Em Cristo estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento. (Colossenses 2:3)

Ninguém vos engane com palavras vãs; porque por essas coisas vem a ira de Deus sobre os filhos da desobediência.(Efésios5:6)
Digo isso a vocês para que não deixem que ninguém os engane com argumentos falsos. (Colossenses 2:4)

22 de outubro de 2018

Vox Populi, Vox Dei... Será?



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Daniel Lima


A fragilidade da democracia e sua incapacidade de nos trazer esperança.

O antigo ditado citado no título acima afirma que a voz do povo é a voz de Deus. Nestes dias que precedem o segundo turno de uma das eleições mais delicadas e tensas de nossa história recente, esta é uma questão digna de ser examinada com muita cautela, ou corremos o risco de engolir a pizza sem tirá-la da caixa... Poucos cristãos hoje concordariam com este ditado; ainda assim, assistimos discussões acaloradas e até mesmo conflitos que indicam que ainda colocamos muita da nossa esperança neste processo. Tenho ouvido ou lido cristãos que este ou aquele homem é a esperança para o povo de Deus em nosso país. Será? Afinal, devemos e podemos ter esperança no processo democrático? Este é o processo que vai levar nosso país a um futuro melhor? O resultado deste pleito, assumindo a idoneidade do processo, será um passo adiante?

É importante destacar a princípio que eu não conheço um modelo melhor do que o processo democrático para um país tão plural. Idealmente, um governo teocrático seria nossa esperança (“Como é feliz a nação que tem o Senhor como Deus” – Salmo 33.12a). Neste cenário teríamos de desenvolver um sistema onde a vontade de Deus, seus princípios de cidadania e de convívio fossem de fato expressos e implementados. No entanto, as experiências históricas mais recentes de um governo teocrático têm se mostrado no mínimo inócuas e, em sua pior versão, catastróficas. Ao tratar do tema durante um discurso na Câmara dos Comuns em 11 de novembro de 1947, o grande líder inglês Winston Churchill afirmou: “Ninguém pretende que a democracia seja perfeita ou sem defeito. Tem-se dito que a democracia é a pior forma de governo, salvo todas as demais formas que têm sido experimentadas de tempos em tempos”.
Tem-se dito que a democracia é a pior forma de governo, salvo todas as demais formas.
Considerando esta perspectiva, é evidente que devemos nos comprometer com o processo eleitoral. Não só cumprindo um dever de cidadãos, como também usando os direitos do sistema democrático para manifestar nossa opinião. A questão que carece de nossa atenção é em que medida devemos depositar no processo democrático nossa esperança de um futuro melhor.

Vamos, novamente, examinar o texto bíblico buscando orientação ou, neste caso, relatos que nos permitam abstrair princípios de vida. A primeira narrativa que escolhi é a de Êxodo 16.1-3. O texto descreve que o povo de Israel havia atravessado o mar Vermelho recentemente. Esta passagem pelo mar foi talvez um dos maiores milagres do Antigo Testamento. O povo atravessou a pé seco; no entanto, o exército egípcio se afogou (Êxodo 14). A poderosa mão de Deus demonstrou, acima de qualquer dúvida, seu amor e cuidado por seu povo. Este seria um momento de celebrar, de confiar que o Deus que abriu o mar lhes traria conforto, alimento e proteção. Ainda assim, quando chegam ao deserto de Sim, apenas 45 dias após atravessarem o mar, enquanto enfrentam a dura realidade do deserto, da viagem, o povo declara:
“Quem dera a mão do Senhor nos tivesse matado no Egito! Lá nos sentávamos ao redor das panelas de carne e comíamos pão à vontade, mas vocês nos trouxeram a este deserto para fazer morrer de fome toda esta multidão!” (Êxodo 16.3)
A rapidez com que o povo mudou de opinião após um milagre tão grande demonstra como a opinião pública pode ser volúvel e, portanto, pouco confiável. Antes de criticá-los eu convido você a se lembrar de como reagimos após receber uma benção de Deus pela qual oramos e ansiamos por um longo tempo. Infelizmente, vejo em minha vida e na vida de outros o quão rápido meu coração se inclina para a ingratidão. Esta característica de mudanças tão rápidas é um dos fatores principais que facilita a manipulação por agentes políticos, grupos de interesse ou pela mídia em geral. Curiosamente, esta facilidade de mudar de opinião não depende do nível econômico ou educacional. Recentemente ouvi de um estudioso europeu que a Europa está se aproximando da possibilidade de um regime totalitário. Seu argumento é que uma vez que a segurança é ameaçada, o povo se amedronta e rapidamente aceita trocar a liberdade pela volta da sensação de segurança. Este é o mesmo modo de pensar que vemos no versículo acima. Uma vez que a libertação da escravidão no Egito trouxe consigo insegurança quanto ao futuro, quanto à alimentação e mesmo quanto à moradia, o povo estava pronto para voltar à escravidão. É importante observar que a opinião pública neste caso era frontalmente não só contra o que haviam pedido nos últimos séculos, mas abertamente contra Deus!

A segunda narrativa que vamos investigar é Marcos 15.6-15:
“Por ocasião da festa, era costume soltar um prisioneiro que o povo pedisse. Um homem chamado Barrabás estava na prisão com os rebeldes que haviam cometido assassinato durante uma rebelião. A multidão chegou e pediu a Pilatos que lhe fizesse o que costumava fazer. ‘Vocês querem que eu solte o rei dos judeus?’, perguntou Pilatos, sabendo que fora por inveja que os chefes dos sacerdotes lhe haviam entregado Jesus. Mas os chefes dos sacerdotes incitaram a multidão a pedir que Pilatos, ao contrário, soltasse Barrabás. ‘Então, que farei com aquele a quem vocês chamam rei dos judeus?’, perguntou-lhes Pilatos. ‘Crucifica-o!’, gritaram eles. ‘Por quê? Que crime ele cometeu?’, perguntou Pilatos. Mas eles gritavam ainda mais: ‘Crucifica-o!’ Desejando agradar a multidão, Pilatos soltou-lhes Barrabás, mandou açoitar Jesus e o entregou para ser crucificado.”
Certamente a morte vicária era o plano de Deus desde a eternidade passada, conforme as muitas profecias do Antigo Testamento. No entanto, é curioso observarmos o processo do julgamento e da condenação de Jesus. Em primeiro lugar, um dos fundamentos do Império Romano, inclusive talvez uma de suas maiores contribuições ao mundo ocidental, é justamente o sistema de justiça romano. Para que o Império pudesse se manter, Roma contava não apenas com sua máquina militar impressionante, mas também com seus muitos aliados. A estes eram oferecidas as vantagens de se viver sob a Pax Romana. O Império Romano começou a ruir quando este compromisso com seu sistema jurídico passou a ser comprometido.
Pilatos, governador e representante máximo de Roma, aparentemente tentou preservar o processo jurídico e evitar tumultos que prejudicassem a paz de sua província. Tentar manter o equilíbrio entre o que é certo e o que agrada o povo é sempre uma tarefa muito difícil. Já foi dito que o segredo do fracasso é tentar agradar a todos. Ainda assim, mesmo identificando que a motivação dos chefes dos sacerdotes era a inveja e não a justiça (verso 10), Pilatos tenta por um lado preservar a justiça romana e por outro agradar ou apaziguar o povo (verso 15). Seguindo um antigo costume de libertar um preso na época da Páscoa, ele lhes oferece a escolha entre Barrabás e Jesus.

