a mim, recebe aquele que me enviou” ( Mt 10:32 -40).

Diante da oposição dos escribas e fariseus, Levi não se fez de rogado, antes amou o Cristo.

Muitos dos principais não fizeram o mesmo que Levi por estarem interessados na glória dos homens “Apesar de tudo, até muitos dos principais creram nele; mas não o confessavam por causa dos fariseus, para não serem expulsos da sinagoga. Porque amavam mais a glória dos homens do que a glória de Deus” ( Jo 12:42 -43).

Os escribas e fariseus portavam-se como Saul que, diante do povo, buscava ser aclamado, e por duas vezes rejeitou a ordem de Deus "Como podeis vós crer, recebendo honra uns dos outros, e não buscando a honra que vem só de Deus?" ( Jo 5:44 ).

Saul buscava somente ser honrado diante do povo, e tornou-se indigno diante de Deus. No segundo ano do seu reinado, Saul travou batalha contra os filisteus. Os homens de Israel foram postos em aperto no campo de batalha e fugiram e se esconderam. Samuel havia determinado que viria a Saul em sete dias, porém, como Samuel não chegou e o povo estava se dispersando, Saul lançou mão dos holocaustos e das ofertas pacificas e ofereceu holocausto ( 1Sm 13:9 ).

Quando interpelado por Samuel, Saul argumentou: “Disse Saul: Porquanto via que o povo se espalhava de mim, e tu não vinhas nos dias aprazados, e os filisteus já se tinham ajuntado em Micmás, Eu disse: Agora descerão os filisteus sobre mim a Gilgal, e ainda à face do SENHOR não orei; e constrangi-me, e ofereci holocausto” ( 1Sm 13:11 -12).

Saul pensou que a benevolência de Deus decorria da oferta de sacrifícios, e tomou uma decisão com base em seus sentimentos, pois sentiu-se constrangido a sacrificar.

Ao guiar-se pelo que pensava e sentia, Saul não guardou o mandamento de Deus, procedendo como um louco ( 1Sm 13:13 ).

Mas, apesar do aviso de que procedera nesciamente, Saul não se socorreu da lei para instrui-se, e diante de uma ordem expressa de Deus, temeu o povo e violou o mandamento de Deus ( 1Sm 15:24 ). Quando confessou que havia pecado, o interesse era de que Samuel o honrasse diante dos anciões de Israel ( 1Sm 15:30 ).

Saul estava em busca da gloria de homens, e não se sujeitou a Deus. É impossível conciliar obedecer a Deus e ser louvado pelos homens. Para agradar a multidão a moeda é o sacrifício, pois através dos sacrifícios é possível aos homens mensurar a devoção dos religiosos.

Na plenitude dos tempos não é através da lei que se serve a Deus, antes é necessário fazer como Mateus: dispor de tudo que possuía, tomar a sua cruz e seguir após Cristo “E Jesus, olhando para ele, o amou e lhe disse: Falta-te uma coisa: vai, vende tudo quanto tens, e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, toma a cruz, e segue-me. Mas ele, pesaroso desta palavra, retirou-se triste; porque possuía muitas propriedades” ( Mc 10:21 -22).

Hoje, para o homem cumprir o mandamento de Deus basta crer em Cristo como o Filho do Deus vivo que nasceu na casa de Davi, que foi morto e ressurgiu ao terceiro dia segundo as Escrituras "E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento" (1Jo 3:23; Rm 1:2 -4).

Deus não requer sacrifícios, antes que se obedeça a sua palavra. Ora, os termos misericórdia, honra, obediência, caridade e amor são utilizados nas Escrituras para fazer alusão a obediência a Deus, de modo que aquele que obedece a Deus é o que o ama "Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama" (Jo 14:21).

Estes termos não se referem a um sentimento do servo para com o seu senhor, antes se refere à resignação do servo em obedecer a ordem do seu Senhor.

A recompensa de um servo está em cumprir o mando do seu senhor. Se fizer como Saul que visou lucrar glória para si a partir do mandamento do Senhor, estará servindo a Mamon e não a Deus. Visar o lucro com o mandamento de Deus é o mesmo que feitiçaria, e porfiar neste caminho o mesmo que idolatria.

Daí o alerta de Cristo: "Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom" (Mt 6:24). O amor de um servo diz do seu serviço e da sua dedicação, de modo que é impossível servir a Deus e ao mesmo tempo receber gloria dos homens “Apesar de tudo, até muitos dos principais creram nele; mas não o confessavam por causa dos fariseus, para não serem expulsos da sinagoga. Porque amavam mais a glória dos homens do que a glória de Deus” ( Jo 12:42 -43); "Como podeis vós crer, recebendo honra uns dos outros, e não buscando a honra que vem só de Deus?" ( Jo 5:44 ).

Os homens de torpe ganância conclamam sacrifício sobre sacrifício, pois dos sacrifícios provém o lucro e através deles constroem uma aparência de piedade, já a misericórdia exigida por Deus não é fonte de lucro, antes de salvação "Contendas de homens corruptos de entendimento, e privados da verdade, cuidando que a piedade seja causa de ganho; aparta-te dos tais" ( 1Tm 6:5 ); "Tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia dela. Destes afasta-te" ( 2Tm 3:5 ).

Mas, o mistério da misericórdia de Deus, ou seja, da piedade, é Deus manifesto em carne sendo Ele mesmo a causa de salvação para todos que o obedecem "E, sem dúvida alguma, grande é o mistério da piedade: Deus se manifestou em carne, foi justificado no Espírito, visto dos anjos, pregado aos gentios, crido no mundo, recebido acima na glória" ( 1Tm 3:16 ); "E, sendo ele consumado, veio a ser a causa da eterna salvação para todos os que lhe obedecem" ( Hb 5:9 ).

Ser ‘misericordioso’, ‘perfeito’, é a condição exigida para ser filho do Pai celeste "Sede, pois, misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso" ( Lc 6:36 ); "Sede vós pois perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus" ( Mt 5:48 ). Ora, todos os que creem em Cristo tornam-se misericordiosos, obedientes, portanto, lhes é dado poder de serem feitos filhos de Deus ( Jo 1:12 -13).

Deus é um Deus zeloso, fiel, de modo que aqueles que não o servem (odeiam) será visitada a sua iniquidade, mas aos que são misericordiosos, ou seja, que obedecem a sua palavra, Deus faz misericórdia “Não te encurvarás a elas, nem as servirás; porque eu, o SENHOR teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos, até à terceira e quarta geração daqueles que me odeiam. E faço misericórdia a milhares dos que me amam e guardam os meus mandamentos” ( Dt 5:9 -10); “Palavra fiel é esta: que, se morrermos com ele, também com ele viveremos; Se sofrermos, também com ele reinaremos; se o negarmos, também ele nos negará; Se formos infiéis, ele permanece fiel; não pode negar-se a si mesmo” ( 2Tm 2:11 -13).


Autor: Claudio Crispim
Divulgação: EstudosGospel.Com.BR

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