Não existem registros históricos a respeito de Barrabás, exceto de que era culpado de assassinato, provavelmente mesmo de criar tumultos. Seu nome pode significar “o filho do pai” ou “o filho do mestre”. Era um criminoso famoso e não há qualquer menção de que fosse inocente. Aparentemente era um inimigo aberto de Roma. Pilatos pediu então ao povo que escolhesse entre Jesus e um terrorista! Por que então o povo escolheu libertá-lo ao invés de libertar a Cristo? O texto deixa claro que a multidão fez sua escolha incitada pelos sacerdotes. Talvez a maioria dos presentes fosse do partido dos sacerdotes, talvez gritaram sem pensar – multidões são conhecidas por fazerem isso. No entanto, o resultado final foi que escolheram libertar um criminoso e libertar um assassino.
A opinião pública é volúvel e, com muita frequência, incoerente.
Estas e outras narrativas bíblicas, e mesmo tantas outras que conhecemos na história ou pessoalmente, mostram que a opinião pública é volúvel e, com muita frequência, incoerente. Continuo a afirmar que a solução não está em abandonar a democracia, mas compreender sua fragilidade. Como cristãos, nossa esperança não está nesta eleição e me arrisco a dizer que não importa qual candidato vença, todos ficarão decepcionados após algum tempo. Uns por não concordarem com as direções tomadas; outros porque os avanços pretendidos não foram suficientes; e outros ainda porque suas demandas, apesar de prometidas, nem sequer foram consideradas nas ações do futuro governante.

Assim, deixe-me resumir algumas observações e lições que abstraio destas narrativas:
  1. A voz do povo não é a voz de Deus. Aliás, com frequência impressionante é justamente contrária à voz de Deus.
  2. A opinião pública não é coesa, coerente ou sequer duradoura. Pelo contrário, é marcada por ser volúvel e manipulável.
  3. Tentar agradar a todos não é só impossível como também destinado a produzir decisões inconsistentes.
  4. Excetuando os curtos períodos de um governo teocrático saudável, pessoalmente não conheço um sistema melhor (ou menos pior) que o democrático.
  5. Todo cristão deve se envolver no processo democrático sem, no entanto, colocar neste processo ou nos governantes eleitos sua esperança. Como afirma o apóstolo Paulo: “Se trabalhamos e lutamos é porque temos depositado a nossa esperança no Deus vivo, o Salvador de todos os homens, especialmente dos que creem” (1Timóteo 4.10).

Minha sincera oração é que tanto eu como você, e na verdade todo cristão, estejamos envolvidos no processo democrático, mas sem perder de vista aquele que é o Autor e Consumador da nossa fé. Não creio que a democracia nos garanta a realização da vontade de Deus, mas sim que é o melhor processo que este mundo caído tem conseguido para ordenar seu viver. Ainda assim, nossa esperança não está neste processo, mas naquele que está acima de todo nome. Participamos desta vida, mas apontamos nossa esperança no reino que há de vir.



Daniel Lima foi pastor de igreja local por mais de 25 anos. Formado em psicologia, mestre em educação cristã e doutorando em formação de líderes no Fuller Theological Seminary, EUA. Daniel foi diretor acadêmico do Seminário Bíblico Palavra da Vida por 5 anos, é autor, preletor e tem exercido um ministério na formação e mentoreamento de pastores. Casado com Ana Paula há mais de 30 anos, tem 4 filhos e vive no Rio Grande do Sul desde 1995.

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21 de outubro de 2018

UMA AVALIAÇÃO ÉTICA E BÍBLICA DO ENSINO DE PROSPERIDADE E MOVIMENTO DA BÊNÇÃO



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Introdução:

Pediram-me que avaliasse o ensino e a prática do Evangelho da Prosperidade pelo critério da ética cristã. Eu me aproximo do tópico como alguém que despende um tempo significativo com cristãos economicamente pobres de baixa renda na Índia e em algumas partes da África. Quase todos eles buscam a bênção de Deus para terem bem estar material. Eles dão a mais alta prioridade ao próprio bem estar espiritual, mas não consideram a saúde, livramento de enfermidades, mesmo as crônicas, moradia, um emprego estável com salário adequado como parte da aspiração cristã, nem direito deles.

Não tenho ouvido que estejam buscando riquezas / prosperidade, um tipo de abundância que os torne ricos e lhes dê conforto. Eles buscam livramento e vitória sobre forças que acreditam estarem controlando a vida deles, mas não riquezas reluzentes. Mesmo os cristãos aspirantes à classe média em minha cidade, Bangalore, onde as aspirações não são irrealistas, não articulam um desejo de riquezas, mas buscam a bênção de Deus para o bem estar econômico, pessoal e familiar.

As crianças cristãs na Índia crescem lendo os salmos, onde ser abençoado por Deus é um tema significativo. Ser abençoado por Deus, diz o Salmo 1, é florescer e ser frutífero. Buscar as bênção de Deus todos os dias é considerado um direito natural do cristão. Grupos e famílias podem dar um conteúdo diferente às bênçãos que buscam. Tendo crescido ambiente evangélico calvinista, raramente incluía algo econômico em minhas orações e até ficaria constrangido em pedir cura para alguma doença e, para o caso de Deus não entender direito meu pedido, eu resolutamente concluía a oração dizendo: faça-se a tua vontade. Fazia questão de salientar que em tais casos, eu confiava na vontade soberana de Deus que devia operar automaticamente para meu bem. Aí casei com uma moça que cresceu na Igreja Assembleia de Deus; o conteúdo de minhas orações começou a mudar!

Eu prefiro falar sobre o Movimento da Bênção com que estou familiarizado a pregar nos canais de TV cristãos. Não estou convencido de que esses canais, onde os pregadores parecem estar tomando emprestadas as mensagens do Ocidente influenciam de modo significativo a vida cotidiana na Índia. Joyce Meyer tem audiência de bom tamanho, mas o que os ouvintes parecem considerar proveitoso são os conselhos de autoajuda, de prosperidade moderada. Até alguns ouvintes não cristãos me disseram que os consideram úteis como conselhos espirituais.

Os cristãos que sofrem economicamente e os de baixa renda com que trabalho têm a vida dificultada por saúde precária, medo de forças malignas e problemas financeiros. É a realidade existencial diária deles. Eles buscam as bênçãos de Deus diariamente para receberem cura, proteção do mal e segurança financeira.

Em minha apresentação, adoto uma distinção entre descrições e avaliações. Minha abordagem é fazer um exame avaliativo do ensino e da experiência da bênção a partir de uma perspectiva ética cristã. Uma perspectiva ética pressupõe normas, leis, julgamentos e escolhas. Uma perspectiva ética é um jeito de estruturar nossas deliberações acerca de questões éticas em relação a experiências humanas reais.

Ainda que leve em consideração perspectivas éticas gerais como a ética utilitarista, a ética consequencial, a ética deontológica, a ética baseada em direitos e a ética das virtudes, vou usar principalmente a ética bíblica / teológica em meu exercício avaliativo.

A. Uma Perspectiva Bíblica e Teológica da Ética

Baseio-me numa série de obras acadêmicas para montar o sumário que partilho abaixo. A obra magistral de Karl Barth, Ética, publicada em inglês em 1981, moldou muitos de nós na consideração de três temas chaves de uma ética bíblica: Criação, Reconciliação e Redenção (escatológica). Entre os acadêmicos evangelicais, a obra de Oliver O’Donovan é um modelo importante de ética evangélica. A obra de Stanley Hauerwas é também significativa ao fazer da cruz o centro de qualquer ética cristã. Em vez de examinar a obra de estudiosos cristãos da ética, estou tomando a liberdade de apresentar meu sumário que muito se inspira na erudição deles. Este ensaio não é escrito para a academia.
Uma perspectiva bíblica da ética que põe a cruz no centro destaca a abnegação, a participação no sofrimento de Cristo, o dar as costas para o mundo, e uma vida ascética. Ela tende a colocar a Igreja contra o mundo como uma sociedade alternativa e uma contracultura.

Uma perspectiva ética com a ressurreição no centro salienta a vitória de Cristo sobre tudo o que tem pilhado a criação e os propósitos divinos. A natureza da ressurreição como algo corporal e material afirma que a morte e ressurreição de Cristo restauram a criação a seu propósito original. Ela conclama a uma vida sob a luz da ressurreição onde o ponto de partida é a vitória de Cristo, e as vida cristã é vivida pelo poder do Espírito Santo concedido a seus discípulos pelo Senhor ressuscitado.

A ética do Reino salienta o caráter definitivo dos valores e dos dons do reino, mas os coloca na perspectiva do já e ainda não, esperando a volta de Cristo e o cumprimento dos planos e das promessas de Deus. Ela gira em torno dos dons do reino experimentados já, ainda que em forma de adiantamento / parcelamento.

A ética da Encarnação gira em torno da convocação do indivíduo cristão e da Igreja para se conformarem à imagem de Cristo, o segundo e o novo Adão. A Encarnação revela o Cristo que viveu na terra e se tornou como nós, ainda que sem pecado. Nosso chamado para sermos como Cristo e procurarmos ser como Cristo é a norma do discipulado cristão. Ela pressupõe que sabemos o que é ser como Cristo em nossa vida sobre a terra. No centro dessa ética está a antropologia bíblica, o entendimento daquilo que a pessoa humana é dentro da criação divina. O foco, portanto, está no caráter de um cristão que vai refletir o processo de transformação em direção à semelhança de Cristo. Tomás de Aquino usa a linguagem de nossos hábitos. Nossos hábitos e disposições são intelectuais/racionais e também ligados a nossas emoções e desejos. O Cristo que conhecemos e a quem tentamos nos conformar está presente conosco por meio de seu espírito.

Ao nos conformar a Cristo, nós nos conformamos com seu sofrimento e, assim, negamos a nós mesmos. Aceitamos o sofrimento que Deus permite em nossa vida e nos recusamos a nos conformar com este mundo, procurando transformá-lo.

Em conformidade com a ressurreição de Cristo, abraçamos a vitória que Cristo completou sobre as forças que corrompeu a criação e procuramos restaurar a ordem moral da ressurreição. Aceitamos a vitória e a superação como normas divinas para a vida cristã.

Em conformidade com a ética do Reino, procuramos experimentar todas as suas bênçãos: identidade em Cristo, vida abundante e uma esperança para o futuro. Vivemos pela dádiva do reino — o Espírito Santo de Deus — que nos dá poder.

Nos Evangelhos, a ética do reino é a ética da comunidade do reino. A sociedade contemporânea, mesmo no Ocidente e em muitas sociedades tradicionais, tem uma ética comunitária que regula a vida e legitima as práticas e os anseios. Uma ética transcendental universal é dominante no cristianismo, islamismo e judaísmo. Entretanto, mesmo nessas religiões, muitas de suas comunidades desenvolvem uma ética comunitária e vivem de acordo com ela. Em tais comunidades, a aceitação comunitária de uma prática ou uma interpretação ética/moral tem destaque e influência muito maior que uma ética universal recebida. A ética do Reino integra as dimensões universal/transcendental e comunitária de uma perspectiva ética.

B. Vou tentar avaliar o conteúdo e experiência do ensino da prosperidade no cristianismo contemporâneo em relação aos seguintes temas: justiça, fé, poder e personalidade humana.

Minha reflexão baseia-se nos ensinos e experiências das igrejas na Índia em que pedir as bênçãos de Deus e os pregadores nativos na televisão ganham grande destaque. Também vou relacionar o conhecimento que tenho do fenômeno na Índia com as narrativas descritas na excelente obra de Kate Bowler sobre o evangelho da prosperidade nos Estados Unidos.

1. Bênção e Justiça

A justiça está no coração da estrutura ética de toda a Escritura. O centro da ética do Reino nos Evangelhos é a Retidão/Justiça. A justiça divina molda a ordem do reino inaugurada por Jesus. A bênção também é uma parte chave do relato que o evangelho faz do reino de Deus. Mas é evidente que as bênçãos do reino se harmonizam com a ordem moldada pela justiça divina. A bênção do reino precisa expressar a justiça de Deus. A bênção e a justiça são totalmente integradas como shalom e justiça na Bíblia hebraica.
Na Bíblia, a equalidade é o outro lado da justiça. A equalidade tem raízes no fato de os homens terem sido feitos à imagem de Deus. Equalidade também significa que ninguém ganha se todos não ganham. O ensino da bênção está relacionado a essa concepção de justiça ao afirmar que todos em Cristo têm o direito à plena bênção dele. Os que preenchem as condições de fé e clamam por ela recebem a bênção; outros terão de esperar até se acertarem. A justiça insiste que a bênção tem uma dimensão social. As bênçãos pessoais devem contribuir para o bem comum e exercer um impacto não só individual. É aqui que o ensino da bênção é incompleto e precisa mudar.

O ensino acerca do Reino de Deus nos evangelhos apresenta dois focos. Um é o indivíduo convidado a entrar no reino com base no arrependimento e na fé, o outro é o Senhorio de Cristo exercendo o comando divino que restaura a criação divina corrompida. O ensino da prosperidade destaca a fé do indivíduo não só para entrar no reino, mas também pede seus dons. Essa ênfase no benefício pessoal, sem o ensino da dimensão social de todos os dons divinos subestima uma das missões do reino que é produzir mudanças sociais.

Na Índia, as igrejas em que domina o ensino da prosperidade são, na maioria, as dos pobres. As igrejas que atraem a nova classe média em ascensão dão espaço para bênçãos singelas de felicidade no casamento e na vida familiar e recompensas pelo trabalho duro e honesto. Não há negligência para com os pobres nessas igrejas. Kate Bowler em seu estudo sobre igrejas pentecostais de negros observa que muitos promovem programas e mobilidade econômicos. Em 1978m quando lancei um programa de desenvolvimento de microempresas na Índia, os primeiros adeptos mais entusiastas forasm as igrejas pentecostais e, depois os católicos romanos. Protestantes tradicionais e igrejas evangélicas não achavam que emancipação econômica fazia parte da missão de uma igreja local.

A energia empresarial eclodiu nessas igrejas na Índia, como entre as igrejas de negros na América do Norte. O empreendimento entre os pobres é gerado pela noção de que cada um precisa fazer sua parte. Fatores externos não costumam ajudá-lo; pelo contrário, colocam obstáculos em seu caminho. A fé é um bem que os pobres trazem para a mesa. É uma fé testada sob condições severas. É uma fé dedicada que trabalha duro. O evangelho que valoriza a fé acima de tudo o mais (pode mover montanhas) deve atender a essa fé.

Há um ceticismo compreensível em relação aos esforços da igreja para obter mudanças estruturais. Há ceticismo quanto à possibilidade de ações políticas realmente produzirem a mudança que faça diferença na vida deles. Há consciência de que a classe média é bem sucedida não só por causa de seus hábitos de trabalho duro e disciplina, mas também pelos dotes que herdam e do apoio que recebem de sua rede de contatos.

Para os pobres, o efeito positivo de um ensino de bênçãos é a convicção de que eles não são excluídos da segurança e da abundância econômica. Eles podem não só aspirar, como também reclamá-las como direitos.

À parte da ênfase na ação individual para suprir necessidades materiais, muitas igrejas que dão ênfase às bênçãos também desenvolvem respostas institucionais para necessidades sociais. Nos Estados Unidos, Kate Bowler observa igrejas desenvolvendo iniciativas em educação, habitação, painel de empregos e serviços sociais.

Na Índia, há investimento crescente de igrejas pentecostais em ascensão em ministérios sociais com seus próprios recursos. Há uma forte mensagem motivacional nessas igrejas. Espera-se que você progrida em todas as áreas de sua vida.

A libertação de um senso de exclusão da ascensão econômica proporcionada pelo ensino da prosperidade é uma expressão da justiça de Deus em ação e precisa ser reconhecida como tal. Ela também precisa ser aproveitada em benefício da transformação da comunidade. Tenho visto esse trabalho em Bangalore com igrejas independentes nativas.

É correto observar que entre algumas igrejas que ensinam a prosperidade entre a nova classe média ascendente, há uma fascinação com as riquezas. Ela já não vê as riquezas fora do alcance, a pregação raramente, senão nunca, garante riquezas, mas encoraja a aspiração. Em minha opinião, isso desvia a energia dos crentes do crescimento no discipulado e na semelhança de Cristo, canalizando a energia espiritual e o capital principalmente para objetivos materiais. Isso precisa de uma correção drástica e urgente.
Podemos ver a justiça como uma ordem justa e como direitos inerentes. Alguns pregadores da prosperidade apresentam a prosperidade como um decreto de Deus e uma ordem projetada por ele. Eles também afirmam que a Bíblia ensina a prosperidade como um direito inerente do crente. Essa transferência da estrutura da ordem e do direito inerente da justiça para a prosperidade leva à proposição de leis de bênçãos que, como a justiça, são apoiadas pelo poder de Deus. Não é possível sustentar essa mudança com argumentos bíblicos adequados. A justiça é uma categoria legal e a bênção, uma categoria da graça.

Que Deus abençoa seu povo e todas as coisas criadas é incontrovertível. Mas quais são os critérios que Deus emprega para abençoar seus filhos? Não há critérios significativos na Bíblia? Fica tudo à mercê da vontade de Deus? Isso não parece arbitrário? O ensino da prosperidade oferece suas respostas e elas precisam ser avaliadas segundo a perspectiva ética da justiça bíblica.

2. Bênção, Fé e Poder

A linguagem do poder é significativa nas igrejas que pregam a prosperidade e as bênçãos na Índia e em partes da África com que tenho me envolvido há muito tempo. A fé e o poder são totalmente integrados nessa pregação. Um bem que os pobres acreditam que podem adquirir rapidamente é a fé: fé nas promessas de Deus e num Deus que cumpre suas promessas. A fé na intervenção ativa de Deus em todas as áreas da vida: pessoal e social, pequenas ou grandes. O ensino da prosperidade oferece meios pelos quais a fé pode ser convertida num poder que faz fluir as promessas divinas de saúde, riqueza e vitória. A relação entre fé e poder é apresentada como algo causal.

Alguns dados surpreendentes afloraram de um estudo entre pobres empreendedores em Banglore, na Índia. Quase todos eles frequentavam igrejas pentecostais nativas que pregavam regularmente a mensagem da prosperidade. O escudo chamado “Santa Avareza” examinou o dízimo dos fieis. Embora haja confiança de que Deus honra sua fé e sua obediência no pagamento do dízimo, nenhuma bênção é considerada um direito adquirido. O pregador pode dizer que sim, mas eles reconhecem que a realidade é diferente. Isso ainda depende da graça de Deus. Eles, no mínimo, não terão a pretensão de dizer a Deus o que ele deve fazer. Ainda é um ato da livre graça de Deus que não pode ser manipulado, algo que depende de nossas ações. Aqui há duas narrativas, às vezes mais. A narrativa de causalidade e garantia do pregador e, da parte do crente, a narrativa de submissão à vontade de Deus e confiança na sua graça. A pregação de alguns dos pastores ainda apresenta a fé como um poder inerente realizador que pode criar e materializar bênçãos concretas, o fiel acredita ferventemente nisso, mas limita suas apostas, deixando por conta da graça de Deus. Em conversas particulares, o crente admite que é na graça de Deus que ele aposta, não numa fórmula.

No ensino da prosperidade, a maneira pela qual o conceito de poder é empregado mostra que ele transcende a separação entre o físico e o espiritual. Isaías 53.5, pelas suas feridas fomos curados, é interpretado cura tanto espiritual como física.

No antigo movimento de Keswick e em outros movimentos de vida cristã vitoriosa, a linguagem do poder também era muito usada. A presença de Cristo em nossa vida implica que a vida de Cristo é derramada em nossa vida, dando-nos o poder de viver uma vida cristã vitoriosa. A vida cristã normal, ensinavam, era uma vida vitoriosa. Deus cumpre promessas, vence hábitos pecaminosos, ajuda-nos a suportar o sofrimento e cura nossas enfermidades. Esses movimentos também pregavam princípios (leis equivalentes a verdades) a respeito da vida cristã vitoriosa.

Na Índia e em outras sociedades tradicionais, há um uso talismânico do poder em culturas religiosas que dão ênfase ao livramento de espíritos e forças malignas. A cura vem pela abordagem dos espíritos que estariam por trás de uma enfermidade. Oferece-se proteção contra o poder de maldições . Pacotes de poder são fornecidos em forma de talismã. O poder espiritual pode ser acondicionado em objetos materiais e transportados, carregados e usados. Xamãs e curandeiros há muito praticam o uso do poder espiritual.

É evidente que falta, para muitos pregadores da prosperidade, um entendimento bíblico cuidadosamente elaborado do que significa poder. É possível que alguns empreguem conscientemente práticas não bíblicas de manifestações de poder, mas a maioria parece não compreender o ensino complexo e claro do poder espiritual na Bíblia. Essa pregação e prática de poder espiritual às vezes corre o risco de fazer conexão com as próprias forças malignas que o pregador está tentando atacar. Há também o perigo real de o pregador acreditar que tem direito ao poder espiritual e considerar que não precisa prestar contas dos próprios atos e atitudes. O dano moral que essa concepção e prática de poder produz é mais que evidente nos escândalos de imoralidades financeiras e sexuais que assolam seus praticantes. É aqui que precisamos incentivar que um entendimento bíblico do poder se desenvolva dentro do movimento da bênção.

Há um contraste claro na Bíblia entre o poder exercido por um faraó que era considerado divino e o poder exercido pelo Senhor Jesus, realmente divino. O poder de Cristo emana da cruz e vem de baixo. Mesmo no céu ele carrega as marcas do cordeiro morto. O pregador cristão ou o crente precisa seguir esse modelo de poder.

Passamos para o tema da graça e sua relação com a forma pela qual a fé e o poder estão ligados no ensino da prosperidade. Paulo desenvolve seu entendimento da graça de Deus em contraste com a concepção judaica da recompensa e do mérito. Em Paulo, nossa fé não é um mérito que levamos para Deus para sermos recompensados por ele. É mais um sinal de nosso arrependimento que um bem que colocamos diante de Deus para mostrar que merecemos sua salvação. Nossa fé é a base em que nos colocamos para obter entrada no reino de Deus e receber nossa identidade como filhos de Deus e cidadãos de seu reino. As recompensas do reino não são proporcionais à fé ou ao serviço da pessoa. Elas são concedidas pela livre graça de Deus, não pelo merecimento do recipiente (Mt 19.29; 24.17; 25.21, 23; Lc 7.48).

Há passagens que mostram que o sacrifício, a perseguição por causa da justiça, as perdas que alguém tem por seguir Cristo serão recompensados bem além da proporção de sua fé. O que está no centro do Reino de Deus é a graça, não a causalidade da recompensa pela fé.

A bênção é apresentada no ensino da Prosperidade como um direito, um direito adquirido. É um status conquistado, podendo-se viver nele continuamente. No Novo Testamento, a bênção não é um direito baseado nos ativos da fé de um discípulo. Está ligada às promessas de Deus, sustentada pela soberania de Deus e sua fidelidade à aliança. Está totalmente ligada à liberdade divina de conceder o que deseja e escolhe, não é condicionada pelos ativos da fé ou status do recipiente. Os dons de Deus não são simples nem seguem uma fórmula legal. Eles refletem seu caráter generoso. Por outro lado, os desejos dos crentes ainda estão sujeitos ao pecado e os desejos divinos de abençoar não podem ser cumpridos automaticamente. Isso pode colocar em risco o bem estar espiritual do crente. É melhor confiar na bênção que Deus concederá livremente e continuar fazendo as petições, do mesmo jeito que uma criança faz com os pais.

3. Bênção e Natureza Humana

Kate Bowler observa que, John G Lake (missionário na África do Sul), interpretando João 10.34, entende que Deus deseja que sejamos deuses. Ela também cita Kenyon: “A morte e a ressurreição de Jesus mudou a condição ontológica dos crentes. A união divina com Deus não é um alvo distante, mas um ponto de partida”.

O crente torna-se criador como o próprio Deus e pode empregar a fé contida nas palavras para dar existência às coisas, i.e., criar bênçãos e prosperidade. Um crente tem poder verbal como filho de Deus. A oração não é uma petição, mas uma reivindicação ou até exigência que transforma em realidade o que é reivindicado ou exigido.

Essa pressuposição de natureza transformada dos crentes permite que se recorra a técnicas de que o crente necessita e a hábitos de fé que ele precisa desenvolver. Um desses hábitos é o dízimo que pode destrancar e liberar bênçãos, sucesso e prosperidade.

Outro aspecto dessa ideia da natureza humana é que os crentes podem ter conhecimento revelado que, com frequência, é muito diferente do conhecimento comum. O conhecimento comum pode dizer que você está doente. O conhecimento revelado lhe dá a convicção de que você está curado.

Outra ênfase é a possibilidade de transformação humana pelos próprios esforços. A própria fé edifica o caráter e dá esperança para vencer os desafios de um mundo incerto de mercados imprevisíveis. O crente deve assumir a responsabilidade pelo seu futuro e agir com otimismo, pois essa é a vontade de Deus para ele (Bowler p. 227).

Há uma antropologia elevada no ensino da prosperidade. Em parte, ela se confunde com a doutrina da “teose” na tradição ortodoxa.

O conteúdo elevado dado à natureza humana no ensino da prosperidade, porém, não está relacionado com a vida de Cristo sobre a terra, mas apenas à sua morte e ressurreição. Cristo é o segundo Adão e sua vida encarnada inteira está diante de nós para ser imitada. Sua humildade, mansidão também devem ser copiadas pelo crente, ao mesmo tempo em que ele celebra a vitória e o poder de Cristo.

Precisamos observar as implicações práticas dessa avaliação tão elevada da natureza humana para os crentes pobres. Isso dá ânimo e aumenta a influência e a responsabilidade deles. Para pessoas que têm sido escravos e serventes dos poderosos por gerações é muito libertador saber que você está livre desse status e identidade. Mas o ensino da prosperidade muitas vezes deixa de destacar o caráter serviçal que Jesus manifestou mesmo como o Senhor da criação.

Precisamos nos apoiar nos conceitos da ética da encarnação. O propósito de Deus ao criar os seres humanos à sua imagem é revelado na vida encarnada de Cristo. Nos traços de caráter dos crentes, seus juízos, deliberações, escolhas e emoções é que se forma a semelhança a Cristo. O alvo principal do discipulado não é ganhar direito a bênçãos, mas conformar-se à imagem de Cristo e ser parceiro dele em sua missão no mundo. O conceito de natureza do cristão deve ter esse entendimento do discipulado em seu centro. A ênfase única na Cristo vivo entronizado no céu onde ocupamos lugar de governantes com ele, desconsiderando a vida do Cristo sem pecado sobre a terra, abraçando o sofrimento, a simplicidade e a condição de servo, é promover uma versão sub-cristã, às vezes perigosa, do discipulado.

C. Conclusão

Concluo com alguns comentários.

1. A projeção de uma ordem ou um direito a bênçãos é incompatível com as evidências bíblicas. A bênção é uma realidade, sendo baseada inteiramente na graça de Deus. O ensino sobre as bênçãos deve ser moldado por uma perspectiva bíblica da graça de Deus que é concedida de maneira gratuita e generosa. Essa graça também impede que qualquer doação feita a Deus torne-se um mérito que Deus seja obrigado a reconhecer. Nossas ofertas só podem ser reação à providência contínua de Deus em nossa vida. Podemos e queremos responder com ofertas. Fomos criados para ofertar. Mas o fazemos como ação de graças e atos de adoração e amor em resposta à graça de Deus no trato conosco. É muito mais fácil agradecer a Deus quando se está economicamente confortável e se tem respeito social. Mas onde os pobres devem encontrar a graça de Deus na vida? Nosso ensino deve identificar a realidade da graça de Deus na vida de cada crente, na nova identidade que ele concede e no protagonismo e dignidade que ele permite e à percepção de sua presença permanente. Tudo isso manifesta a graça de Deus em nossa vida. Mas é no conhecimento de que temos um Deus cujos ouvidos estão inclinados para nossas orações e no fato de que podemos derramar nossas petições a ele na certeza de que ele ouve e responderá, que os pobres em nosso ministério reconhecem a graça de Deus em nossa vida. Isso lhes permite agradecer a Deus por sua graça antes de qualquer resposta dramática à oração e até quando a resposta esperada não se materializa.

2. O entendimento do aspecto ainda não do Reino é necessário para corrigir a ideia de que todas as dádivas do reino podem ser plenamente alcançadas no já agora. É verdade que muitos cristãos são muito tímidos e reservados para reclamar muitas dádivas do reino, mesmo em doses pequenas. Eles aceitam uma fé e um discipulado fracos e penoso como a norma deste lado do céu. Precisamos de uma insatisfação santa com nosso discipulado, desenvolvendo uma abertura e até uma avidez no desejo de tudo aquilo que Deus pode nos dar. Precisamos buscar e encontrar. Mas isso precisa ser acompanhado do conhecimento de que estamos no ainda não e precisamos gemer como filhos de Deus, reconhecendo que só quando Cristo voltar haverá o cumprimento daquilo realmente nos satisfará. O espírito não só derrama as bênçãos de Deus sobre nós, como também gera em nós um gemido que nos fará buscar e esperar o futuro prometido por Deus.

O Reino tem algumas dimensões provisórias enquanto esperamos o permanente. Há penúltimas experiências do Reino enquanto esperamos pelas últimas. Nossa cidadania no Reino é vivida em meio a essas tensões, permitindo-nos lidar com os sofrimentos e incertezas da vida com paciência e esperança. Isso precisa ser uma parte chave de qualquer ensino sobre bênçãos.

3. Em minha experiência, os pobres compreendem a importância da justiça. Eles reconhecem que os recursos e as dotações são distribuídos de modo assimétrico. Eles hesitam em considerar essa distribuição injusta. Capacitá-los a vê-la como tal não é solução. É apenas uma análise.

Os pobres com quem trabalhamos na Índia acreditam que a solução para a distribuição injusta de recursos não virá do estado ou de seus sistemas. Eles entendem os sistemas como pessoas de algum modo poderosas. O ensino da prosperidade pede-lhes que encontrem uma solução pessoalmente, no relacionamento que têm com Deus e nos recursos que ele prometeu a seus filhos. Eles buscam a ação de Deus para lidar com a própria pobreza.

Não vejo nenhum modelo crível em que ações contra a injustiça sistêmica tenha resultados amplos para os pobres. Eles têm provido para os ativistas emprego muito pouco diferentes da exploração a os mestres da prosperidade sujeitam os pobres. Falo como alguém que não é alheio à indústria da ação social.

O desafio continua sendo capacitar os pobres a continuarem encontrando as próprias soluções para a pobreza deles, fortalecendo-os para que possam tirar proveito de todos os meios éticos. Eles também precisam ser capacitados para não serem recipientes do bem comum, mas co-criadores e, assim, contribuírem para a transformação social maior.


“Texto cedido para publicação online pelo Movimento de Lausanne”
https://www.martureo.com.br/uma-avaliacao-etica-e-biblica-ensino-de-prosperidade-e-movimento-da-bencao-por-vinay-samuel/


20 de outubro de 2018

Seus amigos são mesmo seus amigos?





O que é um verdadeiro amigo? Vivemos em dias em que qualquer pessoa recebe fácil o status de “amigo”. Lembro-me de quando surgiu a febre do Orkut e algumas pessoas ganhavam do dia para a noite milhares de… “amigos”, virou até uma certa competição ver quem tinha mais… “amigos”. Mas o que é um amigo real? Como você pode saber que determinada pessoa de fato é sua amiga? Recordo-me da época em que eu era um jovem jornalista do jornal O Globo, montes de colegas queriam me abraçar e dizer que eram meus amigos. Até que saí do jornal por motivos de doença e daquela multidão de amigos… 2 ligaram para saber como eu estava. Dos dois, 1 ligou uma vez só.

Desde aquela época, o conceito de “amigo” ganhou cores especiais para mim. Tornou-se título nobre. Não é qualquer um que o recebe. Até o momento em que resolvi que, como em tudo na vida, precisamos recorrer à Bíblia para tentar esclarecer exatamente o que algo significa.

De todas as passagens das Escrituras que versam sobre o tema uma fala de Jesus sobre o assunto sempre me chamou a atenção. Em João 15 o Senhor diz aos seus apóstolos: “Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a própria vida em favor dos seus amigos. Vós sois meus amigos, se fazeis o que eu vos mando. Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas tenho-vos chamado amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos tenho dado a conhecer“. Nós podemos extrair basicamente três lições dessa afirmação, uma de cada frase.

Jesus começa a tocar no tema da amizade com uma bordoada na cara: “Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a própria vida em favor dos seus amigos“. Ou seja: amigo é aquele que seria capaz de abrir mão das coisas mais importantes para ele em favor de você. Forte isso. Mas as palavras não dão margem a interpretação: amigo  é o que dá a vida por quem lhe é caro. E nossa vida é nosso bem mais precioso. Então abrir mão de nosso tempo, de nosso dinheiro, de nosso descanso, de nossas facilidades e prioridades, de nossos planos em função daquele que chamamos de amigo não é nada. Ou pelo menos não deveria ser. Aí eu te pergunto: por quantas pessoas você faria isso?  A resposta a essa pergunta vai te mostrar de quantas pessoas você é realmente amigo.

Mas Jesus não para aí, a coisa fica ainda pior: “Vós sois meus amigos, se fazeis o que eu vos mando”. Claro que aqui temos de pôr em perspectiva. Não vamos sair por aí satisfazendo como escravos os desejos de nossos amigos. Numa aplicação humana, podemos transpor a obediência que Jesus pediu ao entendimento de que amizade pressupõe cumplicidade. Pois enquanto Jesus tinha mandamentos, nós temos anseios e desejos e atender os anseios dos que nos são caros é um grande gesto de amizade. Tomar iniciativas para deixá-los felizes, fazer por onde alegrá-los e mesmo sem que peçam nos pôr à disposição. Grandes provas de amizade.

O terceiro ponto está em “Já não vos chamo servos, porque  o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas tenho-vos chamado amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos tenho dado a conhecer“. Aqui temos de levar em conta que o próprio Deus encarnado, a quem todo joelho se dobrará e que tem toda majestade e soberania sobre o universo volta-se para aqueles que Ele criou unicamente para sua glória e faz um upgrade de status extraordinário: de servos para amigos. E por quê?

Porque, em suas palavras, Ele revelou aos serviçais coisas que estavam claras e eram conhecidas apenas entre Ele e o Pai. “Tudo quanto ouvi de meu Pai vos tenho dado a conhecer“, ou seja: deu a quem não tinha algo chamado intimidade. Essa é a palavra-chave: in-ti-mi-da-de. Ou seja: conhecimento do íntimo. Conhecimento daquilo que ninguém mais conhece. Só o Filho tinha ouvido do Pai, mas Ele resolve transmitir aos seus servos. Fabuloso. Jesus aqui revela o maior indicador de amizade de todos: dar-se a conhecer. Sem o conhecimento do oculto, não há real amizade. O amigo real, nas palavras do Messias, é aquele que vai na profundidade do outro, que não se contenta com a superfície.

Não é fácil ter amigos. Teremos poucos ao longo da vida. Pessoas que nos seguem no Twitter ou no Facebook teremos às centenas; conhecidos idem; montes de colegas de escola, faculdade, trabalho e igreja; gente interessada no que podemos oferecer e bajuladores serão vários. Mas Jesus nos dá a receita para desenvolver amizades reais, aquelas poucas que valem ouro: o amigo verdadeiro é o que abre mão das coisas mais importantes para ele em seu favor, que toma iniciativas para deixar você feliz mesmo que você não peça e, acima de tudo, que tem intimidade, que conheça você no íntimo, além das superficialidades.

Se você conhecer alguém que reúna essas características, esse é o tal amigo que a Bíblia diz que é mais apegado que um irmão. (Pv 18.24). E Pv 17.17 fecha com chave de ouro: “O amigo ama em todos os momentos; é um irmão na adversidade”. E aqui algo essencial. O amigo verdadeiro não é aquele de quem gostamos com amizade, é aquele de quem gostamos com amor. Biblicamente, se você não pode virar para seu amigo e dizer “eu te amo”… saiba que ele não passa de um bom companheiro.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.


https://apenas1.wordpress.com/2012/01/02/seus-amigos-sao-mesmo-seus-amigos/




19 de outubro de 2018

O dia da Reforma e o sacerdócio de todos os crentes




Para muitos estudiosos da Reforma Protestante do século XVI, as ênfases centrais desse movimento foram cinco: só Cristo (solus Christus), só a Bíblia (sola Scriptura), só a graça (sola gratia), só a fé (sola fide) e só a glória de Deus (soli Deo gloria). Todavia, há boa base para afirmar que, além dessas ênfases fundamentais, os reformadores também reservaram um lugar de destaque para uma doutrina que (por razões que daremos mais adiante) poderia ser considerada a Cinderela tanto da Reforma clássica como do movimento evangélico no tempo presente. Refiro-me à doutrina do sacerdócio de todos os crentes, também chamado de sacerdócio universal ou comum.
 
Quando Martinho Lutero lançou seu desafio de reforma da Igreja Católica Romana, ele não o fez animado por um espírito de inovação ou rebeldia, mas movido por convicções enraizadas na Palavra de Deus. Na doutrina da justificação pela fé ele encontrou a base para a solidariedade inalterável dos cristãos entre si, que tornava impossível a divisão tradicional entre “eclesiásticos” (o clero) e “seculares” (os leigos). Parafraseando Gálatas 3.28: “Não existe nem sacerdote nem leigo, pároco nem vigário, ricos nem pobres, beneditinos, espiritanos, freis menores nem agostinianos, porque não está em questão ter este ou aquele estado, grau ou ordem.” Em seus memoráveis tratados de 1520, o famoso reformador elabora esse conceito com uma orientação predominantemente cristológica. Ele alega que Cristo é nosso irmão maior, e que todos os cristãos participam da glória e da dignidade que correspondem a essa relação como reis e sacerdotes com Cristo. Todo cristão é sacerdote pelo simples fato de ser cristão. Ele escreve:
 
Um sapateiro, um ferreiro ou um lavrador têm cada um a função e a obra de seu ofício. Não obstante, todos são igualmente sacerdotes e bispos ordenados, cada um com sua função ou obra útil para o serviço do outro, de  modo que as várias obras estão voltadas para a comunidade, para favorecer o corpo e a alma, assim como os membros do corpo físico servem todos uns aos outros.
 
A conclusão é que todo cristão tem um “serviço sacrificial”, que não é a missa (já que a missa não inclui o oferecimento de um sacrifício), mas um ofício por meio do qual ele expressa seu louvor e obediência a Deus. O cristão tem, além disso, um ministério de intercessão e o “poder de apontar e julgar o que é correto e incorreto na fé”. Lutero não nega o papel que desempenha o ministério de administração e ensino dentro da igreja. Contudo, ele afirma que a única autoridade que os pastores e mestres têm é a que deriva da Palavra de Deus e que, em consequência, todo cristão tem a capacidade de julgar segundo as Escrituras e de rejeitar todo ensino que contradiz o que as Escrituras ensinam. Ele argumenta:
 
Se Deus falou contra um profeta por meio de um burro, por que não pode falar contra o papa por meio de um homem bom? Paulo repreendeu Pedro por estar equivocado. Disso se conclui que cabe a todo cristão preocupar-se com a fé, entendê-la e defendê-la, e condenar todos os erros.
 
A mesma doutrina do sacerdócio de todos os crentes tem lugar na obra monumental de João Calvino, as Institutas da religião cristã, e em outras obras dos reformadores. A Reforma não foi apenas a redescoberta de que “o justo viverá pela fé”, que resume um aspecto central do ensino evangélico sobre a salvação, relacionado com as cinco ênfases da Reforma mencionadas acima. Ela foi também um retorno ao início de uma eclesiologia enraizada na obra de Jesus Cristo, que, por amor, “fez de nós um reino de sacerdotes a fim de servirmos ao sei Deus e Pai” (Ap 1.6).
 
Desse ponto de vista, não se faz justiça aos reformadores quando se entende que sua motivação foi colocar “por cima da igreja e sua tradição, sua interpretação pessoal e subjetiva das Escrituras”, como afirma Hans Küng. A intenção que motivou os reformadores foi, antes, colocar a igreja sob o juízo da Palavra de Deus, chamá-la de volta das tradições humanas para a liberdade do evangelho.
 
Cabe acrescentar, no entanto, que a Reforma clássica ficou aquém das expectativas no que tange às consequências práticas do sacerdócio de todos os crentes para a vida e missão da igreja. Como John Yoder assinalou, “a maior parte da reflexão protestante sobre o sacerdócio de todos os crentes não resultou em estruturas para implementar a visão apostólica de que cada membro da igreja tem seu dom ministerial”. Em termos concretos, nas igrejas protestantes em geral prevaleceu a dicotomia entre os clérigos que exercem seu dom ministerial e os leigos que nem conhecem seus dons ministeriais nem se preocupam em descobri-los e exercê-los para o bem comum, em conformidade com o ensino bíblico (ver especialmente 1Co 12.1-31 e Rm 12.3-8). É a expressão eclesiástica da dicotomia entre o sagrado e o secular que leva a uma distorção lamentável do cristianismo, especialmente no que diz respeito à ética.
 
No contexto latino-americano, o movimento das comunidades eclesiais de base foi uma tentativa valiosa de recuperar uma eclesiologia enraizada no Novo Testamento, uma eclesiologia que superou a dicotomia entre clero e leigos e recuperou a dimensão essencialmente comunitária da igreja. Leonardo Boff entendeu essa mudança como uma eclesiogênese, um novo nascimento da igreja. Sem voltas nem rodeios, ele afirmou que “as comunidades de base reinventam a igreja”. Elas a reinventam, segundo o famoso teólogo, não como “expansão do sistema eclesiástico vigente, assentado sobre o eixo sacramental e clerical”, mas como “uma forma diferente de ser igreja, baseada sobre o eixo da Palavra e do leigo”, ou seja, sobre o mesmo eixo que os reformadores propuseram como base para o sacerdócio de todos os crentes. Não é de surpreender, portanto, que várias das características da igreja, segundo a “nova eclesiologia” que Boff descreve, coincidam em termos gerais com as da igreja com que sonhavam os reformadores:
 
- Igreja – povo de Deus;
 
- Igreja em que os leigos são “verdadeiros criadores da realidade eclesial, do testemunho comunitário, da organização e da responsabilidade missionária”;
 
- Igreja como “koinonia de poder”, “contrária ao princípio de monopolização do poder nas mãos de um corpo de especialistas, por cima e por fora da comunidade”;
 
- Igreja em que “toda a comunidade é ministerial, não só alguns dos seus membros; dessa forma supera-se a rigidez do trabalho religioso: hierarquia/direção, laicato/execução”;
 
- Igreja de diáspora que se faz presente na sociedade civil, “disseminada dentro do tecido social”, gerando “uma mística de ajuda mútua”;
 
- Igreja libertadora, “porta de entrada (do ponto de vista do povo) para a política como compromisso e prática em busca do bem comum e da justiça social”;
 
- Igreja que “prolonga a grande tradição”, de Jesus, dos apóstolos e das primeiras comunidades cristãs, que tem como eixo articulador “a Palavra de Deus ouvida e lida no contexto dos seus problemas, a execução das tarefas comunitárias, a ajuda mútua e as celebrações”;
 
- Igreja que “constitui a unidade a partir da missão libertadora”, não a partir de um governo hierárquico, um “poder centralizador [...] que chega a expropriar o povo cristão de todas as formas de participação decisória”;
 
- Igreja com uma nova compreensão da sua universalidade, universalidade esta que leva a sério as causas universais, como “a libertação econômica, social e política que abre a perspectiva para uma libertação plena no reino de Deus”;
 
- Igreja “toda ela apostólica”, já que “todo enviado (e todo batizado recebe a tarefa de anunciar e testemunhar a novidade de Deus em Jesus Cristo) é um apóstolo e continua o envio dos primeiros doze apóstolos”.
 
Lamentavelmente, o próprio Vaticano se encarregou de criar obstáculos e, finalmente, de impedir o crescimento de um movimento que tinha o potencial de injetar vida nova na Igreja Católica Romana.
 
Cabe acrescentar, no entanto, que é igualmente lamentável o crescimento atual do clericalismo em círculos evangélicos na América Latina e em outras regiões do mundo, com o surgimento de pastores e apóstolos que monopolizam o poder e desconhecem a liderança de serviço. Quanta falta faz uma nova Reforma, que torne possível uma eclesiogênese evangélica que tenha como eixo a Palavra de Deus e o laicato, e reconheça em termos práticos a importância do sacerdócio de todos os crentes para a vida e missão da igreja!


Traduzido por Hans Udo Fuchs.

https://www.ultimato.com.br/conteudo/o-dia-da-reforma-e-o-sacerdocio-de-todos-os-crentes?fbclid=IwAR3XZze100uy4geh5vTHZQMQhwft0tc_P1xpOmlzr8n1lyuXoEOSX_9QOKE


18 de outubro de 2018

A AUTORIDADE DA BÍBLIA EM LUTERO





Foi a Bíblia que promoveu a Reforma da igreja no século 16. Lutero era professor de Bíblia e descobriu nela o quanto a igreja se havia afastado do evangelho. Com a Bíblia na mão – e na cabeça! – enfrentou papa e imperador, exigindo correção de curso em igreja e Estado. Admitia como único critério da verdade a Bíblia. Jogou o sola scriptura (somente a Escritura) contra a igreja de seu tempo, denunciando os abusos que se haviam instalado. Aliás, todas as reformas, ontem e hoje, são inspiradas pela Bíblia, tendo nela sua mais enérgica promotora. Assim também na Reforma de Lutero e, mais tarde, de Calvino.

É importante anotar que Lutero, mesmo assim, não pode ser chamado um “fundamentalista bíblico”. Ele não é adepto da inspiração verbal. Distingue entre letra e Espírito, entre Escritura e evangelho. Nem todas as passagens bíblicas possuem a mesma autoridade. É conhecida sua crítica à Carta de Tiago, considerada por ele “epístola de palha”. Constatou nela muita lei e pouco evangelho. Para Lutero, a Bíblia possui pontos altos e baixos, partes de maior e outras de menor densidade evangélica. Por isso erra quem a lê de modo “linear”, sem critério avaliativo, sem percepção para o essencial. A Bíblia tem um centro que é Jesus Cristo. É a partir dele que quer ser entendida. Leitura fundamentalista da Bíblia não constrói igreja. Acaba produzindo seitas.

Por isso Lutero colocou ao lado do sola scriptura o solus Christus (somente Cristo). Isto significa que a Bíblia é palavra de Deus somente à medida que “promove Cristo”. Tornou-se famoso esse critério. Da mesma forma Lutero poderia ter dito que o que está no miolo da Escritura é o evangelho da justificação por graça e fé. Pois Cristo é a nossa justificação. O sola scriptura é interpretado pelo solus Christus, e este, por sua vez, pelo sola gratia (somente por graça) e o sola fide (somente por fé). Lutero tem uma compreensão profundamente “evangélica” da Bíblia. Não são a capa preta, as faixas douradas, as línguas antigas ou qualquer outra coisa externa que conferem autoridade à Escritura. É Jesus Cristo e o evangelho que ele dá notícia.

Consequentemente, não basta a simples citação bíblica como demonstração da verdade. É preciso argumentar, ver a Bíblia em seu todo, não fracioná-la em pedaços. Igreja luterana necessita de “teologia”, ou seja, de uma confissão que formule a essência da fé. Não se satisfaz com a mera listagem de versículos. E, todavia, é somente na Bíblia que vamos conhecer o evangelho. Ela não precisa de adendos quando se trata de saber o que é necessário para a salvação e o ser igreja. Lutero não era cego com relação às passagens difíceis na Bíblia. Ainda assim, ele pergunta: “(...) onde está escrito de maneira mais clara que Deus criou céu e terra, que Cristo nasceu de Maria, que sofreu, morreu e ressuscitou e tudo o que nós cremos, senão na Bíblia?” A Bíblia não necessita de um magistério eclesiástico para ser entendida. Quando estudada com dedicação, interpreta-se a si mesma. Vale a pena fazer o teste.


Pastor Dr. Gottfried Brakemeier, em “Por que ser cristão?”, Editora Sinodal